Eduardo Olimpio  Verdadeiro inimigo do futebol é o homem selvagem

 Verdadeiro inimigo do futebol é o homem selvagem

Selvageria vista neste domingo após jogo do Grêmio contra o Palmeiras é mais um capítulo de uma novela sem fim

Torcedores do Grêmio promoveram quebra-quebra após jogo contra o Palmeiras neste domingo (31)

Torcedores do Grêmio promoveram quebra-quebra após jogo contra o Palmeiras neste domingo (31)

REUTERS/Diego Vara

Quem, por paixão ou ofício, acompanha o mundo dos esportes, particularmente o futebol, certamente já viu torcidas uniformizadas, organizadas ou não, patrocinadas pelos respectivos clubes que carregam no peito ou não, em uma situação de emoção (ou catarse) coletiva na mais alta voltagem. Ganhando ou perdendo, torcedores extravasam suas emoções de variadas formas. Eles são parte indissociável do espetáculo, atestada principalmente pelos atletas neste período de pandemia que esvaziou arenas e mexeu com o brilho dessa interação entre jogador e torcedor, mesmo que nem sempre amigável.

Contudo, quando o time do coração sofre uma derrota, na partida ou mesmo um rebaixamento de divisão, não é difícil imaginar o grau de tristeza e demais sentimentos atormentáveis pelos quais passam estas pessoas que não só pagaram para ver ao vivo no estádio como as que estão fora dele, em suas casas, clubes, bares.

O choro, uma espécie de materialização involuntária líquida e certa do pesar, parece ser o de menos em algumas situações, sem aqui querer menosprezar o respeitável pranto de ninguém. Não se trata de analisar os motivos pelos quais rios correm dos olhos de torcedores. Há uma certeza nisso, de que a emoção existe, de que choramos por coisas, situações e pessoas. Ou seja, não cabe julgamento a quem, em silêncio ou se descabelando, molha o rosto e o enxuga na manga da camisa do time.

A coisa é num outro nível. Pior, na falta de alguma razoabilidade. Falo dos descontroles, individuais e coletivos, que ocorrem com um ou mais de um torcedor quando o desespero bate e, saindo de seu eixo até então contido - mesmo que eufórico pelas emoções que uma disputa gera -, cai na esparrela. Uma vez nela, parece que os olhos da consciência ficam cegos tal qual na canção “Faroeste Caboclo” da banda Legião Urbana, e nada mais veem a não ser algum momentâneo ódio que destrói tudo o que está a sua frente. E nesse contingente encontra-se outro torcedor ‘inimigo’, portanto outro ser humano, que quando cruza o caminho acende a pólvora em proporções gigantescas que, invariavelmente, termina em dor; na fina tradução, em morte, lesões, depredação e vandalismo.

Seja no estádio de futebol, no meio das ruas adjacentes ou em estações de transportes públicos, marcadas de antemão pelas redes sociais ou no calor do momento, bandos de torcedores de times adversários se enfrentam como se numa batalha territorial ou famélica estivessem. O que defendem? Não arrisco a fechar um tema em si, mas fica óbvio que querem, ambos, mostrar um para o outro que seu time é melhor, que você, o outro em questão agora (pois os papéis se invertem e se eternizam simultaneamente em zigue-zague), é um babaca porque ‘torce’ para um time que não é o meu!

Um rol de absurdos toma conta do trem todo. Não há, parece, Estatuto do Torcedor, Código Penal ou qualquer normativa ou filosofia de boteco que impeçam, na história, fatos lamentáveis de violência porque, essencialmente, este ‘você’ que não sou eu, não comunga comigo, não compartilha das minhas ideias e paixões, é meu inimigo por ‘natureza’ e pronto.

Lembro de um livro do antropólogo Luiz Henrique de Toledo, “Torcidas Organizadas de Futebol”, e de outras obras sucessivas do autor, além de tantas outras pesquisas e estudos sociais, que ajudaram muito a elucidação de como essas ‘tribos’ se estruturavam, lá pelos idos do começo dos anos 1990, por meio de práticas que iam (e ainda vão) de uniformização, códigos comportamentais unificados, linguagens, compromissos (quase juramentos) e demais vértices. Alguém aí disse seitas?

Há 26 anos a morte de um torcedor no estádio do Pacaembu, em São Paulo, e a batalha medieval travada com paus e pedras vindos de um canteiro de obras no local, acenderam um alerta nas autoridades. Muito se avançou na segurança de todos de lá prá cá. Só não conseguimos, ainda, parar de olhar adversário esportivo como inimigo. E a política, para piorar o quadro atual, nos espelha e nos empareda nessa equivocada e estúpida dicotomia.

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