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Brasil perde R$ 264 bilhões com trabalhadores parados no trânsito

Linha de ônibus mais extensa de SP revela como o tempo de deslocamento afeta as famílias

Gargalos do Brasil|Felipe Batista, da RECORD

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Trânsito em São Paulo custa ao Brasil R$ 264 bilhões devido ao tempo perdido pelos trabalhadores.
  • Passageiros da linha de ônibus Ipiranga-Rio Pequeno gastam quase três horas em deslocamento diário.
  • Estudo do IBGE revela que milhões de brasileiros demoram entre uma e duas horas para chegar ao trabalho.
  • Especialistas defendem planejamento centralizado para melhorar a mobilidade urbana e reduzir prejuízos econômicos.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Durante quase dez anos, me locomover de casa até o trabalho me custava, pelo menos, três horas por dia. Era uma época em que ainda não existia o uso tão frequente do celular e de suas redes sociais. O tempo passava mais devagar. E as viagens, que já eram longas, se arrastavam…

Elas me renderam boas leituras, é verdade — e até momentos de reflexão, posso dizer. Um deles foi perceber o quanto esse tempo “perdido” realmente me custava: menos descanso, menos lazer, menos encontros com amigos e com a família, menos tempo de qualidade. E, por que não, um desperdício de dinheiro também. Era um tempo definitivamente improdutivo.


Ao gravar este episódio de Gargalos do Brasil, um quadro de reportagens especiais do Jornal da Record, pude revisitar esse sentimento ao conversar com nossos entrevistados.

Embarcamos na linha de ônibus mais extensa da cidade de São Paulo para conversar com os passageiros dessa longa viagem. A rota liga o Ipiranga, na zona sul da capital, ao Rio Pequeno, no extremo da zona oeste. O ônibus percorre cerca de 39 quilômetros em cada trecho, passa por 18 bairros da capital paulista e para em 103 pontos ao longo do caminho. Uma viagem de quase três horas.


Durante esse tempo, eu e o cinegrafista Daniel Arcanjo conversamos com ao menos dez passageiros, além do motorista e do cobrador — os únicos que fazem o trajeto completo. Como repórteres, queríamos saber, afinal, o que esse tempo de deslocamento nas grandes cidades realmente custa aos trabalhadores ali sentados (e em pé), a caminho da labuta diária.


Era quase uma pergunta retórica.

Custa muito, claro.


As respostas já eram esperadas: “perco tempo com meus filhos”, “já chego cansado ao trabalho”, “queria morar mais perto do serviço”, “é exaustivo”, e assim por diante.

Na redação, ao lado da produtora Isabella Placeres e da editora Daiara Coelho, mergulhamos em diversos estudos que mostraram quanto tempo o brasileiro gasta para chegar ao trabalho. Para isso, analisamos, entre várias pesquisas, o último censo divulgado pelo IBGE.

Oito milhões de brasileiros levam entre uma e duas horas no trajeto entre casa e trabalho Reprodução/Instagram/@prefsp

A conclusão é que quase oito milhões de brasileiros levam entre uma e duas horas no trajeto. Mais de um milhão gastam mais de duas horas na viagem. Outra pesquisa, mais focada no Rio de Janeiro e em São Paulo, mostrou que cariocas e paulistanos passam, em média, 62 minutos no deslocamento. Um cálculo matemático rápido — e o resultado impressiona: são 10 dias por ano dentro do carro ou do transporte público.

Ivan Whately, especialista em Planejamento de Transportes, que já trabalhou em diversas áreas da mobilidade pública de São Paulo e estudou o tema em grandes capitais mundiais, como Paris, defende que as regiões metropolitanas brasileiras carecem de um órgão público para centralizar o planejamento e as operações de ônibus, trens e metrô.

Segundo ele, uma autoridade multidisciplinar deixaria o trânsito mais inteligente: “Hoje, cada município faz seu planejamento, execução de obras, manutenção e operação isoladamente. Nós precisamos de um planejamento centralizado para integrar todos os transportes e oferecer um rendimento melhor ao passageiro”, afirmou.

Não é difícil concluir que os longos deslocamentos também custam caro ao país. Economicamente falando, é um prejuízo. O professor da Fundação Getulio Vargas, Renato Velloni, fez um estudo sobre o assunto e concluiu que o Brasil desperdiça R$ 264 bilhões com o trabalhador parado no trânsito.

“Isso representa mais de duas vezes o orçamento federal gasto em Educação e 1,2 vez o orçamento da área da Saúde”, destacou.

O economista também reforçou que os trabalhadores no trânsito perdem algo que tem alto valor, mas não tem preço: qualidade de vida.

Os passageiros da linha Ipiranga–Rio Pequeno concordaram.

Eu também.

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