Brasil pode liderar o mercado global de carbono, mas precisa garantir integridade e clareza regulatória
Sem regras claras, potencial brasileiro de liderar o mercado de carbono pode ser desperdiçado
Espaço Prisma|Pedro Plastino*
LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA
Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Costumo dizer que o Brasil é a Arábia Saudita do mercado de carbono. Não apenas pela abundância de ativos naturais, mas pela posição estratégica que ocupamos no cenário climático internacional. Temos recursos ambientais que o mundo inteiro valoriza, como florestas tropicais, biodiversidade única e uma matriz energética limpa. No entanto, sem regras claras e governança técnica, esse potencial corre o risco de ser desperdiçado.
A aprovação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), pela Lei 15.042/2024, foi um passo importante. Agora, o foco deve estar na regulamentação, que precisa ser precisa, eficiente e confiável. O mercado de carbono só se desenvolve com integridade. Isso exige transparência sobre quem emite, quem compensa e como essa compensação é validada. A clareza jurídica é condição básica para atrair o capital privado, nacional e internacional.
Segundo dados recentes da IETA, mais de 60% das emissões brasileiras vêm de setores que ainda estão fora do escopo do mercado regulado, como agropecuária e mudança no uso da terra. Para destravar investimentos nessas áreas, o país precisa deixar claro como o SBCE vai se relacionar com o mercado voluntário de carbono, onde já existem projetos em operação. Sem esse alinhamento, empresas e fundos que poderiam financiar soluções climáticas no Brasil continuam esperando definições.
Outro ponto central é o alinhamento com padrões internacionais, como os mecanismos do Artigo 6 do Acordo de Paris e o CORSIA, que estabelece critérios para o setor de aviação. Sem aderir a esses referenciais, o Brasil perde competitividade e liquidez. Um crédito de carbono brasileiro precisa valer tanto quanto um gerado em qualquer outro lugar do mundo. Para isso, é necessário adotar critérios de adicionalidade, permanência, rastreabilidade e monitoramento independente.
A governança do sistema também precisa ser forte e protegida de pressões políticas. O órgão gestor do SBCE deve ser técnico, estável e transparente. É fundamental incluir especialistas do setor privado, representantes de comunidades locais e pesquisadores na construção das regras. O mercado de carbono não pode ser construído em gabinetes isolados. Ele precisa refletir as realidades do campo e da floresta, respeitando saberes locais e direitos de populações tradicionais.
Estamos a poucos meses da COP30, que acontecerá em Belém, no Pará. Essa conferência é uma oportunidade única para o Brasil mostrar ao mundo que está pronto para liderar a economia verde. Temos o ativo ambiental e a urgência climática. O que falta é uma estrutura confiável que dê segurança jurídica e ambiental para quem quer investir na transição. A mensagem que precisamos transmitir é clara: o crédito de carbono brasileiro é real, tem lastro e faz diferença.
A liderança climática do Brasil depende de escolhas concretas. O mundo quer comprar carbono brasileiro, mas não pode haver dúvida sobre o que está sendo entregue. Com integridade, o mercado traz benefícios reais. Gera renda para comunidades que conservam florestas, incentiva modelos de produção sustentáveis e atrai recursos para inovação. É mais do que uma solução ambiental. É uma estratégia de desenvolvimento.
O caminho está aberto. O Brasil pode ser referência global, desde que escolha caminhar com seriedade e visão de longo prazo. Integridade, clareza e confiança são as chaves para transformar esse potencial em impacto real.
*Pedro Plastino: Graduado em administração pública, atuou como líder da área de carbono e conduziu estratégias importantes sobre o mercado de carbono.
✅Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp














