Como o agro brasileiro se reposiciona após a suspensão do tarifaço dos EUA
Especialista esclarece efeitos da decisão do governo Trump e os próximos passos para quem exporta

A suspensão parcial do tarifaço imposto pelos Estados Unidos abriu espaço para a retomada das exportações agrícolas brasileiras, mas não eliminou as incertezas.
O Mundo Agro conversou com Carol Monteiro de Carvalho, sócia da Monteiro & Weiss Trade, que há mais de 25 anos atua na defesa comercial, questões aduaneiras e trade compliance.
Ela detalhou o que muda para o agronegócio no curto e médio prazo, os riscos regulatórios que permanecem e como as empresas brasileiras podem se proteger de novas mudanças na política comercial norte-americana.

Mundo Agro: É possível estimar o impacto imediato da suspensão da tarifa de 40% sobre os principais produtos agrícolas brasileiros exportados aos EUA?
Carol Monteiro de Carvalho: A avaliação do impacto imediato depende de uma análise específica por produto. Segundo dados divulgados pelo MDIC, a nova Ordem Executiva reduziu de 36% para 22% o impacto do chamado “tarifaço” sobre as exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos. Essa redução decorre principalmente da inclusão de diversos produtos agrícolas na lista de suspensões prevista na Ordem Executiva.
De fato, a imposição de uma sobretaxa de 40% tornaria economicamente inviáveis diversos fluxos comerciais, como as exportações de carne bovina, café e frutas. Isso porque, para alguns desses produtos, os EUA já contam com fornecedores alternativos com condições tarifárias mais competitivas em relação ao Brasil.
É o caso, por exemplo, do Vietnã, que teve as tarifas sobre o café zeradas em outubro. Da mesma forma, embora o Brasil seja o principal fornecedor de carne bovina para o mercado norte-americano, os Estados Unidos anunciaram, também em outubro, um acordo comercial com a Argentina que prevê a ampliação significativa da cota de importação de carne bovina argentina, com o objetivo de conter os preços no mercado interno.
Nesse contexto, a suspensão das medidas produz um efeito imediato de recomposição da competitividade frente a outros países, reforçando o papel do país como um dos principais fornecedores globais de alimentos.
De modo geral, a suspensão da tarifa tende a favorecer a recuperação de mercado, sobretudo para empresas que já possuíam contratos firmados com compradores norte-americanos e que vinham postergando embarques, bem como a recomposição gradual dos preços, na medida em que se amplia a margem de negociação com o importador para compensar o risco tarifário anteriormente existente.
Cabe destacar, contudo, que parte do agronegócio brasileiro ainda permanece impactada pelo tarifaço, uma vez que determinados produtos não foram incluídos na lista de suspensões da Ordem Executiva, como café solúvel, uva, mel e pescados, que continuam sujeitos a uma alíquota de 50% para ingresso no mercado norte-americano.
Mundo Agro: Como a retomada do acesso ao mercado norte-americano muda as projeções de exportação para 2025?
Carol Monteiro de Carvalho: A implementação da sobretaxa resultou em uma queda significativa dos volumes exportados aos Estados Unidos pelos países afetados pela medida.
Nesse contexto, a expectativa é de retomada e aumento desses volumes a partir da suspensão anunciada, com potencial recuperação gradual dos fluxos comerciais ao longo de 2026.
Ainda assim, o cenário permanece marcado por incertezas. O risco tarifário não foi completamente afastado, uma vez que a suspensão foi motivada, em grande medida, pelo impacto inflacionário interno nos EUA, e não por uma revisão estrutural da política comercial.
A própria Ordem Executiva prevê que a medida será objeto de monitoramento pelo Secretário de Estado, o que indica a possibilidade de reavaliações futuras.
Adicionalmente, segue em curso a investigação conduzida no âmbito da Seção 301, a qual ainda pode resultar na imposição de novas tarifas ou medidas restritivas, afetando as projeções de exportação.
Assim, embora a suspensão gere uma perspectiva mais favorável para 2026, ela não elimina a volatilidade regulatória, que continuará sendo um fator relevante na tomada de decisões por parte dos exportadores brasileiros.
As tradings e frigoríficos que mantiveram embarques durante a vigência da tarifa saem agora em vantagem?
Em boa medida, sim, ainda que as margens tenham sido significativamente impactadas durante o período de vigência da sobretaxa.
A principal vantagem dessas empresas foi a preservação do relacionamento comercial com os importadores norte-americanos, bem como a manutenção dos pedidos já contratados e a continuidade das rotas logísticas e cadeias de distribuição, evitando a completa interrupção dos fluxos comerciais.
Esse posicionamento tende a colocá-las em situação mais favorável no processo de retomada das exportações.
Adicionalmente, a Ordem Executiva teve aplicação retroativa, beneficiando embarques já em curso e possibilitando a restituição das tarifas recolhidas pelos importadores, o que contribui para mitigar parte das perdas financeiras e acelerar a recomposição das operações no curto prazo.
Mundo Agro: A sobretaxa prejudicou. Mas também possibilitou trabalhar novos mercados. Teve um ônus e também um bônus?
Carol Monteiro de Carvalho: Correto. A sobretaxa evidenciou a importância da diversificação de mercados para os produtos brasileiros, especialmente no âmbito do agronegócio, em que essa estratégia se mostrou bastante eficaz.
Desde a imposição do tarifaço, o Brasil ampliou suas exportações para a China, sobretudo de soja, carne bovina e frango; para a União Europeia, principalmente de frutas e café; e registrou avanço relevante nas vendas de carne bovina para o México e países do Oriente Médio, como resposta à perda de competitividade no mercado norte-americano.
Nesse cenário, o bônus foi a maior diversificação geográfica das exportações, a redução da dependência em relação aos EUA e a consolidação do Brasil como fornecedor estratégico de alimentos em mercados asiáticos e árabes.
O ônus, por sua vez, manifestou-se no impacto financeiro direto, na compressão de margens e no aumento dos custos logísticos e operacionais associados ao redirecionamento dos fluxos comerciais.
Mundo Agro: Como deve funcionar, na prática, o processo de restituição das tarifas cobradas desde 13 de novembro?
Carol Monteiro de Carvalho: Na prática, a restituição deve ser operacionalizada pela autoridade aduaneira norte-americana (U.S. Customs and Border Protection), a partir dos atos administrativos que implementarem a Ordem Executiva no ordenamento interno dos EUA.
O processamento das restituições vai depender da situação em que cada embarque foi despachado para consumo nos EUA. Normalmente são apresentados formulários eletrônicos pelos despachantes em nome do importador designado na documentação específica e o valor da restituição será calculado conforme cada caso a ser restituída ao importador nos EUA.
Mundo Agro: Há risco de gargalos operacionais ou prazos longos para que importadores obtenham esses reembolsos?
Carol Monteiro de Carvalho: Sim, há risco concreto de prazos prolongados na restituição, em razão do elevado volume de pedidos e da necessidade de adaptação e implementação de sistemas específicos para processamento dos reembolsos.
A carga de trabalho do U.S. Customs and Border Protection aumentou de forma significativa desde a imposição das tarifas, não apenas em relação às importações provenientes do Brasil, mas também em razão da aplicação de tarifas diferenciadas a diversos países e dos múltiplos acordos comerciais celebrados nesse período.
Além disso, os pedidos de restituição podem gerar questionamentos técnicos adicionais, sobretudo quanto à correta identificação do produto beneficiado pela suspensão, não apenas pelo seu código tarifário, mas também por suas características específicas e enquadramento na lista de exceções prevista na Ordem Executiva.
Situações envolvendo regimes aduaneiros especiais também tendem a complexificar a análise e contribuir para maior lentidão no processamento dos reembolsos.
Mundo Agro: Ainda temos alguns setores — como o de pescados — que não foram contemplados na nova lista de exceções. Acredita que a suspensão pode acontecer a qualquer momento?
Carol Monteiro de Carvalho: O governo brasileiro deixou claro que as negociações ainda estão em andamento e visam a inclusão de novos produtos na lista de exceções, o que pode acontecer a qualquer momento.
A recente Ordem Executiva deixa claro que esse é um caminho possível. Outro aspecto fundamental foi a pressão interna nos EUA, principalmente com os impactos inflacionários e atuação direta de importadores e varejistas. Assim, é fundamental manter a articulação entre o governo brasileiro e o setor privado para demonstrar o impacto da tarifa e negociar alternativas.
Mundo Agro: Como as empresas brasileiras podem se proteger de mudanças repentinas na política comercial dos EUA?
Carol Monteiro de Carvalho: As empresas brasileiras que exportam para os Estados Unidos devem avaliar com especial atenção seus contratos e as cláusulas que estabelecem mecanismos de ajuste de preço em caso de elevação ou redução de tarifas, prevendo, sempre que possível, regras claras de alocação do risco tarifário entre as partes.
Como visto, a diversificação de mercados consolidou-se como estratégia fundamental para reduzir a dependência do mercado norte-americano, especialmente para os produtos agrícolas.
Paralelamente, é essencial o monitoramento contínuo não apenas das tarifas aplicáveis ao Brasil, mas também daquelas impostas a países concorrentes, o que permite avaliar eventuais ganhos ou perdas de competitividade.
Soma-se a isso o acompanhamento atento dos desdobramentos da investigação da Seção 301 em curso, que poderá resultar tanto na imposição de novas medidas restritivas quanto na concessão de exclusões adicionais para determinados produtos, influenciando diretamente o planejamento comercial das empresas.
Mundo Agro: O que esperar para 2026?
Carol Monteiro de Carvalho: O cenário para 2026 ainda é marcado por elevada incerteza, mas algumas tendências relevantes podem ser delineadas.
A evolução da inflação e dos preços de alimentos nos Estados Unidos será determinante para o rumo das negociações comerciais e para a eventual ampliação das listas de exceções tarifárias.
Outro fator central será o desfecho da investigação conduzida no âmbito da Seção 301 em relação ao Brasil, cujo resultado será crucial para definir se o ambiente comercial caminhará para maior estabilidade ou se poderão ser implementadas tarifas adicionais direcionadas a setores considerados estratégicos.
Para o agronegócio brasileiro, a tendência é de manutenção dos Estados Unidos como mercado relevante, porém em um contexto de maior concorrência internacional para determinados produtos, como no caso da Argentina e Vietnã.
Além disso, deve ser mantida a estratégia de diversificação da pauta exportadora, com maior peso relativo de mercados como China, União Europeia e Oriente Médio para manter a competitividade do setor em 2026.
✅Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp














