A força feminina por trás de um empório de tradição no Mercado Municipal da Lapa
De avó a neta, três gerações transformaram o comércio tradicional em referência em curadoria, inovação e atendimento humanizado

Em meio aos corredores tradicionais do Mercado Municipal da Lapa, onde a história do abastecimento paulistano se mistura às memórias de família, Idalina Coelho e Bruna Villar representam a força de três gerações que transformaram um pequeno empório em referência.
Fundado em 1990 por quatro mulheres, o Empório Quatro Estrelas nasceu em um ambiente predominantemente masculino, exigindo coragem, firmeza e visão estratégica para conquistar espaço.
Décadas depois, sob a liderança de avó, mãe e filha, o empório não apenas consolidou sua presença como se reinventou, ampliando fronteiras com curadoria especializada, inovação em alimentação saudável e comércio eletrônico.
No Dia Internacional da Mulher, o Mundo Agro convida você a conhecer a história de mulheres que transformaram desafios em legado.

Mundo Agro: O Empório Quatro Estrelas foi fundado em 8 de março, Dia Internacional da Mulher. O quanto essa data moldou a identidade do negócio?
Idalina Coelho: Foi coincidência. Não houve essa intenção. Apesar de estarmos em 4 mulheres. Aproveitamos essa data para transformar em um marco da nossa marca.
Bruna Villar: Eu acredito que foi uma grande coincidência — mas uma feliz coincidência. A empresa começou com quatro mulheres e, desde então, sempre priorizamos oportunidades iguais. Hoje, inclusive, a maioria da nossa liderança é composta por mulheres. Não trabalhamos com esse tipo de preconceito de idade ou de fase da vida. Eu mesma passei pela maternidade no auge da empresa. O mais importante para mim não é a data em si, mas o quanto respeitamos e apoiamos outras mulheres diariamente.
Mundo Agro: Como era empreender no Mercado Municipal da Lapa em 1990, em um ambiente majoritariamente masculino?
Idalina Coelho: Empreender num ambiente masculino não foi fácil. Houve até aposta de que nossa empresa não duraria um ano. Em um ano, nós demolimos as dependências e a transformamos com a nossa cara.
Mundo Agro: Quais foram os principais desafios enfrentados pelas fundadoras nos primeiros anos?
Idalina Coelho: Concorrência agressiva, desleal e fiscalizações.
Bruna Villar: Quando comecei, o mercado ainda era muito masculino. Precisei me provar várias vezes — para mim e para os outros — que eu era capaz. Muitas vezes tive que adotar uma postura mais firme para ser respeitada, o que acabou moldando parte da minha personalidade.
Outro desafio foi ser vista como “a filha da Idalina”. Eu não queria que me respeitassem por isso, mas pelo meu conhecimento e pela minha capacidade. Além disso, enfrentei situações de preconceito, como clientes que pediam para falar com “o chefe” ou “o pai”, sem imaginar que eu era a responsável.
Também houve resistência quando comecei a introduzir novos produtos, como itens para restrição alimentar e suplementação. No início, houve desconfiança, mas com o tempo o mercado entendeu e reconheceu o potencial.
Mundo Agro: Em que momento vocês perceberam que o negócio poderia ir além de uma loja tradicional?
Idalina Coelho: Nossa loja começou a ficar pequena para a quantidade de ideias que surgiam. Em 2010, tivemos a oportunidade de crescer adquirindo mais um box, mais uma unidade. Aí começou a ficar mais fácil adquirir novos produtos e marcas.
Bruna Villar: Dou esse mérito 100% à minha mãe. A ideia do e-commerce foi minha, mas a expansão para uma loja conceito em Perdizes foi iniciativa dela. Foi um passo grande, com investimento alto e risco — ainda mais em meio à pandemia.
Eu sempre soube que havia potencial para crescer, mas foi a segurança e o apoio da minha mãe que me deram coragem para dar esse salto.
Mundo Agro: Quais aprendizados da sua mãe e da sua avó você carrega na gestão atual?
Idalina Coelho: Garra. Aprendi a arregaçar as mangas e lutar. Aprendi que o cliente precisa ser tratado com respeito e atenção.
Bruna Villar: Minha mãe e minha avó são minha base. Minha avó, aos 93 anos, ainda trabalha porque gosta. Ela é um exemplo de força e dedicação à família.
Minha mãe é minha maior referência. Foi ela quem me ensinou vendas, atendimento, negociação e, principalmente, empatia. O lado humano da empresa vem dela. Mais do que pagar salários, buscamos estar próximos da equipe, ouvir, apoiar e construir juntos. Esse é o nosso diferencial.
Mundo Agro: A criação do e-commerce em 2012 foi considerada ousada para o setor de alimentos. Como foi enfrentar a resistência inicial?
Idalina Coelho: No meu caso, um pouco de medo. Para mim, desconhecido é um tanto quanto caro. E seria um investimento a longo prazo com um resultado também a longo prazo.
Bruna Villar: O e-commerce nasceu de uma necessidade pessoal. Eu procurava muitos produtos com restrição alimentar e percebia que grande parte só existia fora do Brasil. Vi que havia espaço para esse tipo de venda online aqui.
Foi um investimento que começou como solução pessoal e acabou se tornando um grande acerto para a empresa.
Mundo Agro: Como vocês identificam tendências em alimentação saudável antes que se tornem mainstream?
Idalina Coelho: A necessidade do cliente é fundamental. Cada caso é um caso. Já tive casos em que passamos as necessidades para pequenos fornecedores e daí virar um produto de alta procura e venda.
Mundo Agro: Como funciona a curadoria de mais de 8 mil produtos?
Idalina Coelho: A empresa cresceu. No meu caso, eu tinha uma lista em papel onde fazia o inventário de forma manual de todos os produtos semanalmente. Eu fazia uma contagem e, assim, sabíamos o que vendeu e o que precisava repensar se mantínhamos ou não.
Bruna Villar: Eu mesma faço essa curadoria. Pesquiso muito, viajo para feiras internacionais — como a maior feira de produtos naturais na Califórnia — e observo mercados fora do Brasil.
Sempre que viajo, visito supermercados e lojas especializadas para entender o que está sendo consumido. Além disso, escuto muito o cliente. Estou presente na loja, atendo diretamente e busco entender necessidades e demandas. Valorizamos também empresas locais e produtos com diferenciais reais.
Mundo Agro: Quais são os próximos passos do Empório?
Idalina Coelho: Crescer mais. Abrir novas unidades, novas parcerias e desafios.
Bruna Villar: Meu sonho não é franquear, mas continuar crescendo com qualidade. Quero uma loja ainda maior e mais completa para os nossos clientes.
Saímos do mercado tradicional para a unidade em Perdizes, que já é maior — e mesmo assim já sentimos necessidade de mais espaço. Crescer faz parte do processo.
Mundo Agro: O mercado municipal sempre nos remete a produtos de qualidade e de origem conhecida — era ali que, antigamente, as famílias compravam seus principais itens de abastecimento. Lembro dos meus avós frequentando o Mercado da Lapa para adquirir grãos, oleaginosas e até animais. Como essa tradição influencia o posicionamento do Empório hoje?
Idalina Coelho: Obviamente que o lugar nos deu muita visibilidade. Ainda hoje, muitos clientes vêm lembrando dos avós que os traziam. Lembra muito nossa infância e família reunida à mesa. Como nossa empresa é familiar e, de geração em geração, tem tudo a ver com a gente. Para nós, minha mãe, filha e neta são nossa coluna.
Bruna Villar: É muito bonito ver três gerações trabalhando juntas. Minha mãe está há 35 anos ao lado da minha avó, e construímos uma base sólida de clientes fiéis. Nosso diferencial é o atendimento humanizado. Conhecemos nossos clientes pelo nome, sabemos suas preferências, suas histórias. Criamos vínculos reais — e levamos essa essência para todas as unidades.
Mundo Agro: Que legado você deseja deixar para a próxima geração?
Idalina Coelho: Confiança e amor pelo que se faz. No meu ponto de vista, independentemente da profissão, se você fizer com afinco e amor, você consegue atingir o objetivo que é o cliente ter a certeza de que está comprando em um lugar onde o cliente é o mais importante, acima de tudo. Ele é o nosso maior patrimônio. Eu sempre digo quando os clientes me perguntam por que quatro estrelas e não cinco. E eu explico: você é a quinta estrela que faltava no empório.
Bruna Villar: Espero que minha filha ame o empório como eu amo, mas não quero forçar nada. Assim como minha mãe fez comigo, quero dar oportunidade, não imposição.
Se ela quiser seguir, que seja com amor. E que traga novas ideias, porque o mundo muda — e a empresa também precisa evoluir.
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