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Plano Nacional de Fertilizantes ganha urgência diante dos riscos externos

A volatilidade do mercado internacional de enxofre reforça a necessidade de acelerar investimentos e reduzir vulnerabilidades na cadeia de suprimentos do agronegócio

Mundo Agro|Fabi GennariniOpens in new window

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O elo vulnerável dos fertilizantes Foto: Arquivo pessoal

O Brasil consolidou sua posição entre as principais potências agrícolas do mundo, mas ainda depende do mercado internacional para abastecer grande parte de sua demanda por fertilizantes. Essa vulnerabilidade vai além dos produtos tradicionalmente associados à produção agrícola e alcança matérias-primas menos conhecidas, mas essenciais à indústria de insumos. É o caso do enxofre, utilizado na fabricação de ácido sulfúrico e fundamental para a produção de fertilizantes fosfatados.

O Mundo Agro abre a porteira para o artigo de Ruy Ramos de Toledo Piza, advogado especialista em produtos estruturados e agronegócio.

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Ruy Ramos de Toledo Piza, Advogado especialista em produtos estruturados e agronegócio Foto cedida: Ruy Ramos de Toledo Piza

“Dependência externa de enxofre amplia risco para a produção de fertilizantes no Brasil.

O agronegócio brasileiro ainda convive com um número elevado de pedidos de recuperação judicial. Foram 1.990 em 2025, segundo a Serasa Experian, alta de 56,4% sobre o ano anterior. No primeiro trimestre de 2026, outros 474 pedidos foram registrados. É possível que esse volume comece a perder força nos próximos meses, mas o produtor continua exposto a custos altos, crédito caro e acontecimentos externos sobre os quais têm pouco ou nenhum controle.

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Um deles está na cadeia de fertilizantes e o Brasil importa mais de 80% dos fertilizantes que utiliza. A dependência é particularmente alta em nitrogenados e potássicos e também relevante nos fosfatados. Em um país com um agricultura do tamanho da nossa, esse percentual de dependência externa faz com que os efeitos de uma guerra, uma restrição de exportação ou um problema logístico a milhares de quilômetros daqui rapidamente entrem na conta do produtor.

A guerra da Rússia já mostrou isso uma vez que o país está entre os maiores fornecedores de fertilizantes ao Brasil e ocupa posição importante no mercado mundial. Restrições às exportações, sanções, ataques sofridos a instalações industriais e dificuldades logísticas vem atingindo uma cadeia de exportação russa que já opera sob pressão.

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Agora, parte da preocupação passa pelo enxofre que é um produto menos conhecido fora da indústria, mas essencial para a fabricação de fertilizantes fosfatados. O enxofre é utilizado na produção de ácido sulfúrico, necessário ao processamento da rocha fosfática e à fabricação de produtos como fertilizantes fosfatados, como o MAP (fosfato monoamônico) e o DAP (fosfato diamônico) .

O problema é que sua oferta está diretamente ligada à indústria de petróleo e gás e às grandes rotas internacionais de energia. As tensões no Oriente Médio e as restrições no Estreito de Ormuz atingiram esse mercado. Ao longo de 2026, as cotações do enxofre subiram fortemente. Em julho deste ano, o preço contratual da tonelada de enxofre líquido entregue em Tampa, nos Estados Unidos, chegou a US$ 705 por tonelada longa, contra US$ 116 observados no início de 2025 . No mercado spot do Golfo americano, houve negócios avaliados acima de US$ 1.100 por tonelada.

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Uma matéria-prima que encarece dessa forma não fica isolada em um elo da cadeia. A situação do Marrocos ajuda-nos a entender a dimensão do problema, pois o país possui uma das maiores reservas de rocha fosfática do mundo e é fornecedor importante de fertilizantes fosfatados ao Brasil, mas tem sido diretamente afetado pelo gargalo logístico no Estreito de Ormuz. Afinal, a disponibilidade de rocha não resolve a equação. Para transformar esse mineral em fertilizante, é preciso ácido sulfúrico. Para produzir ácido sulfúrico, é preciso enxofre. Se o enxofre falta ou fica caro demais, o custo chega à indústria de fertilizantes e, depois, ao produtor.

Essa discussão ocorre justamente quando o Brasil tenta ampliar sua produção doméstica por meio do Plano Nacional de Fertilizantes e de investimentos em novas fontes, bioinsumos e alternativas tecnológicas. Essa agenda deveria ter avançado mais rapidamente.

Não se trata de eliminar a importação. Isso seria pouco realista para uma agricultura com a escala brasileira. O problema está na dependência tão concentrada e na falta de alternativas quando vários pontos da cadeia são afetados ao mesmo tempo."

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