Pai e filho em um aparelho de transformações
Energia, luz, matéria e acaso se fundem para reforçar os fios de uma paternidade em momento de transição único e de crescente parceria
Eduardo Olimpio|Do R7

Literalmente vivemos tempos que eu chamo de pontiagudos porque parecem ‘espetar’, o tempo todo, nossas capacidades de absorção de tudo que rola nos variados campos onde a vida se desenrola. O fenômeno não é singular nem da contemporaneidade. Antepassados sentiram o mesmo arrepio na pele entre o engatinhar e seus passos finais.
Testemunhamos, diariamente, pleonasmos como ‘tragédias anunciadas’, dramas esperados mas não pensados quando estamos neles, mandos e desmandos políticos por medidas provisórias governamentais cada vez mais definitivas recaindo sobre o cotidiano da sociedade e coisas estúpidas originais ou copiadas de gente de igual adjetivação. Ponha aí guerras, massacres, crimes contra a dignidade humana e o meio ambiente, dentre outros incontáveis e inconcebíveis maneirismos.
Apesar dessas andanças sofridas, há também um outro lado desta experiência em habitar o planeta de forma bípede, supostamente com uma inteligência acima dos demais seres vivos e privilégios discutíveis em rodas autointituladas como de alto nível dialético. Alegrias passageiras, felicidades um pouco mais duradouras e prazeres de curto, médio e longo prazos compõem o balaio vivencial que nos enche de, diria até, esperanças por um mundo melhor, mesmo esbarrando no clichê positivista de jingles embalados para presente que, por finalidade, cooptam nossa crítica e sublimam uma certa dor do existir.
Figuram nesta pretenciosa lista de ‘bondades’ situações como a paternidade. E, de minha titubeante experiência no ramo, descobri, dia desses, certas nuances que só desse ponto de vista conseguiria presenciar com a devida (porque é natural, não porque é merecido) sensação; melhor, emoção.
Ressuscitei de um armário um equipamento eletrônico que jurava eu já estar em pleno pó, decompondo-se em suas partículas diminutas de silício, plástico, cobre etc. Estava lá, desligado, esperando apenas uma atitude de um ser, repito, supostamente mais inteligente para dar-lhe um destino emocional e ambientalmente correto.
Nem uma coisa, nem outra, me moveu. Simplesmente resolvi, sei lá o porquê, plugar nele sua fonte de energia e ligá-lo à tomada. Fez-se a luz. Um parêntese aqui: sempre me fascinou ver aparelhos diversos funcionando de forma autônoma. Fico a imaginar como pessoas foram capazes de sintetizar neles elementos químicos, princípios matemáticos, leis da física e moldes plásticos, metalizados ou de madeira para juntar tudo e criar algo que não existia até então. Prosa para outro momento.
Coloquei o dispositivo no móvel que fica abaixo do televisor da sala. Uma noite bastou para que, ao admirar seu repertório e capacidade, me emocionasse por um longo tempo que não medi, para o qual não achei a métrica, mas durou o suficiente naquele escuro, interrompido apenas pela luz que dele saia, tanto a de partículas (luz é partícula ou onda?) quanto a inominável que penetrou minhas retinas e repicou nas memórias do cérebro.
Dia seguinte, ou numa sequência próxima, flagrei outros olhares semelhantes dirigidos ao tal. Quando ocorrido, me enchi novamente de uma certa palpitação benéfica ao coração. O que vira, afinal? Meu filho, quase um pré-adolescente, a investigar o que do aparelho saía, a questionar situações, nominar outras, vibrar e, de seu jeito, acarinhar cada fase que aquela caixa plástica exalava, com palavras lindas, aveludadas, cheias de ternura e pitadas de risos. Um deleite aos sentidos, meus e dele!
O momento descrito retrata outro mais pleno, que é uma relação cada vez mais instigante e desafiadora que tenho vivido com este fruto de um determinado momento de prazer carnal que, de forma irrevogável e com uma força de mil megatons, sacudiu a mim como nunca havia acontecido antes, nem nas minhas aventuras mundo afora lastreadas por viagens atípicas e desafiadoras em suas próprias naturezas.
Essa convivência é um cantinho fofo dentro do caos, no qual aprecio com vista privilegiada os desdobramentos de um ser humano em sua descoberta de certas coisas, de como se dá esse processo de amadurecimento psíquico e cognitivo, incluindo-me nessas entranhas; é sentir o cheiro e a forma de menino se esvaindo para que no seu lugar ‘nasça’ um pós-menino.
O que não faz um porta-retrato digital com display manchado, melecado, empoeirado, mas de conteúdo ímpar, a mostrar desde os primeiros minutos de vida do filho fora do útero até brincadeiras na piscininha e poses com os avós?












