Entenda por que o Brasil perdeu 94% dos jumentos em menos de 30 anos
Queda do rebanho acende alerta sobre comércio de peles, reprodução dos animais, riscos sanitários e perda de patrimônio genético
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7
De 100 jumentos, sobraram seis.
É essa a dimensão da queda da população de jumentos no Brasil nos últimos 30 anos. Dados compilados por pesquisadores a partir de informações da FAO, do IBGE e do Agrostat indicam uma redução de 94% entre 1996 e 2024.
A redução brasileira faz parte de um problema que também aparece em outros países.
“Os jumentos sustentam os meios de vida de milhões de pessoas em diversas partes do mundo, mas agora enfrentam uma crise. Milhões de animais são abatidos todos os anos para atender à demanda por ejiao (gelatina medicinal feita a partir do colágeno extraído da pele de jumentos).
As populações nacionais despencaram em diversos países, incluindo o Brasil. Precisamos agir antes que seja tarde demais”, afirmou Janneke Merkx, gerente de Campanhas da organização internacional The Donkey Sanctuary.
O número chama atenção para uma cadeia que ganhou mercado com a exportação de peles, principalmente para a China, mas que agora enfrenta uma questão básica: há animais suficientes para sustentar essa atividade no longo prazo?
“Produzir peles em escala suficiente para atender à demanda chinesa é inviável devido às limitações biológicas, como o longo período de gestação e a baixa produtividade. Também não há agregação significativa de valor no Brasil, já que a maior parte dos ganhos econômicos ocorre no exterior”, explicou Roberto Arruda de Souza Lima, professor associado da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), responsável por um estudo sobre a viabilidade econômica da atividade.
Uma das alternativas estudadas por pesquisadores brasileiros é produzir colágeno de jumento sem a necessidade de abater os animais.
A proposta utiliza a chamada fermentação de precisão, processo no qual a sequência de DNA responsável pela produção de colágeno é inserida em microrganismos, como leveduras.
“É possível utilizar apenas a sequência do DNA do jumento que codifica o colágeno e inseri-la em uma levedura. À medida que o microrganismo se multiplica e produz suas próprias proteínas, ele também passa a produzir colágeno exatamente como é produzido no organismo do animal”, explica Carla Forte Maiolino Molento, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e coordenadora da pesquisa.
Há ainda uma segunda preocupação: a origem dos animais. Pesquisadores questionam a capacidade de rastrear a procedência e o histórico sanitário de jumentos capturados ou recolhidos em diferentes regiões antes de chegarem às propriedades de confinamento e aos frigoríficos.
Isso coloca a sanidade no centro da discussão. Sem informações confiáveis sobre origem e movimentação, aumenta a dificuldade de identificar doenças e avaliar os riscos ao longo da cadeia.
E existe uma terceira conta: a genética. Com menos animais disponíveis para reprodução, o país também reduz sua capacidade de conservar características desenvolvidas por uma população que passou séculos se adaptando ao Semiárido.
A discussão já chegou à Justiça. Em abril, a Justiça Federal na Bahia determinou a proibição do abate de jumentos, mulas e bardotos no estado, em uma decisão que ainda pode ser contestada. No Congresso, projetos também discutem uma eventual proibição nacional.
O desafio, daqui para frente, é saber se o Brasil conseguirá construir uma política capaz de conciliar atividade econômica, controle sanitário e conservação do rebanho.
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