Para cancelar a falta de um mínimo de conhecimento
Trava-se uma luta hoje em defesa de um bem ou mal sem muita noção, que se mostra vexatória quando nega a dinâmica da própria natureza
Eduardo Olimpio|Do R7

Na minha época pré-cambriana, válida antes da vida digital, a gente brincava com os moleques da rua de qualquer coisa. Amarelinha, pega-pega, esconde-esconde, pião, mãe da rua etc. eram territórios livres nos quais cortávamos nossa pele, lascávamos as unhas debaixo da rolimã dos envenenados carrinhos de madeira e fazíamos bolhas de sangue nos mesmos dedos delas, marcávamos nossa carne de roxo pelas inevitáveis (e até desejadas, para mostrarmos alguma valentia) pancadas, socos e chutes e, assim, o cotidiano sem chip corria, com pequenos traumas pertinentes ao período infanto-juvenil e sem o sistema binário 0 e 1 a comandar nossa imaginação e ação.
Na vida analógica, andávamos em cima do muro nos equilibrando entre a calçada e o terreno alheio de um vizinho, guerreávamos com mamonas assassinas em nome de alguma bobagem, agendávamos jogo de futebol ou de vôlei contra a rua de cima ou a de baixo e recebíamos recado de algum amigo de Caloi (não existia ‘a bike’; era bicicleta ou simplesmente bici) para almoçar porque a mãe estava chamando.
Quando brigávamos, era física a parada. Nada de telefonemas anônimos até porque nem mesmo havia tantas linhas instaladas no bairro e as tretas eram resolvidas nas ruas, nas saídas das escolas, durantes as quermesses, nas ovadas de aniversários, no campinho do futebol ou no terreno baldio. Contudo, depois de uns tapas e palavrões trocados, e chutes ao vento, bastava um tempinho só de purgatório e lá íamos nós todos juntos de novo, brigantes e espectadores (não havia assinantes de entretenimento ainda), para a próxima amarelinha, pega-pega e esconde-esconde.
Acontece que a vida virou o que virou. Bastou o final do século 20 e o início do século 21 se encontrarem em meio à nossa travessia e, com mais intensidade, na virada das crianças para os jovens, que uma nova cultura se instalou nas instâncias de relações sociais de forma tão excitante e renovadora que passamos a considerar esta nascente era como sendo digital.
Focando as nuances e assistindo a programas de televisão desta moderna forma de viver, vemos a todos instantes o tal ‘cancelamento’ de fulano ou beltrano por causa de coisas que este ou aquele diz, fez, insinuou, mostrou em vídeo, fotografou, gravou, disse pessoalmente ou simplesmente agiu como sua natureza impõe. O problema é que essa chamada ‘cultura do cancelamento’, da aniquilação do outro, praticamente, vem sendo adotada para toda e qualquer circunstância que se apresente sem que haja, por parte do cancelador, um mínimo de reflexão.
Prova disso foi o que aconteceu, quase como uma forma de piada sem eira nem beira, com uma onça-pintada habitante do pantanal no Mato Grosso do Sul na semana passada. Um estudante de Biologia ficou surpreso (eu ficaria broxado) ao publicar uma série de fotos em que o animal caça e mata uma capivara, fonte de proteína tão natural ao predador.
Nem precisa ser um especialista na natureza dos bichos pra relembrar, mesmo que porcamente (me desculpem os suínos), das aulas de Biologia no então ginasial para remontar a imagem de uma aula perdida, lá no meio das lembranças, de que há na natureza, em qualquer parte do planeta, a chamada cadeia alimentar, na qual geralmente um animal de maior porte, mais esperto, mais inteligente, mais adaptado, mais veloz ou mais forte (e sempre esfomeado) vai sair à caça e, necessariamente, comer o fruto de sua caçada, seja nas águas, nas terras, no gelo ou no ar. E, muito provavelmente, este ser caçado, menos em tudo do já listado, fez o mesmo com outro ser ‘menor’ e ‘menos’ do que ele. Seu caçador, também, por certo será presa de outro ‘maior’ e ‘mais’ do que ele. Assim, fecha-se um ciclo naturalíssimo de vida, de sobrevivência e morte.
Não perdi meu tempo em caçar os comentários postados por outros nas redes sociais do estudante testemunha dos fatos. Li sobre seus posicionamentos e de colegas acerca da falta de conhecimento que desova numa educação de baixa amplitude e de fixação de preceitos que, nas minhas palavras, só pode levar ao comprometimento de todo um sentido social, provocando um gasto absurdamente colossal e vital de tempo e dinheiro para coagular uma verdadeira sangria de aberrações que orbitam em torno, e quase nunca dentro, da ciência, da linguagem, das artes.
Entre minha infância e adolescência, não me lembro de ter cancelado nenhum passarinho por ter no seu bico minhocas contorcionistas, ou um vira-lata por trazer entre seus dentes penas, possivelmente desta mesma ave. Entendi, desde cedo e sempre, o ciclo da fome. Hoje, entendo o da violência e da ignorância, minha e alheia.












