Guerra, juros e fertilizantes: o novo tripé de pressão sobre o agro
Conflito no Oriente Médio e Selic mais alta ampliam custos e incertezas no campo

A combinação entre instabilidade geopolítica e mudança na trajetória da taxa de juros no Brasil começa a redesenhar o ambiente econômico do agronegócio.
A guerra no Oriente Médio pressiona insumos estratégicos, enquanto a desaceleração no corte da Selic indica um ciclo mais longo de crédito caro — cenário que tende a afetar diretamente margens e decisões produtivas.
O Mundo Agro abre a porteira mais uma vez para um artigo, desta vez, para Wolney Arruda, presidente da Plantae Agrocrédito, que atua no mercado de crédito rural há mais de 20 anos.
“ A decisão recente do Banco Central do Brasil de reduzir a taxa Selic em apenas 0,25 ponto percentual, abaixo da expectativa majoritária do mercado, revela mais do que um ajuste técnico: indica uma mudança relevante na percepção de risco macroeconômico em um ambiente global mais instável e doméstico fiscalmente pressionado.
Até poucas semanas atrás, instituições financeiras projetavam cortes mais agressivos, com trajetórias que poderiam levar a taxa básica para patamares próximos de 11% ao final de 2026. No entanto, a combinação de tensões geopolíticas no Oriente Médio, pressão sobre commodities energéticas e deterioração das expectativas fiscais brasileiras alterou esse cenário. O ritmo agora tende a ser mais gradual, com estimativas revisadas apontando para níveis entre 13,5% e 14% no fechamento do ano.
No centro dessa precificação está a guerra envolvendo o Irã, um dos principais players globais na produção e exportação de fertilizantes nitrogenados, especialmente ureia. Dados internacionais indicam que o país figura entre os maiores exportadores globais do insumo, essencial para culturas como milho, trigo e cana-de-açúcar. Qualquer restrição logística ou sanção adicional tende a pressionar preços internacionais, elevando o custo de produção agrícola em escala global.
Ao mesmo tempo, o risco de interrupções no Estreito de Ormuz, corredor por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial, sustenta a volatilidade no preço do diesel. Ainda que o governo brasileiro tente conter repasses internos, analistas apontam que esse controle tem limites fiscais e temporais. O diesel permanece como um dos principais componentes de custo do agronegócio, impactando diretamente frete, mecanização e energia.
O cenário já era desafiador e tende a se tornar mais complexo. A leitura predominante no mercado é que a inflação importada via energia e fertilizantes reduz o espaço para cortes mais acelerados na taxa de juros, criando um efeito dominó sobre o custo do dinheiro.
Esse efeito é particularmente sensível no crédito rural. Com uma Selic mais instituião elevada por mais tempo, aumenta o custo de equalização das taxas subsidiadas do Plano Safra, pressionando ainda mais as contas públicas. Como consequência, cresce a probabilidade de produtores migrarem para linhas de crédito livre, indexadas ao CDI, diretamente influenciado pela taxa básica de juros.
O pano de fundo dessa dinâmica é fiscal. O Brasil entra em um ciclo eleitoral com déficit público elevado, o que limita a capacidade do governo de expandir subsídios sem comprometer ainda mais a percepção de risco. Relatórios recentes de instituições como o Fundo Monetário Internacional e análises de mercado destacam que a trajetória da dívida brasileira continua sendo um dos principais fatores de pressão sobre a política monetária.
Na prática, a combinação entre política fiscal expansionista e necessidade de financiamento eleva o prêmio exigido pelos investidores, reduzindo o espaço para cortes mais rápidos na Selic. Em outras palavras, o próprio desequilíbrio fiscal contribui para manter o custo do dinheiro elevado.
Para o produtor rural, o impacto é direto e multifatorial: crédito mais caro, insumos pressionados e maior incerteza sobre políticas públicas. Ainda que o governo possa ampliar recursos do Plano Safra em função do calendário eleitoral, o custo dessa expansão tende a ser mais elevado, reforçando um ciclo em que política fiscal e monetária operam em tensão.
O resultado é um 2026 que se desenha como um ano de margens mais apertadas e decisões mais complexas no campo. Em um ambiente onde a geopolítica influencia o preço do fertilizante, o petróleo define o custo do frete e o déficit fiscal limita a política de crédito, o agronegócio brasileiro volta a operar sob uma lógica cada vez mais global, e menos previsível."
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