Estiagem reforça importância da suplementação estratégica na pecuária de corte
Especialista destaca como manejo de pastagens e suplementos proteicos podem garantir desempenho, fertilidade e sustentabilidade do rebanho durante a seca
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A seca prolongada tem afetado a produtividade da pecuária brasileira, reduzindo o consumo de forragem e comprometendo a fertilidade e o ganho de peso dos animais.
Para entender melhor os desafios enfrentados pelos produtores, o Mundo Agro conversou com Eduardo Batista, consultor técnico nacional de bovinos de corte da Cargill, sobre estratégias de manejo e suplementação que podem garantir desempenho e sustentabilidade.

Mundo Agro: Qual é o impacto direto da estiagem na qualidade e quantidade do pasto disponível para o gado?
Eduardo Batista: A época de seca tem impactos severos na disponibilidade de forragens na nossa região de clima tropical. A falta de chuva diminui a umidade do solo, essencial para o crescimento das forrageiras. Em algumas espécies forrageiras a produtividade na seca é apenas 5% do total produzido durante o ano.
Nessa época também observamos uma redução drástica na qualidade das forrageiras, com diminuição da concentração de proteína e aumento da fração não degradável da FDN (fibra em detergente neutro). Como consequência, ocorre uma redução na digestão dessa fibra no rúmen.
Essa menor digestão da fibra se traduz em maior tempo de retenção do alimento no trato digestivo do animal, o que leva à redução do consumo diário de pasto.
Mundo Agro: Como a seca pode afetar o desempenho zootécnico, a fertilidade e a sobrevivência dos animais?
Eduardo Batista: O primeiro impacto negativo da seca é no consumo diário de pasto, com uma menor disponibilidade de forragens devido à ausência de chuvas. Os animais têm uma menor oferta de forragens, e isso impacta no consumo de nutrientes essenciais para um melhor desempenho.
Outro ponto é que o valor nutritivo das forragens é bastante afetado durante a seca, os níveis de proteína e a digestibilidade ruminal da fibra caem drasticamente, fazendo com que a absorção de nutrientes seja bastante reduzida.
A soma desses dois fatores, menor consumo e valor nutritivo inferior, faz com que a energia consumida pelo animal seja muito baixa – em alguns casos a energia digerida pelo animal é menor do que a “energia de mantença”, que é a energia necessária para que o animal mantenha suas funções vitais básicas.
Nessas condições, os animais começam a mobilizar tecidos corporais como gordura e proteína muscular para manter suas funções vitais, não sobrando nutrientes e energia para crescimento, fertilidade, etc.
Mundo Agro: Qual a importância do manejo de pastagens e do diferimento do pasto nesse período crítico?
Eduardo Batista: Manejar bem e planejar um bom diferimento de pastagens é uma prática bastante recomendada para garantir uma melhor oferta de forragens durante o período de seca. Essa prática consiste em reservar ou “vedar” os pastos no final das águas, para garantir uma melhor oferta de pasto, e um pasto com melhor composição nutricional durante a seca.
Mundo Agro: O que caracteriza uma suplementação proteica adequada para a seca?
Eduardo Batista: Suplementação proteica adequada é aquela que fornece os nutrientes necessários para o desempenho que se almeja em cada categoria. O que vai determinar qual suplementação proteica é adequada é a meta de desempenho que se almeja, a condição das pastagens, a estrutura, fornecimento e logística de suplementação da propriedade, bem como o fluxo de caixa do proprietário.
Mundo Agro: Por que apenas cerca de 15% do rebanho recebe suplementação estratégica no Brasil?
Eduardo Batista: Acredito que seja um fator cultural e falta de conhecimento do real benefício da suplementação proteica durante a época de seca. Grande parte dos pecuaristas de cria não acredita que suplementar uma vaca prenha com proteinado durante a seca traz melhores resultados econômicos.
E já temos muitos dados científicos que provam o contrário: suplementar uma vaca gestante com proteinado durante a seca produz um bezerro mais pesado e saudável, aumenta a taxa de prenhez e o número de vacas prenhas no início da estação de monta. Todos esses benefícios pagam o investimento em suplementação.
Mundo Agro: Que critérios o pecuarista deve observar ao escolher o suplemento certo para cada categoria animal?
Eduardo Batista: Primeiramente, o pecuarista tem que ter planejado o uso de um suplemento proteico com antecedência – alguns pontos são muito importantes para o sucesso dessa estratégia.
É necessário adequar o suplemento às condições de pastagens oferecidas. Suplemento de baixo consumo, como um proteico de um grama para cada quilo de peso vivo, só trará bom resultado com uma boa oferta de forragem.
Caso a oferta de forragem seja limitante, o pecuarista tem que pensar em suplementos que possam trazer algum “efeito substitutivo”, o que só acontecerá com consumos acima de quatro gramas para cada quilo de peso vivo.
Também é fundamental adequar a estrutura de cocho e logística de salga para o tipo de suplemento utilizado. Suplementos de maior consumo requerem maior espaçamento de cocho e uma frequência de salga diária.
É muito frequente o pecuarista fazer um avanço no uso de tecnologias de suplementação fornecendo um suplemento de maior consumo, mas esquecer de adequar a estrutura física da propriedade a esse maior volume de suplemento. Esse equívoco pode acarretar desempenho aquém do almejado.
Mundo Agro: Como os aditivos tecnológicos podem melhorar a digestibilidade das fibras e a saúde intestinal dos bovinos?
Eduardo Batista: Atualmente, nos suplementos a pasto podem ser utilizados diversos aditivos com a finalidade de melhorar a digestibilidade da fibra do capim. Podem ser aditivos ionóforos e não-ionóforos, prebióticos, probióticos e posbióticos, os quais modulam a fermentação ruminal e/ou criam ambiente favorável para maior degradação de fibra do capim no rúmen.
Mundo Agro: Como a adoção de suplementação estratégica pode contribuir para a sustentabilidade da pecuária brasileira?
Eduardo Batista: A adoção de suplementação estratégica está intimamente ligada à sustentabilidade da pecuária por dois aspectos principais. Primeiro, sustentabilidade ambiental: com o uso estratégico da suplementação, na época de seca ou de chuvas, podemos garantir melhores desempenhos zootécnicos, maior ganho de peso pelos animais durante todo ano, com redução na idade ao abate, encurtando o ciclo pecuário.
Dessa forma, é possível produzir mais com menos recursos, ou seja, produzir mais carne com um rebanho menor. Além disso, já está bem documentado pela literatura que animais suplementados e que utilizam aditivos emitem menos metano do que animais com dieta exclusiva de pasto, sem suplementação.
Segundo, sustentabilidade econômica: o aspecto econômico é critério importante para a sustentabilidade, e o uso de suplementação estratégica pode garantir um retorno econômico maior ao pecuarista, tornando a atividade mais rentável ao longo do tempo.
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