Um rei temporal e seu súdito aplicativo
Sentados e centrados, limpamos nossa linha do tempo com auxílio luxuoso da tecnologia que apaga, mas não zera nossas memórias
Eduardo Olimpio|Do R7

Não era para escrever sobre o que vem por aí, mas a única certeza que tinha era a de que daria um breve tempo do vírus e suas ramificações intermináveis sob quaisquer pontos de vista. Mesmo com um descansinho que se faz necessário, ainda é importante mantermos essa virótica relação com o tema em que pese a decisão de um afastamento, nem que curto, de suas coroas, que matam de forma avassaladora que nem dá tempo de se produzir outras, as de flores.
Com ou sem ele, o que não deixamos de fazer nestes períodos mais reclusos foi se comunicar. Pelo contrário, forçosamente nos vimos adicionando às nossas agendas telefônicas vários nomes e números novos, de pessoas com quem precisamos um momento, que seja, interagir, seja para reclamar de um produto comprado, pedir comida, solicitar um orçamento e muitos eteceteras.
E munidos destes dados e dos mais antigos, naqueles momentos em que estamos conosco mesmo sem ninguém ao redor como no banheiro, é mais do que necessidade (vício mesmo) levar consigo o celular para se atualizar do noticiário, jogar, trabalhar, pesquisar e, óbvio, se comunicar com outros, preferencialmente sem áudio e muito menos vídeo. Sim, há exceções, sabemos das potencialidades humanas!
As jornadas duplo-solitárias em que apenas você e seu aparelho de telefone estão reclusos e conectados, intimamente um ao outro em ambiente comum e favorável, servem para tudo que falei e mais um pouco. Dentre as serventias está a boa e já velha manipulação. Sim, esta que você mesmo está pensando, qual seja, abrir o aplicativo mais conhecido de comunicação e passear pelas suas intimidades.
E é nessa hora que, invariavelmente, após finalizarmos as conversas urgentes mesmo com o eco das paredes indo junto aos áudios e/ou escritas, passamos a etapa seguinte que é descer o menu de conversas e olhar para cada nome nele listado. Quando isso ocorre, a cada deslizada mais curta ou longa provocada pelo polegar sobre o vidro, você ‘descobre’ que há de tudo lá.
Afetos, desafetos necessários, gente chata mas igualmente necessária, ex alguma coisa, parentes diversos, pessoas de quem andamos saudosos mas relutamos em dar um ‘e aí, sumido(a)’, fornecedores de alguma coisa, contatos profissionais, mecânicos de carros e autorizadas de máquinas de lavar, técnicos de informática, inquilinos, gente que já morreu, grupos ativos e interessantes, outros extintos/silenciados que não mais respiram e você tem preguiça em sair deles, pediatra, astrólogo.
Se formos olhar as fotos, aí é uma aventura antropológica e artística. Umas estáticas que há anos estão lá e não envelhecem seus donos, outras que a cada 3 dias mudam e te confundem a visão então acostumada, minimalistas, divertidas, em preto e branco, sem noção com foco, com noção sem foco, pessimamente enquadradas, maravilhosas, com frases de efeito, abstratíssimas, religiosas, herméticas. A coisa ‘viaja’ mesmo quando, com mais tempo e esforço, vamos aos status. Dá de tudo...tudo mesmo, que nem caberia aqui listar.
Taí um bom instante das nossas vidas para refletirmos sobre como e se as pessoas que ocupam preciosos bytes da nossa memória eletrônica ainda fazem algum sentido em estarem lá.
Quando o tempo era da agenda em papel, ao ficar desfolhada e imunda com suor em camadas, em algumas horas passávamos a limpo seu conteúdo a outra e, neste trânsito, eliminávamos muitos dos afetos e cia. Hoje, em alguns minutos, teclar ‘apagar’ requer desarticular laços, tão fáceis de serem resgatados da agenda podre (ops, do becape) caso haja arrependimento.
Nesta faxina que se faz vez ou outra necessária, uns deixarão para sempre de existir nas nossas comunicações, mas não necessariamente das nossas lembranças... e isso não deveria nos incomodar, pois estão acomodados na linha da história e apenas ocorreram, não mais ocupam nossa vida, só fizeram parte e no tempo delas.












