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Do refúgio ao azeite: a pequena propriedade que faz um produto premiado

Na Serra da Mantiqueira, uma propriedade transformou o lugar de descanso em um projeto de produção de azeite

Mundo Agro|Fabi GennariniOpens in new window

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O refúgio que virou campo de oliveiras Foto cedida: Azeita da Pedra

Há propriedades que nascem para produzir. Outras, para acolher. Na Serra da Mantiqueira, uma pequena propriedade a 1.300 metros de altitude nasceu como refúgio: um lugar para descansar, reunir amigos na cozinha e ter um pedaço de natureza para chamar de seu.

Mas a terra tinha outros planos.


A altitude, o solo de origem vulcânica e as características da região abriram espaço para uma nova vocação. O que começou como um lugar de descanso ganhou um projeto produtivo — primeiro pensado para o vinho e, depois, voltado para as oliveiras e a produção de azeite.

Em sua primeira safra comercial, o Azeite da Pedra – Blend de Safra 2026, produzido pelo Sítio da Pedra, de Paula Pedrão e Fábio Dias, em Caldas (MG), ficou entre os dez melhores do mundo no TerraOlivo International Olive Oil Competition 2026.


O Mundo Agro conversou com Paula sobre a trajetória da propriedade, os desafios da primeira produção e os planos para o futuro.


Paula Pedrão e Fábio Dias, proprietários do sítio que produz o "Azeite da Pedra", MG Foto cedida: Azeita da Pedra

Mundo Agro: O que levou vocês a apostar na olivicultura e, em especial, na Serra da Mantiqueira?


Paula Pedrão: Quando compramos a propriedade, percebemos que era um investimento relativamente alto e, ao mesmo tempo, uma área que tinha potencial para produzir alguma coisa. A ideia inicial era fazer daquele lugar um refúgio, mas também encontrar uma forma de torná-lo produtivo.

Primeiro pensamos no vinho. A propriedade está a cerca de 1.300 metros de altitude, na Serra da Mantiqueira, em uma região de solo vulcânico e com características muito particulares. Naquela área existiu, no passado, o vulcão de Caldas, que ajuda a explicar a formação desse terroir.

Como a altitude não era a mais indicada para o projeto de vinho que tínhamos inicialmente em mente, começamos a olhar para o azeite. A olivicultura surgiu como uma oportunidade de aproveitar as características da terra e desenvolver uma produção pequena, mas de qualidade, sem deixar uma área tão especial sem uma vocação produtiva.

Mundo Agro: Como foi produzir o primeiro azeite comercial e quais foram os principais desafios até chegar à primeira colheita?

Paula Pedrão: O primeiro desafio foi conciliar o projeto com o nosso trabalho. Nós dois continuamos atuando como executivos e temos compromissos profissionais durante a semana. Ao mesmo tempo, queríamos dedicar tempo e cuidado à propriedade.

Também começamos praticamente do zero em relação ao cultivo de oliveiras. Por isso, decidimos fazer tudo de forma muito cuidadosa, etapa por etapa: entender o manejo, saber o que precisava ser feito e em que momento, escolher os parceiros e, principalmente, definir a melhor forma de colher e processar as azeitonas.

Tivemos um cuidado especial com o tempo entre a colheita e o processamento. Plantamos, colhemos e encaminhamos as azeitonas para a extração no momento adequado. Foi um processo que exigiu disciplina, aprendizado e muita responsabilidade com a terra.

A gente queria dar às plantas as melhores condições para produzir, sem fazer nenhum movimento que pudesse prejudicar o resultado. E acho que conseguimos. O resultado da primeira safra ficou muito acima do que esperávamos, especialmente por ser a primeira.

Azeite da Pedra foi eleito o melhor do Brasil e entrou no Top 10 Global no TerraOlivo International Olive Oil Competition 2026 Foto cedida: Azeite da Pedra

Mundo Agro: Vocês esperavam um resultado tão expressivo já na primeira safra? Como receberam a notícia de que o azeite estava entre os dez melhores da competição internacional?

Paula Pedrão: Não esperávamos. A gente sempre busca fazer o melhor possível, com qualidade, sabor e sem defeitos, mas não imaginava que esse reconhecimento viria já na primeira safra.

Foi uma surpresa muito positiva. Primeiro veio a resposta de quem experimentou o azeite e, depois, o reconhecimento nos concursos. Participamos de diferentes competições e recebemos medalhas de ouro, além de outros reconhecimentos. Para uma produção tão pequena e ainda no início, receber essas premiações mostrou que o caminho que escolhemos fazia sentido.

Mundo Agro: O que diferencia o azeite de vocês?

Paula Pedrão: A cultura do azeite ainda é muito nova e pouco difundida no Brasil. Existe a ideia de que um azeite bom é aquele que devemos guardar para uma ocasião especial. Mas o azeite, quanto mais fresco, melhor.

Na nossa primeira safra, produzimos uma quantidade pequena e vendemos tudo em dez dias. Quem provava comentava sobre o aroma, o sabor, a picância e o frescor. Isso tem muito a ver com o cuidado que tivemos desde a colheita.

Em alguns casos, as azeitonas saíram da árvore e chegaram ao processamento em cerca de seis horas. No máximo, esse intervalo ficou abaixo de 12 horas. Depois da extração, o azeite começou a ser consumido poucas semanas mais tarde.

Esse cuidado fez diferença. O azeite é um produto vegetal e, com o tempo, sofre oxidação e perde algumas de suas características. Por isso, acreditamos que oferecer um azeite brasileiro fresco, produzido e consumido pouco tempo depois da colheita, pode mudar a experiência do consumidor.

A oliveira encontrou seu lugar na Mantiqueira Foto cedida: Azeite da Pedra

Mundo Agro: Qual é o potencial de produção do Sítio da Pedra e como vocês enxergam o crescimento da propriedade?

Paula Pedrão: O potencial está muito ligado à maturidade das plantas. Hoje, as oliveiras têm cerca de cinco anos e entendemos que devem atingir a maturidade produtiva entre oito e dez anos.

Quando chegarmos ao ápice da produção, a expectativa é produzir cerca de 8 mil garrafas de 250 mililitros, o equivalente a 2 mil litros.

Mas a ideia não é buscar muito volume. Queremos produzir um azeite realmente de qualidade, que faça diferença para quem coloca o produto à mesa. Queremos que as pessoas possam consumi-lo não apenas em pratos elaborados, mas também com um pedaço de pão, um ovo frito ou arroz — e perceber a qualidade e o prazer de consumir um bom azeite.

Para nós, comer também é desfrutar de um momento, de uma companhia e de um produto que proporcione prazer.

Mundo Agro: O que esse reconhecimento muda nos planos do Sítio da Pedra e na visão de vocês sobre o potencial dos azeites produzidos no Brasil?

Paula Pedrão: O reconhecimento não muda nosso objetivo de produção. Nossa propriedade é pequena e temos um limite de escala. Produzimos 800 garrafas na primeira safra e, quando as oliveiras atingirem a maturidade, esperamos chegar a cerca de 8 mil garrafas.

Ainda é um volume pequeno para abastecer grandes redes varejistas com a constância que elas exigem. Mas é suficiente para construir uma marca e chegar a um público que valorize a qualidade e o sabor do produto.

Ao mesmo tempo, acreditamos que existe um potencial enorme para a produção de azeite no Brasil. O mercado consumidor é grande e ainda há muito espaço para a produção nacional crescer.

Recentemente estivemos na Puglia, na Itália, para conhecer melhor uma região tradicional na produção de azeites. Foi interessante perceber como o consumo de azeite fresco faz parte da cultura local. No Brasil, ainda temos muito a avançar nesse sentido.

Acredito que o consumidor brasileiro vai ganhar ao ter acesso a azeites nacionais frescos e de alta qualidade. E, para quem produz, existe a oportunidade de ocupar uma parcela desse mercado que ainda está em desenvolvimento.

O prêmio ajuda justamente a tornar esse potencial mais conhecido e a mostrar que é possível produzir azeites de qualidade no Brasil.

Mundo Agro: O azeite é o único projeto produtivo da propriedade ou vocês já pensam em novos produtos?

Paula Pedrão: O azeite não é o único projeto. Temos uma área da propriedade que ainda estávamos avaliando como utilizar e começamos a estudar a possibilidade de produzir vinho. A ideia é fazer um vinho branco de alta qualidade, principalmente a partir da uva Vermentino, que conhecemos melhor durante uma viagem à Itália, especialmente na região da Sardenha. Já plantamos as primeiras mudas e esperamos fazer a primeira colheita no final do ano que vem. Depois da colheita, o processo de produção deve levar entre seis e oito meses.

A expectativa é chegar à primeira produção em 2027, com comercialização a partir de 2028. É mais um projeto que nasce da mesma ideia que orientou o azeite: entender as características da terra e encontrar produtos que possam expressar o potencial da propriedade.

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