Balanço do agro em 2025 e perspectivas para o próximo ano
Consultoria Agro do Itaú BBA avalia preços, clima, crédito e perspectivas para as principais cadeias produtivas

O agronegócio brasileiro encerrou 2025 com resultados desiguais entre as cadeias produtivas. Enquanto grãos enfrentaram preços baixos, proteínas animais e café se destacaram pelo bom desempenho, impulsionados pela demanda externa e pela relação favorável entre preços e custos. Nesta entrevista exclusiva ao Mundo Agro, Cesar Castro Alves, gerente da Consultoria Agro do Itaú BBA, fez uma análise detalhada do ano agrícola, avalia os impactos do clima, do crédito e do cenário macroeconômico e projeta os principais riscos e oportunidades para 2026, em um contexto de juros altos, incertezas geopolíticas e desafios para a rentabilidade do produtor rural.
Mundo Agro: Quais foram os principais destaques positivos e negativos do agronegócio brasileiro em 2025?
Cesar Castro Alves: Os destaques positivos ficaram mais do lado das proteínas animais e do café como cultura. O café foi talvez a única cultura que teve um bom desempenho em função dos preços, que estiveram bem elevados, muito acima dos custos de produção.
As proteínas animais, em grande medida, se beneficiaram de uma combinação de custos de produção mais contidos, devido aos preços baixos da ração — fator muito importante para as criações de aves, suínos, leite e bovinos — e de uma demanda muito boa, especialmente no mercado externo. As exportações de carnes foram positivas, com números recordes, superando inclusive os recordes do ano anterior.
Já os grãos tiveram um cenário bastante difícil com preços razoavelmente pressionados. Isso ocorreu tanto nos preços em dólar nas bolsas internacionais — soja, milho e algodão — quanto nos preços em moeda local, que também ficaram baixos. No caso da soja, houve alguma compensação por meio de prêmios melhores.
Os preços internacionais da soja estiveram baixos, mas os prêmios internos, impulsionados pela forte demanda da China pela soja brasileira ao longo do ano, evitaram que os preços caíssem ainda mais.
Mundo Agro: Como foi a rentabilidade do produtor em 2025, considerando custos, preços e produtividade?
Cesar Castro Alves: Sem dúvida, a rentabilidade foi pressionada, mais baixa do que nos anos anteriores. Ela foi compensada, em alguma medida, pela produtividade, que surpreendeu positivamente. Tanto a soja quanto o milho safrinha foram favorecidos por um clima favorável.
Apesar dos custos mais elevados e dos preços baixos, que pressionaram as rentabilidades, no final sobrou um pouco mais de margem para o produtor em relação ao que se esperava inicialmente, justamente porque a produtividade surpreendeu para cima, especialmente a soja no Mato Grosso, que teve um desempenho muito bom em termos produtivos.
Portanto, foi um resultado pior do que nos anos anteriores devido à queda dos preços, mas a produtividade ajudou a reduzir esse impacto.
Mundo Agro: Quais culturas surpreenderam positivamente em 2025? Houve alguma abaixo do esperado?
Cesar Castro Alves: Eu diria que não houve culturas abaixo do esperado, pois esse cenário já era em grande parte esperado. O mundo vem razoavelmente bem abastecido de grãos, muito em função de um clima mais favorável, não apenas no Brasil, mas também nos Estados Unidos.
Claro que houve algumas dificuldades regionais, com safras um pouco comprometidas, como no Rio Grande do Sul, região que sofreu mais. No geral, porém, o Brasil colheu bem, a América do Sul colheu bem e, somado a isso, a safra do Hemisfério Norte também foi boa. Com o aumento dos estoques, os preços dos grãos ficaram mais pressionados.
A surpresa positiva veio do lado das proteínas animais. Além do custo menor da ração, houve uma demanda global muito favorável. Mesmo no caso da carne de frango, em que o Brasil enfrentou um problema sanitário no Rio Grande do Sul, o país conseguiu atravessar razoavelmente bem esse episódio. Em pouco tempo, os mercados se restabeleceram e os preços se ajustaram. Assim, a surpresa positiva veio principalmente pelo lado da demanda.
Mundo Agro: Como os eventos climáticos impactaram a produção e o crédito em 2025?
Cesar Castro Alves: Em relação à produção, eu diria que os eventos climáticos não impactaram negativamente. O clima se mostrou mais favorável no geral, permitindo safras muito boas de soja, milho e algodão.
Onde o clima atrapalhou um pouco foi na safra de café, o que ajuda a explicar a elevação dos preços. Além disso, os estoques de café já vinham baixos e houve o tarifaço, que também contribuiu para a alta. No geral, o clima foi favorável à produção de grãos e algodão, o que acabou pressionando os preços para baixo. Assim, o clima foi mais favorável do que desfavorável para o agronegócio brasileiro.
Já o crédito foi bastante afetado, mas não por conta do clima. Ele foi impactado pelas margens mais baixas decorrentes da redução dos preços. Os custos haviam sido formados em patamares elevados, e muitos produtores que tomaram decisões de investimento e expansão anos atrás, em um contexto de juros altos, tiveram dificuldade de enfrentar um ambiente macroeconômico mais desafiador.
Com juros muito elevados e preços baixos das commodities, as margens foram pressionadas. Em muitos casos, a despesa financeira comprometeu o resultado abaixo da margem EBITDA (Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation, and Amortization), o que gerou aumento de problemas financeiros e tornou o crédito mais seletivo ao longo do ano.
Mundo Agro: Como o Itaú BBA avalia o comportamento dos preços das principais commodities agrícolas em 2025?
Cesar Castro Alves: Em grande medida, foi um ano de preços baixos no geral, com exceção das carnes e da cultura do café. Nas demais commodities, os preços ficaram pressionados, refletindo principalmente as boas produções observadas ao longo do ano.
Mundo Agro: Qual é a visão para 2026?
Cesar Castro Alves: A expectativa é de um cenário semelhante. Para os grãos, há um desafio adicional relacionado ao custo de produção, que foi formado em níveis elevados. Com o dólar mais próximo de 6 — e tendo se apreciado um pouco — não se imagina uma grande alteração nos preços das commodities. Assim, custos mais altos e preços estáveis indicam uma compressão adicional das margens para soja, milho e algodão, em um contexto de ampla oferta global.
Também existe a possibilidade de repetição de uma safra positiva na América do Sul, o que deve limitar qualquer alta de preços.
Por outro lado, as perspectivas para as proteínas animais seguem positivas. A demanda global continua forte, e a pecuária de corte deve ter um ano favorável. Espera-se uma redução da produção, o que deve sustentar uma alta de preços. Além disso, outras regiões produtoras, como Estados Unidos, Argentina e Austrália, também devem registrar menor produção, permitindo ao Brasil capturar um ambiente de menor concorrência nas exportações e uma virada de ciclo que favorece preços mais altos.
As exportações de proteínas devem continuar muito boas, beneficiando aves, suínos e bovinos. A ração barata segue como fator-chave, somada à continuidade da boa demanda.
Mundo Agro: Quais são os principais riscos para 2026?
Cesar Castro Alves: O clima é sempre uma incerteza. As previsões indicam boas chuvas, o que deve favorecer o desenvolvimento da soja. Ainda assim, há dúvidas quanto ao calendário de plantio do milho safrinha e à ocorrência de chuvas em abril, essenciais para o desenvolvimento da cultura. Por isso, o cenário do milho é um pouco mais incerto, embora o clima, no geral, esteja previsto como positivo.
No campo macroeconômico, há pouca dúvida de que os juros continuarão elevados. A projeção do Itaú Unibanco é de que eles terminem 2026 ainda em patamares acima de dois dígitos. Em um ano eleitoral, isso deve trazer muita volatilidade. Com juros altos, o ambiente para investimento e expansão tende a ser bastante restrito, especialmente diante de margens menores.
A geopolítica também é uma grande incerteza. O mundo segue bastante turbulento, com risco de extensão da guerra comercial, apesar do acordo entre Estados Unidos e China. O Brasil precisará exportar grande volume de soja em 2026. Há competitividade, mas isso dependerá da continuidade das negociações para evitar pressão adicional sobre os preços em Chicago.
Assim, a geopolítica continuará influenciando fortemente o cenário global.
Mundo Agro: Quais cadeias devem se destacar em 2026?
Cesar Castro Alves: O otimismo segue concentrado nas proteínas animais e no café. No caso do café, espera-se uma safra melhor, mas essa produção só estará disponível no segundo semestre. Até lá, os estoques permanecem baixos.
Os preços já vêm cedendo um pouco diante da expectativa de uma safra melhor, mas essa melhora não se consolida no curto prazo. Mesmo com alguma acomodação, os preços ainda permanecem muito acima dos custos de produção. Dessa forma, a expectativa é de bons resultados para os produtores de café e de carnes, com destaque para o boi, que deve se beneficiar de menor concorrência global nas exportações e de uma virada de ciclo que sustenta preços mais altos.
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