Nova política dos EUA revoluciona mercado de biocombustíveis e desafia exportadores brasileiros
Reforma nos créditos nos EUA desafia o sebo bovino e cria brechas para o Brasil

A nova legislação americana sobre biocombustíveis, a Inflation Reduction Act (IRA), está redesenhando as regras do jogo no setor de energias renováveis.
Com mudanças significativas no cálculo dos créditos fiscais — agora atrelados à intensidade de carbono dos combustíveis —, produtores nos Estados Unidos enfrentam um cenário de incertezas e margens mais apertadas.
Para o Brasil, as alterações representam tanto riscos, como a possível redução nas exportações de sebo bovino, quanto oportunidades estratégicas, especialmente na cadeia de óleo de soja.
Em entrevista ao Mundo Agro, Lucas Brunetti, analista da Consultoria Agro do Itaú BBA, analisa os impactos da IRA no mercado global e as perspectivas para o setor brasileiro.

Mundo Agro: Qual foi a principal mudança trazida pela IRA em relação ao programa anterior BTC?
Lucas Brunetti: Esse foi o motivo que nos levou a fazer o relatório com a análise. O IRA é uma nova versão que muda um pouco, principalmente a forma como é calculado. Antigamente, era flat, era só um dólar por galão de biodiesel ou diesel renovável. Agora, você tem essa forma diferenciada, em que se leva em conta a nota de intensidade de carbono. Então, quanto mais polui, menos se recebe — ao invés de ser flat, igual para todo mundo (um dólar por galão), agora varia. Isso muda a lógica do sistema: é preciso emitir menos e, se emitir pouco ou menos, você ganha menos crédito.
Mundo Agro: O que é o Clean Fuel Production Credit (CFPC) e como ele altera os incentivos para os biocombustíveis?
Lucas Brunetti: O CFPC é só uma parte dentro do IRA. O IRA é uma lei grande, e o CFPC, que é o Clean Fuel Production Credit, é exatamente a parte do IRA que trata dos combustíveis renováveis. Ele aborda desde sequestro de carbono até outros pontos. O IRA é uma lei bem ampla, bem completa, e essa é a parte que trata dos combustíveis.
Mundo Agro: Como a IRA pretende incentivar o uso de combustíveis sustentáveis de aviação (SAF)?
Lucas Brunetti: Quando o IRA foi criado, lá em 2022, ele já deu um incentivo especial para o SAF. Antes, o BTC — que é o Blender Tax Credit — era só para biodiesel à base de biomassa, o BBM. Esse incentivo só contemplava o biodiesel, o diesel renovável. Mas o IRA já criou, naquela época, um incentivo específico ao SAF. Agora, esse incentivo é ainda mais atrativo, porque o crédito máximo do biodiesel renovável (BBM) é de 1 dólar por galão, enquanto o do SAF pode chegar a até 1,75 dólares por galão.
Mundo Agro: Por que a produção de biodiesel caiu 54% no primeiro bimestre de 2025 em comparação ao ano anterior?
Lucas Brunetti: Os fatores são os mesmos tanto para o biodiesel quanto para o diesel renovável: a produção caiu consideravelmente porque o volume de créditos gerados diminuiu. Além disso, houve um cenário de insegurança, já que 2025 começou sem clareza sobre como funcionariam os novos créditos. A nova regra entrou em vigor em 1º de janeiro, mas as normativas do Tesouro americano só foram publicadas no dia 10. Mesmo após isso, passou a vigorar um novo trâmite para obtenção dos créditos, mais complexo. Essa combinação de incertezas regulatórias e redução nos incentivos explica a queda na produção.
Mundo Agro: Quais são as perspectivas para a produção de biodiesel nos próximos meses?
Lucas Brunetti: A perspectiva é de uma volta parcial. A produção estava em um nível elevado, caiu — como você comentou ali, tanto no texto quanto aqui, me perguntando — 54% no biodiesel e 25% no diesel renovável. Acreditamos que essa queda deve diminuir no comparativo anual, mas não deve voltar aos mesmos patamares do ano passado, porque há menos créditos disponíveis. Com menos incentivo, o retorno e a margem para o produtor diminuem, então a tendência é que se produza um pouco menos.
Mundo Agro: Como o modelo de incentivos precisa funcionar para tornar os biocombustíveis economicamente viáveis?
Lucas Brunetti: Nos Estados Unidos, eles chamam de empilhamento de incentivos. Essa “pilha” de incentivos precisa fechar o gap entre o preço do combustível renovável e o do combustível fóssil. O etanol precisa de uma pilha menor, o biodiesel precisa de uma maior, e o SAF precisa de uma ainda maior, certo? Essas pilhas de incentivos precisam ser grandes o suficiente para cobrir essa diferença. Estavam muito favoráveis, especialmente para o biodiesel renovável, nos últimos dois anos, por isso a produção cresceu bastante — até mais do que era a meta de mistura.
Mundo Agro: Como a nova legislação americana pode afetar as exportações brasileiras de sebo bovino?
Lucas Brunetti: Como a gente já comentou, o BTC era uma regra ampla, em que se ganhava um dólar por galão de biodiesel ou diesel renovável misturado à gasolina. Agora não — agora só ganha crédito quem produz. Tudo bem, é possível importar sebo brasileiro para produção, mas a legislação também coloca algumas restrições sobre quais matérias-primas dão direito ao crédito. Por exemplo, o sebo bovino brasileiro não é elegível. Então, não que vá acabar a produção de biodiesel à base de sebo, mas ela vai perder atratividade. Provavelmente, isso vai levar à redução das importações de sebo. Acreditamos que isso vai impactar as exportações brasileiras de sebo para os Estados Unidos.
Mundo Agro: De que forma os preços do óleo de soja no Brasil podem ser impactados pela mudança nos EUA?
Lucas Brunetti: Acreditamos que essa reforma, principalmente se vierem mudanças adicionais — como o aumento do RVO (mandato de biocombustível) ou alterações no IRA para tirar a penalidade do ILUC nas notas de carbono — vai intensificar ainda mais o uso de óleo de soja. Isso deve fazer com que os preços do óleo de soja nos EUA subam bastante. Provavelmente vai subir no mundo todo, mas não na mesma intensidade que nos EUA. Isso tornará o óleo de soja do Brasil, da Argentina e de outros países produtores mais atrativo para exportação do que o óleo americano. Então, deve haver um impacto, com aumento no preço do óleo de soja brasileiro e maior atratividade para exportação.
Mundo Agro: Há espaço para o Brasil aproveitar oportunidades comerciais em razão das alterações no cenário americano?
Lucas Brunetti: Sim, existe uma oportunidade, já que os EUA estão buscando aumentar o uso de matérias-primas domésticas. Isso deve abrir espaço no mercado internacional que o Brasil poderá ocupar. Eles vão consumir mais matéria-prima internamente, e o Brasil terá a chance de ocupar esse espaço, se conseguir ser competitivo com o resto do mundo. Os EUA provavelmente vão sair um pouco do mercado internacional, tanto de soja quanto de óleo de soja, se tudo acontecer conforme o que comentamos no texto.
Mundo Agro: Quais riscos essa nova política pode trazer para produtores e exportadores de matérias-primas no Brasil?
Lucas Brunetti: O principal risco para o Brasil é em relação ao sebo que exportamos diretamente para os Estados Unidos. Esse é o maior impacto negativo que vemos: a diminuição das exportações de sebo bovino brasileiro. No restante, vemos mais oportunidades do que riscos.
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