O rebanho que fez do calor um aliado
Desenvolvida no Texas (EUA) para enfrentar calor e aridez, a Santa Gertrudis encontrou no Mato Grosso do Sul condições para transformar rusticidade em desempenho a campo

Em regiões onde os termômetros passam dos 35°C, resistência ao calor deixa de ser apenas uma característica desejável e passa a ter impacto direto na produtividade. É nesse ambiente que a raça Santa Gertrudis mostra uma de suas principais características: manter o desempenho a campo mesmo sob estresse térmico.
Criada no sul do Texas pelo King Ranch, a raça foi desenvolvida para enfrentar calor e aridez. Chegou ao Brasil em 1953 e, décadas depois, se consolidou no Centro-Oeste, especialmente em Nova Andradina (MS), onde criadores selecionam animais adaptados ao clima da região.
A Santa Gertrudis resulta do cruzamento de 5/8 Shorthorn com 3/8 Brahman. A combinação reúne características produtivas e de rusticidade, como resistência ao calor e a parasitas.
Na prática, o que os criadores procuram é um animal que mantenha o ritmo quando a temperatura sobe: continue pastejando, caminhe, preserve a condição corporal e, principalmente, mantenha a capacidade reprodutiva.
“O estresse térmico costuma ser um gargalo que reduz a libido e a movimentação de reprodutores em climas quentes, mas o touro Santa Gertrudis não procura sombra, caminha longas distâncias e cobre a vacada com eficiência”, disse Anderson Fernandes, presidente do Conselho Técnico da Associação Brasileira de Santa Gertrudis.
Em Nova Andradina, essa adaptação é observada há mais de duas décadas na Fazenda Santa Flora, da seleção 2T. O trabalho começou em 2001, com duas novilhas, e evoluiu para uma seleção voltada às condições do Centro-Oeste.
“Acompanhamos o comportamento desse gado no pasto há 23 anos. É um animal que não sente as altas temperaturas, caminha longas distâncias, mantém a condição corporal e entrega bezerros pesados na desmama”, afirmou o criador Thiago Amstalden.
A seleção da raça ganhou outro capítulo em 2021, quando o médico-veterinário Antônio Roberto Alves Corrêa, do Grupo União do Brasil, adquiriu o antigo Rebanho nº 1 do Brasil, ligado ao King Ranch, e transferiu os animais para Nova Andradina.
“Trazer o Rebanho nº 1 para o Mato Grosso do Sul foi mais do que resgatar uma história centenária; foi colocar a genética do King Ranch exatamente onde ela se destaca”, disse Corrêa.
A experiência de Nova Andradina mostra como a adaptação ao clima pode se transformar em uma característica produtiva. Para a pecuária tropical, a busca é por uma genética capaz não apenas de suportar o calor, mas de continuar produzindo quando as condições ficam mais difíceis.
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