Vida, morte e o socorro às árvores urbanas
Estas plantas ajudam ao bem-estar como um todo, mas demandam responsabilidade e cuidados permanentes da sociedade e autoridades
Eduardo Olimpio|Do R7

As chuvas de verão, cada vez mais torrenciais e traiçoeiras por conta do aquecimento global dentre outras vertentes científicas (ou seja, comprováveis), inundam cidades mal planejadas, cobertas extensivamente de asfalto e concreto. Quando estes pavimentos dão alguma licença em sua ostensividade, as poucas árvores per capita, eternamente controversas em suas funções sociais por serem vilãs, vítimas de descaso público mas também benevolentes com o paisagismo e a qualidade do ar, sob estas águas também não aguentam o tranco.
Centenárias, exóticas (não nativas), doentes e desassistidas quando se encontram entre vilanice, abandono e tempo de vida, invariavelmente se encontram disputando espaço com o caminhante em calçadas podres e estreitas, ou batalham no ar com outras espécies cativas e endêmicas como o fio de cobre, o cabo ótico e apetrechos mil em seus arredores, que cada vez mais se assemelham a almoxarifados das concessionárias de telefonia, ou guarda-volumes aéreos onde ‘cabem’ metros e metros de fiação enrolada de tudo quanto é forma do zero ao infinito.
Percebo, não sei se mais alguém, que elas, as árvores, estão numa vibe suicida coletiva e perigosa, na qual parecem querer esticar até onde podem seus galhos e folhas para servirem de para-raios, à espera de um contato imediato de grau elevadíssimo e quase sempre mortal que as carregue de vez ao plano espiritual.
O cenário para este docudrama de vida e de morte é a urbe, com suas calçadas descalças, canteiros em frangalhos e praças de tamanhos e funções variáveis. Se fosse rural, pegaria fácil o exemplo lírico e lindo do trecho da canção Saga da Amazonia, de Vital Farias: “Se a floresta meu amigo, tivesse pé prá andar, eu garanto, meu amigo, com o perigo não tinha ficado lá”.
Quando não são tocadas na ‘pele cascuda’ pela energia fulminante de um raio, é o vento forte que sacode suas cabeleiras em copas e as fazem envergar numa reverência cíclica que, se for acima de sua capacidade, terminam agonizantes no chão. Choradas ou desprezadas, estes seres vivos que estão por aqui no planeta antes de nós, requerem outros olhares não só das autoridades públicas como de cada um dos cidadãos que, com elas, aprende a dor e a delícia de conviverem mutuamente. Seria muito melhor se essa parceria se desse em níveis saudáveis a ambos!
Nestes últimos temporais que assolaram várias regiões do Brasil, vimos cenas de arrepiar em se tratando da força da natureza com quem, bem diz a sabedoria popular e a acadêmica, não se brinca. Toneladas de terra encharcada pelas chuvas destruíram imóveis centenários em Ouro Preto (MG). Na capital paulista, mais de 80 chamados ao Corpo de Bombeiros em um dia na semana passada deram uma dimensão matemática ao estrago provocado por árvores caídas, mutiladas, açoitadas, arrancadas de seus pedestais como vilãs, velhas ou sob a pena de olhares. Por certo, mesmo que entendamos a energia e quantidade de água por metro quadrado, na sua maioria estas madeiras se encontram idosas, carcomidas pelos cupins e demais predadores, ocadas por fogueiras humanas em seus calcanhares, alquebradas devido ao uso forçoso de seus troncos e galhadas num esforço acima de sua capacidade de regeneração e resistência mecânica.
A prefeitura de São Paulo já tentou, noutros tempos, dar um ar de seriedade na questão ambiental e fez parcerias com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas para diagnosticar o já sabido quadro ruim da saúde de sua forração arbórea. Via-se muitos destes, repito mais de uma vez aqui, seres vivos, identificados, indicando que alguém preparado, um outro ser vivo chamado rasteiramente de Homem, os encontrou em suas andanças e, imagino, parou para uma prosa demorada o suficiente para escutar suas reclamações de dor, de abandono psíquico por parte dos governos e da sociedade, do lixo em seus pés, de pragas a circularem e atacarem em seus corpos, de batida de carro, da brasa nos seus pés e da velhice em si.
Ouçamos mais os clamores naturais e os estalos. Olhemos para além do verde e do marrom. Tudo acaba sendo sinal de aviso de que as coisas caminham não só conforme rege a natureza, mas principalmente nos centros urbanos, como o tal bicho Homem maneja a terra, o asfalto e o cimento.












