Gergelim é a nova aposta para reduzir o risco da safrinha
Menor investimento, menor demanda por água e crescimento das exportações colocam o gergelim no radar do produtor brasileiro

Por muito tempo, o gergelim ocupou um espaço pequeno na agricultura brasileira. Agora, a cultura começa a ganhar escala e a entrar no planejamento da segunda safra como uma alternativa ao milho — principalmente em regiões onde o calendário de plantio ficou mais apertado.
A mudança tem menos a ver com substituir uma cultura pela outra e mais com gestão de risco. Com ciclo curto, menor demanda hídrica e investimento por hectare mais baixo, o gergelim pode fazer sentido em áreas nas quais o milho entra fora da janela ideal e fica mais exposto à falta de chuva.
O Mundo Agro conversou com Lázaro Rodrigues, diretor técnico de Originação da Atlas Agro, e ele explicou por que o gergelim está deixando de ser uma cultura de nicho, como a conta de risco e rentabilidade se compara à do milho e em quais cenários a cultura pode ganhar ainda mais espaço na safrinha de 2027.

Mundo Agro: O que está levando o gergelim a ganhar espaço na segunda safra brasileira?
Lázaro Rodrigues: O principal ponto é gestão de risco. O produtor está buscando alternativas ao milho em um cenário em que a janela da segunda safra pode ficar mais apertada e a irregularidade climática aumenta o risco de perda de produtividade.
O gergelim tem ciclo curto, menor demanda hídrica e boa adaptação a regiões de segunda safra, permitindo ao produtor aproveitar a área depois da soja com uma exposição diferente da tradicional ao milho. Além disso, deixou de ser uma cultura de nicho: a produção brasileira vem crescendo e o mercado exportador está se consolidando.
Mundo Agro: Quais são os diferenciais em relação ao milho em risco climático, custos e rentabilidade?
Lázaro Rodrigues: Existem três diferenças importantes:
* Risco climático: ciclo mais curto e menor necessidade hídrica, o que pode reduzir a exposição ao déficit hídrico no final da segunda safra.
* Custo: O pacote tecnológico e o investimento por hectare são inferiores ao milho, isso reduz a exposição de risco do produtor, além de o milho ser totalmente dependente de Nitrogênio enquanto o gergelim não.
* Rentabilidade: o gergelim vem se mostrando altamente competitivo o em termos de rentabilidade diante de áreas de milho plantadas fora de janela que reduz a produtividade do produtor rural.
Não se trata em substituir milho por gergelim, mas sim comparar margem e retorno por hectare olhando para o risco climático.
Mundo Agro: Quais números mostram o crescimento do gergelim?
Lázaro Rodrigues: Os números mostram uma mudança estrutural:
•2023: produção próxima de 174 mil t.
* 2026: IBGE estima 364,8 mil t, em 584,3 mil ha.
* Exportações: passaram de 151,2 mil t em 2023 para 246,3 mil t em 2024, crescimento de aproximadamente 63%, segundo o IBGE e IBRAF
* Em valor, as exportações chegaram a aproximadamente US$ 348 milhões em 2024, alta superior a 58%, de acordo com o IBGE e IBRAF
Ou seja, a área plantada avança, a produção ganha escala e, principalmente, o Brasil amplia sua capacidade de exportação.
Mundo Agro: Como a demanda internacional pode influenciar a decisão do produtor?
Lázaro Rodrigues: Esse é o principal vetor de longo prazo. A abertura do mercado chinês em 2024 foi particularmente relevante porque a China é o maior importador mundial de gergelim e responde por 38,4% do consumo global. Em 2025, o número de estabelecimentos brasileiros habilitados a exportar para a China passou de 31 para 61. Além da China, o Brasil abriu novos mercados, como a África do Sul, e vem ampliando sua presença em mercados como a Arábia Saudita.
Temos mais compradores internacionais, maior liquidez, maior previsibilidade de comercialização, maior disposição do produtor para aumentar suas áreas.
Mundo Agro: Para a Safrinha 2027, em quais cenários o gergelim pode ser interessante?
Lázaro Rodrigues: O gergelim ganha competitividade quando a janela de plantio do milho fica mais arriscada, o custo do milho permanece elevado e existe uma relação de preço do gergelim capaz de remunerar adequadamente o risco e o investimento do produtor.
Para decidir, o produtor deveria olhar principalmente para:
1. Data de colheita da soja e janela efetiva de plantio.
2. Histórico de chuva da região e risco de seca no final do ciclo.
3. Custo por hectare e produtividade esperada.
4. Preço líquido recebido pelo produtor, e não apenas cotação de mercado.
5. Composição de receita
6. Uso efetivo das áreas produtivas
O gergelim não precisa substituir o milho; ele precisa ser uma alternativa de diversificação de risco. Em uma segunda safra mais desafiadora climaticamente, uma cultura de ciclo curto, menor demanda hídrica, mercado internacional crescente e maior valor por tonelada pode melhorar a equação econômica do produtor.
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