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Noriega: Palmeiras terá revanche na final da Libertadores; saiba como foi em 1968 e a história do Estudiantes

A decisão é marcada por uma série de reencontros e coincidências e será no mesmo palco, 58 anos depois

Espaço Prisma|Maurício Noriega, especial para o R7*

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O jogador Servílio (dir), do Palmeiras, é cumprimentado pelo atleta do Estudiantes na final da Libertadores de 1968 Arquivo/ESTADÃO CONTEÚDO — 03.05.1968

Palmeiras e Estudiantes têm reencontro marcado na final da Libertadores de 2026, 58 anos após disputarem uma final histórica e polêmica em 1968.

Eram tempos muito diferentes no futebol sul-americano. Os times brasileiros davam mais importância aos campeonatos estaduais do que à Libertadores.

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A decisão de 1968 conta a história de um futebol que não existe mais e explica muito do conceito que se tem, ainda hoje, da rivalidade entre Brasil e Argentina.

O Estudiantes é um fenômeno do futebol argentino. Um time médio de La Plata, capital da província (o equivalente aos estados no Brasil) de Buenos Aires.

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Fica a pouco mais de 50 quilômetros da cidade de Buenos Aires e tem pouco menos de 1 milhão de habitantes em sua área metropolitana.

O Estudiantes é um time de 120 anos de idade que, até 1968, tinha dois títulos metropolitanos: 1913 e 1967 (ano em que começam os torneios nacionais no futebol argentino).

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A virada na história do clube teve início em 1965, quando o treinador Osvaldo Zubeldia foi contratado. Zubeldia, que não tem parentesco com Luís Zubeldia, ex-técnico de São Paulo e Fluminense, implantou uma revolução no clube e, também, no futebol da época.

Deu ênfase à preparação física e ao estudo dos adversários. Trabalhou jogadas de bola parada e, principalmente, fez do seu time um grupo de gladiadores. O Estudiantes de Zubeldia fez do antijogo sua principal arma.

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O que fazia o time de Zubeldia? Batia muito, provocava, xingava e protagonizava um jogo físico e emocional que tirava do sério os adversários argentinos e, principalmente, os brasileiros.

Apelido de Pincha

O time tem o apelido de Pincha. Pinchar é espetar em espanhol. Há controvérsias quanto à origem do apelido. Uma linha diz que é por causa de estudantes de medicina que espetavam ratos para fazer experiências em laboratório.

Outra aponta para um torcedor do clube que trabalhava no mercado de La Plata e que caçava ratos espetando os animais. Daí veio o apelido Pincharrata (espeta rato), que foi o primeiro do clube, posteriormente reduzido para Pincha.

O time de 1968 do Estudiantes ficou marcado por uma história que trafega entre lenda e verdade. Dizem que Carlos Bilardo, volante da equipe e futuro técnico campeão mundial com a Argentina em 1986, entrava em campo com alfinetes de fralda e espetava os adversários.

Bilardo nega, e os adversários dizem que era verdade. Em 2011, Bilardo, que é médico ginecologista, gravou um comercial de apoio a testes rápidos de sangue para identificar diabetes chamado “As Espetadas de Bilardo”. Na peça, ele diz que espetava os adversários para testar se tinham diabetes.

Fato é que Bilardo e seu companheiro de meio-campo, o volante Carlos Pachamé, batiam sem dó. Eram o que se chamava de jogadores maus. O Estudiantes não jogava, impedia os rivais de jogarem usando todos os artifícios possíveis.

Zubeldia e sua comissão técnica pesquisavam tudo sobre os rivais, desde aspectos táticos e técnicos até os comportamentais. Identificavam os mais irritados, os que afinavam, tudo. Muito da ideia de catimbeiro que paira sobre o futebol argentino é por causa do Estudiantes.

Mas havia um grande jogador no time: Juan Ramón Verón, apelidado de A Bruxa. Pai de Juan Sebastián Verón, ex-jogador e atual presidente do Estudiantes, chamado de A Bruxinha. Verón, pai, era um meia clássico e habilidoso, que fazia gols e abastecia o ataque de Conigliaro e Flores.

Como foi a decisão

A decisão da Libertadores de 1968 teve três partidas. Na primeira, em La Plata, o Estudiantes venceu por 2 a 1, de virada, em 2 de maio. Cinco dias depois, o Palmeiras deu o troco no Pacaembu: 3 a 1.

O regulamento não previa saldo de gols e foi necessário um terceiro jogo em campo neutro. A Confederação Sul-americana deu as opções de Santiago do Chile e Montevidéu. O Estudiantes escolheu Montevidéu, e o Palmeiras concordou. Um erro estratégico que se explica pelo contexto da época.

O time palmeirense disputava o título paulista e tinha dois clássicos contra Corinthians e Santos. Na cabeça de dirigentes, jogadores e do treinador, o argentino Alfredo González, era melhor ir ao Uruguai, mais perto, pensando em preservar time e torcida de uma viagem longa a Santiago.

Erro crasso, principalmente em se tratando de um treinador argentino. Montevidéu e Buenos Aires são separadas pelo Rio da Prata. Dava para cruzar de barco facilmente, serviço direto entre as capitais, ou combinar barco e ônibus cruzando até Colônia do Sacramento.

O terceiro jogo foi disputado em Montevidéu, em 16 de maio de 1968. Sob frio intenso e com um estádio Centenário lotado de argentinos, que eram 90% dos presentes. O Estudiantes venceu por 2 a 0, com gols de Ribaudo e Verón.

Mesmo com craques do porte de Ademir da Guia, Dudu, Servílio, Baldochi, Ferrari e Tupãzinho, o Palmeiras não resistiu à catimba e ao antijogo (além do talento de Verón pai). Ademir e Dudu apanharam o tempo todo e ficaram prejudicados para a disputa do Paulistão, que o Palmeiras também perdeu.

O Estudiantes venceu a Libertadores três vezes seguidas, de 1968 a 1970. Na final, passou pelo Peñarol do Uruguai, em dois jogos, o segundo em Montevidéu.

Outra coincidência: o treinador do Peñarol era Oswaldo Brandão, técnico histórico do Palmeiras. O quarto título veio em 2009, em cima do Cruzeiro, que, como o Palmeiras, um dia foi Palestra Itália.

O Estudiantes atual é um time modesto se comparado ao Palmeiras. Não bate como a equipe de 1968, mas gosta do jogo físico. Foi assim que eliminou o Flamengo, com grande consciência tática e capacidade defensiva. Segurou o melhor ataque do futebol brasileiro em 180 minutos.

É de se imaginar que, pela facilidade de acesso, os platinos sejam maioria no Centenário no dia 28 de novembro. Embora seja mais tranquilo ir do Brasil a Montevidéu em 2026 do que era em 1968, o que permite grande afluência de palmeirenses. Foi em Montevidéu que o Palmeiras venceu a Libertadores de 2021, contra o Flamengo.

Um jogo de muita história, que vai parar a América do Sul.

*Maurício Noriega é comentarista esportivo da RECORD

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