Tortura não cabe na escola e em lugar algum

Em defesa da dignidade da existência humana, que cada um de nós possa libertar pessoas do sofrimento sem nexo e perturbador da tortura

Crianças amarradas em creche de São Paulo

Crianças amarradas em creche de São Paulo

Reprodução / Record TV

Tortura é sempre uma forma que os fracos usam para intimidar os fortes, numa situação desequilibrada de poder mediada muitas vezes pela inveja, subserviência tácita — e, por natureza, estúpida — a escalões superiores ou absoluta falta de empatia, além, claro, dos meios para tal finalidade. Machucar física e psicologicamente alguém é fazer minar suas forças ou arrancar deste "soluções" às necessidades demandadas que, 99% das vezes, podem ser resolvidas por outras vias. Portanto, não há defesa que se digne em casos encaixáveis nesta situação ou análoga. Também não existe espaço dentro do que resta de ética humana para positivar nem um grito de um torturador diante de olhos esbugalhados, lágrimas vertendo, respiração ofegante, sede e fome ou fluídos corpóreos sendo expelidos à revelia.

Entro assim nesta barbárie, ainda sob investigação policial, que tomou conta do noticiário (é mais uma, verdade!) com relação às crianças que aparecem, em um vídeo e fotos, em situação de torturadas dentro de uma escola de educação infantil na capital paulista.

As cenas revoltaram a sociedade. Crianças bem pequenas amarradas em uma espécie de lençol, individualmente, com membros atados, sem possibilidade de se mexerem. O sofrimento é visível, e as imagens indicam que estes pequenos seres humanos estavam sendo torturados dentro de um banheiro da instituição de ensino.

Levando-se em consideração o que se apurou até agora, essa prática de extermínio de "comportamentos indesejáveis" como xixi e cocô fora de hora e local, birra, sono, fome, choro, vômito e regurgito não aconteceu só uma vez. E, mesmo sem ter um filho matriculado numa escola assim, é certo e líquido que a prática vem sendo tocada há tempos. Por depoimentos na delegacia, até se ficou sabendo que profissionais que lá exerciam seu trabalho pediram demissão diante da violência delatada.

Aí entra uma reflexão que parece oportuna e, mesmo que tardia, pode ser previdente em situações parecidas no futuro. Futuro, não, agora, pois também é certeza que torturas a bebês, crianças, jovens e idosos institucionalizados, quer em creches, centros educacionais ou asilos, estão acontecendo neste exato momento em qualquer lugar no planeta. Aposto todos os meus vinténs nisso.

Mas qual é mesmo a reflexão? Por qual motivo profissionais da Educação e demais trabalhadores do local dos fatos não denunciaram antes? Por que esse silêncio perturbador, abafado por paredes, portas fechadas ou lençóis, vindo de pessoas que sabem o que acontece, têm consciência de tudo mas simplesmente se calam até não mais poder? Ouvidas, professoras desta escola disseram que temiam perder o emprego!

Entendamos a situação do país. Não está fácil pra ninguém, afora os do clube da ciranda político-financeira, manter ou conseguir o emprego mesmo não sendo este o dos sonhos. Quase nunca é dos sonhos, mas isso não dá o direito a condescender com situações desse nível, que atacam gravemente os Direitos Humanos.

Se assim as coisas andam e a banda toca, sugiro aqui um projeto do governo que crie uma espécie de cadastro de denunciantes. Não se trata de um incentivo tipo "caça às bruxas". Uma vez provada à polícia e à Justiça a autenticidade dos fatos alegados, essas pessoas, numa espécie de programa de proteção à testemunha, seriam de alguma forma beneficiadas em novas contratações. Empresas, institutos públicos e privados, fundações, organizações não governamentais etc. que gozam dessas prerrogativas modernas escritas em inglês (ESG, compliance... e segue a lista) poderiam ter acesso prioritário a esses currículos uma vez que, a priori, eticamente veriam neles uma compatibilidade com seus princípios de atuação de antemão.

Isenções e demais atrativos ao programa podem e devem ser pensados. O que não dá mais é esticar o sofrimento do outro por causa das contas a pagar do observador. Isso vale para creches, escolas, asilos, casas de saúde em geral. Queria colocar na lista aqui abrigos para menores infratores, mas a discussão disso requer um outro espaço, dedicado exclusivamente ao tópico.

Por ora, livremos, libertemos e salvaguardemos corpos e mentes de seres humanos estejam onde estiverem, sejam o que forem, tenham que idade for.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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