Seremos para sempre tolos diante do ouro?
É chegada a hora de rever o pacto perverso da sociedade humana com seus parâmetros de consumo que impactam a água, a história e a saúde
Eduardo Olimpio|Do R7

O nosso mundo, surgido a partir de alguma(s) fonte(s) que uns identificam como divina e outros como um aglomerado de partículas que, em tese, sempre existiram estando apenas desorganizadas ou não fundidas - simplificando muito -, apresenta uma incontável diversidade de formas, estruturas químicas naturais e sintetizadas a partir de cores, cheiros, densidades e tudo mais que, a olho nu e numa leitura ancestral sem regras, oferece-se a quem quiser explorar.
Em mais uma sintetização e sem negar a falta de novidade nisso, trata-se de uma vitrine onde podemos acessar, com níveis de dificuldades ou facilidades, quase tudo que vemos e sabemos e o que não vemos e ainda não acessamos ou conhecemos, que estão nas ‘profundezas’ da lojinha Terra. Extrapolando as prateleiras, também nas inúmeras grotas, cavernas, florestas, desertos, cordilheiras, mares, fossas marinhas, rios e camadas da atmosfera.
Isso tudo para lembrar, a quem ainda não ‘linkou’, que de muitas formas estamos, todos os elementos que aqui no planeta se encontram (inanimados ou não, seja de que forma for), num mesmo barco sideral em que havia infinitos recursos naturais a serem, numa palavra mais branda, usados por nós.
Acontece que a complexidade da estruturação humana em formas variadas e coletivas deu de ombros, por milhares de anos, a este estoque no supermercado. Fomos lá nas gôndolas e pegamos tudo que estava ao nosso alcance, das mãos e do dinheiro disposto a ser trocada de mãos, para satisfazer alguma necessidade básica ou do campo do capricho.
O que sempre existiu, inclusive muito antes do Homem, hoje compramos, damos uma quantidade de alguma coisa em troca delas como, por exemplo, suas excelências os dois átomos de hidrogênio unidos a um átomo de oxigênio, sem os quais eu não estaria aqui digitando e, você leitor, lendo. Simplesmente não existiríamos, ao menos como nos reconhecemos nesta dimensão das coisas. Ah, sim, esqueci que as amebas se reconhecem quando se encontram; tal tese está em fase atemporal de comprovação sócio biológica.
Dado que tornamos as coisas difíceis, não contentes começamos a valorizar os metais derretidos, que nos deram poderes sobrenaturais sobre o que restava de substâncias e seres. As moléculas, juntas em determinadas formas, forjaram apetrechos que nos elevaram na cadeia da vida e nos transportaram até o insondável espaço. Ainda não contentes, vimos o brilho do ouro e o valorizamos mundo afora como lastro, seja lá o que isso possa significar na vida de qualquer ribeirinho às margens dos afluentes do rio Amazonas.
E, espero que não tardiamente, se não essas populações desprovidas de tudo, que seus pesquisadores, legisladores e procuradores da República possam defendê-los de insanidades como o Programa de Apoio ao Desenvolvimento da Mineração Artesanal e em Pequena Escala (Pró-Mape), fruto do decreto 10.966/2022, publicado dia 14 de fevereiro agora pelo governo federal, e chamado carinhosamente pela militância pró-ilegalidade que apoia o extermínio de povos indígenas originários e a tomada de áreas públicas ‘inservíveis’, que apenas ‘oneram’ o contribuinte ou são ‘de ninguém’, de ‘mineração artesanal’, numa tentativa, desculpem o trocadilho, de ‘dourar a pílula’ à base de mercúrio, violência, crime ambiental e antropológico, tudo avalizado pelo chefe do Poder Executivo e representante eleito, pela maioria dos votos, na última eleição.
Ou pomos fim ao slogan ‘passando a boiada’ ou morreremos, como nação humana, de sede (nem sequer água engarrafada no mercadinho da esquina) ou pisoteados pelas patas pesadas do gado, ou ainda por aqueles protozoários unicelulares já citados que, quando encontram seus semelhantes, se reconhecem como força destrutiva.












