Um infinito de porquês cabe no quadrilátero da droga
A insuficiência de ações contra às drogas nos põe em xeque minuto a minuto diante da presença delas desde que nos tornamos gente
Eduardo Olimpio|Do R7
Ninguém merece, nem mesmo esta cidade viva que é a São Paulo de onde escrevo, ter em suas entranhas um lugar internacionalmente conhecido como a terra do crack, local onde convivem viciados na droga, traficantes e "aventureiros"’ transeuntes, que esbarram em corpos carcomidos até o osso pela pedra fumada em cachimbos "bic" entre os quais os femininos, expoentes de uma explícita miséria humana, oferecidos a troco de quase nada para, num ciclo infernal, ser preenchido novamente pela fumaça que defuma os neurônios.
A Cracolândia virou sinônimo de terra arrasada, um logradouro "autônomo" que se apartou do ente público municipal e do estadual para se prover numa espécie de autogestão cataclísmica, em que poderosas forças não estatais ditam as regras e manejam a conduta suicida de almas depenadas de tudo, das roupas até a última camada da estima.

Não é necessário desfilar pela avenida do conhecimento social as alas nas quais a questão da droga se insere. Se o leitor não foi às ruas pessoalmente porque nunca veio a Sampa ou prefere contornar o espaço, sem problemas. Bastam alguns cliques na web e o horror se materializa pela tela que se vê. E há, claro, várias leituras para as cenas que se sobrepõem: é um caso policial, é um caso de saúde pública/sanitário, é um caso espiritual, é um descaso de A a Z.
A droga está presente na humanidade desde sempre. Relatos antigos contam sobre ingestão de substâncias entorpecentes das mais variadas formas no corpo, seja para "alienar da simples existência", seja para curas do corpo e do espírito. Sagrados ou não, rituais religiosos ancestrais ou até mais recentes usaram (e/ou ainda usam), como um de seus suportes litúrgicos, elementos alucinógenos que a terra, fértil, provê, e em nome de curas, experiências sensoriais com divindades ou "apenas" uma sublimação da realidade, muitas bases de plantas e misturas sintetizadas acabaram penetrando no cotidiano humano em praticamente todas as regiões onde o homem esteve e está.
Nas famílias como a minha, ou por certo numa que cada um dos leitores conhece, por exemplo, a droga se fez presente em variadas intensidades, momentos e sentidos. De onde falo, convivi com parentes próximos a mim que traficavam drogas ou delas se tornaram dependentes, como da cocaína. O trato diário com esse mundo levou dois destes ao cemitério antes de completarem os 50 anos de vida. Tenho a plena convicção de que, aí, na sua ou numa conhecida, a história se repete com algumas poucas nuances diferenciadas. No entanto, no fundo todas se igualam na tristeza e no caos das perdas financeiras e emocionais.
O que sabemos sobre o poder das drogas em nós é o que colecionamos de conhecimento científico/espiritual até aqui. Internações voluntárias (ou não) em clínicas, terapias psicológicas, tratamento psiquiátrico, experimentações espirituais e todo o esforço para livrar a sociedade deste mal, inclusive a repressão policial com todas as suas deficiências e questionamentos quanto à eficácia que deságuam num Poder Judiciário e penal nem sempre em sintonia com seu tempo, são iniciativas que tendem a diluir a carga que esse comportamento individual impõe ao coletivo e social.
Julgar nem sempre é fácil por conta de nossas próprias deficiências e de onde estamos a fazer o juízo de valor. Cobrar das autoridades ações que visem, antes de tudo, a preservação da vida de pessoas em situação de rua, agravadas pelo vício, é dever. Ajudar no que for possível, também o é. Nem precisa pôr a mão na massa; basta pôr a discussão em pratos limpos, sem preconceitos, aos olhos da lei, aos cuidados médicos e a uma lista grande de implicações que estão na raiz deste problema mundial e histórico.
No mosaico impregnado pela droga, ela é um enorme e estruturado problema. É multinacional e de difícil combate, seja logístico ou no varejo da "boca de fumo". É policial e social. É da tradição e dos costumes em determinados grupos. Desperta ódio e paixão a lida, piedade e crítica. De difícil consenso, acompanha a humanidade há tempos e, ao que tudo indica, assim continuará, o que nos leva a nos debruçar, trabalhar, debater saídas, mesmo que nunca suficientes para a complexidade de suas características como um produto de consumo farto e nocivo.












