Produtor mais técnico impulsiona nova fase do crédito digital
Integração entre financiamento, fluxo de caixa e proteção de margem sustenta crescimento da modalidade

O avanço do crédito digital no agro deixou de ser uma tendência para se tornar uma mudança estrutural.
Em 2025, o E-agro mais que dobrou o volume de crédito originado, alcançando R$ 5,6 bilhões e consolidando uma carteira de R$ 6,3 bilhões. O crescimento reflete não apenas a expansão da plataforma, mas uma transformação na forma como o produtor rural planeja e estrutura suas decisões financeiras.
O Mundo Agro conversou com Nadege Saad, head do E-agro. Ela detalha os fatores por trás da expansão, o amadurecimento do produtor e os próximos passos da estratégia, incluindo a entrada no crédito para pessoa jurídica.
Mundo Agro: O E-agro mais que dobrou o volume de crédito originado em 2025. Quais fatores foram decisivos para esse crescimento?
Nadege Saad: O crescimento reflete, antes de tudo, a mudança estrutural na forma como o produtor se relaciona com o crédito. Hoje ele opera em um ambiente “figital”, em que a presença no campo continua central, mas as decisões financeiras são cada vez mais apoiadas por dados, simulações e acompanhamento digital durante a safra.
Ao longo de 2025, vimos três vetores muito claros: a consolidação do E-agro como ferramenta de planejamento financeiro — e não apenas de contratação —, o amadurecimento do produtor no uso de informações para tomada de decisão e a ampliação do nosso ecossistema, que integra crédito, parceiros e soluções de gestão em um único ambiente.
Esse conjunto permitiu crescer com consistência, mantendo qualidade de carteira e disciplina de risco, mesmo em um cenário mais seletivo. Não foi um crescimento pontual, mas resultado de um uso mais recorrente e estratégico da plataforma pelo produtor.
Mundo Agro: Como a evolução do produtor rural influenciou diretamente a estratégia do E-agro desde o lançamento, em 2023?
Nadege Saad: O E-agro nasce, em 2023, já olhando para um produtor que estava em transformação. Nos últimos anos, ele passou a operar com mais profissionalização, maior controle de custos e uma visão mais estruturada de planejamento financeiro.
Parte dessa evolução vem do próprio produtor, que buscou novas formas de gerir o negócio e tomar decisão com mais base técnica. Outra parte vem do avanço da tecnologia, que reduziu fricção, trouxe agilidade e tornou o crédito mais transparente e comparável.
Desde o início, percebemos que a demanda não era apenas por acesso ao crédito, mas por previsibilidade e integração de informações. A estratégia do E-agro acompanhou esse movimento: ampliamos ferramentas de planejamento, conectamos soluções em um ecossistema e passamos a apoiar o produtor ao longo de todo o ciclo produtivo. Hoje, a plataforma reflete essa evolução — ela responde a um produtor mais conectado, mais técnico e mais orientado à gestão financeira.
Mundo Agro: O que explica a consolidação do crédito digital como ferramenta de planejamento financeiro no campo?
Nadege Saad: O que vimos em 2025 é que o crédito digital deixou de ser um ponto de entrada e passou a ser parte da arquitetura financeira da safra. Quando o produtor consegue simular condições, travar custos e acompanhar sua exposição ao longo do ciclo, ele transforma o crédito em ferramenta de gestão e não apenas em solução de curto prazo.
Esse movimento fica evidente na recorrência de uso da plataforma. Ao longo do último ano, boa parte das operações não foi isolada, mas integrada ao planejamento produtivo, com o crédito sendo estruturado junto às decisões de compra, investimento e gestão de caixa.
A consolidação do digital acontece porque ele traz previsibilidade em um setor que lida com volatilidade climática, de preços e de custos. Quanto maior a previsibilidade, mais o crédito passa a ser usado de forma estratégica.
Mundo Agro: De que forma o crédito digital mudou a maneira como o produtor rural avalia custo, risco e prazo?
Nadege Saad: A principal mudança é a capacidade de simulação e de comparação em tempo real. O produtor consegue avaliar o impacto financeiro de cada decisão antes de contratar e estruturar operações de forma mais equilibrada. Isso reduz assimetrias de informação e permite decisões mais técnicas. Em vez de olhar apenas para taxa, o produtor passa a analisar custo total, prazo, fluxo de caixa e exposição ao risco ao longo da safra.
Na prática, vemos operações mais planejadas e menos reativas. Esse comportamento foi determinante para o crescimento da plataforma com qualidade de carteira em 2025, mesmo em um ambiente de maior seletividade.
Mundo Agro: Hoje, o E-agro é mais do que um canal de contratação. Qual é o papel da plataforma na gestão financeira da safra?
Nadege Saad: Hoje o E-agro funciona como uma camada de organização financeira da operação rural. A plataforma integra crédito, marketplace e informações que ajudam o produtor a estruturar o financiamento em linha com o calendário produtivo.
Com uma originação que atingiu R$ 5.6 bilhões em 2025 e carteira de R$ 6.3 bilhões, a plataforma passou a ter escala suficiente para acompanhar o produtor de forma contínua, não apenas em momentos pontuais.
O papel é dar previsibilidade: permitir que o produtor visualize compromissos, organize investimentos e alinhe o crédito às necessidades reais da propriedade. Esse uso recorrente é o que transforma a plataforma em ferramenta de gestão.
Mundo Agro: O produtor brasileiro está mais preparado para decisões financeiras digitais do que há dois anos?
Nadege Saad: Sem dúvida. O que observamos desde 2023 é um avanço consistente na maturidade financeira e digital. O produtor está mais atento à proteção de margem, à gestão de custos e ao uso de instrumentos financeiros de forma estratégica.
Esse amadurecimento aparece na forma como o crédito é contratado — com mais antecedência e integração ao planejamento. Também aparece na maior abertura para soluções estruturadas e digitais. O crescimento da plataforma ao longo de 2025 está diretamente ligado a esse novo perfil de produtor, que utiliza o digital para ganhar eficiência e previsibilidade.
Mundo Agro: A entrada no crédito PJ marca uma nova fase. O que muda na prática para o produtor?
Nadege Saad: A ampliação para crédito PJ acompanha a própria transformação do produtor rural. Nos últimos anos, vimos uma profissionalização muito clara do setor: produtores que estruturaram suas operações como empresa, com gestão mais integrada de fluxo de caixa, investimentos e risco. Era um movimento natural que a plataforma evoluísse para atender essa realidade de forma mais completa.
Na prática, o que muda é a possibilidade de concentrar, em uma mesma jornada digital, as diferentes necessidades financeiras da operação — capital de giro, custeio e investimentos — com instrumentos mais aderentes à lógica empresarial do produtor. Isso permite uma visão mais integrada do planejamento da safra e do ciclo financeiro do negócio, respeitando a forma como essas operações hoje são organizadas.
O crédito PJ não é uma mudança de foco, mas uma expansão do ecossistema para acompanhar a evolução do próprio cliente. O produtor que antes operava como pessoa física muitas vezes passou a ter uma estrutura empresarial, e faz sentido que ele encontre na plataforma soluções compatíveis com esse nível de gestão.
Também há um ganho importante de eficiência e previsibilidade. Quando integramos as soluções dentro da mesma jornada, o produtor consegue planejar melhor prazos, custos e alocação de recursos ao longo do ciclo produtivo, com mais clareza sobre o impacto financeiro das decisões.
É um avanço que amplia o alcance da plataforma, sem perder o foco na operação rural e na qualidade da carteira. Seguimos com uma visão de crescimento responsável, acompanhando a profissionalização do setor e reforçando o papel do crédito digital como ferramenta de gestão financeira ao longo da safra, e não apenas como um ponto de contratação.
Mundo Agro: Quais segmentos devem puxar o crescimento em 2026?
Nadege Saad: A nossa leitura é de continuidade do crescimento nos segmentos em que já construímos maior escala e recorrência desde o lançamento do E-agro. Proteínas e grãos seguem como os principais vetores da carteira, tanto pelo nível de profissionalização dessas cadeias quanto pela demanda por planejamento financeiro mais estruturado. O crescimento de 2025 mostrou que a expansão da plataforma veio justamente de produtores com operações recorrentes e mais organizadas financeiramente — e essa dinâmica deve se manter em 2026.
Um movimento que tende a ganhar relevância é a ampliação do uso de instrumentos atrelados ao dólar, especialmente a CPR em dólar. Temos observado produtores de regiões que historicamente não operavam com hedge cambial começando a buscar essa proteção, tanto nas operações de comercialização de grãos quanto no crédito. Em um ambiente de maior volatilidade, essa estrutura ajuda a dar previsibilidade de margem e a alinhar melhor financiamento e receita, o que reforça o papel do crédito como ferramenta de gestão, e não apenas de contratação pontual.
Outro eixo importante é a entrada no crédito para pessoa jurídica, que acompanha a própria evolução do agro. Muitos produtores passaram a operar com estruturas empresariais mais complexas e demandam soluções compatíveis com essa realidade. Quando falamos de PJ, não estamos mudando o foco do produtor, mas ampliando o alcance do ecossistema para atender operações que já funcionam como empresas rurais. Na prática, isso permite integrar capital de giro, investimento e planejamento financeiro em uma mesma jornada digital, com instrumentos mais aderentes à gestão do negócio e à governança dessas estruturas.
Também vemos espaço relevante em operações ligadas à eficiência produtiva — como financiamento de máquinas e equipamentos — e na gestão de capital de giro ao longo da safra. O que mudou nos últimos anos é que o produtor passou a incorporar o crédito digital ao planejamento financeiro, olhando fluxo de caixa, custo e proteção de margem com mais antecedência.
Por isso, o crescimento em 2026 deve vir principalmente de produtores que já operam com visão de longo prazo, buscam previsibilidade e utilizam a plataforma de forma recorrente ao longo do ciclo produtivo. O E-agro deixa de ser apenas um canal de contratação e passa a acompanhar a gestão financeira da safra, e é essa recorrência — com disciplina e qualidade de carteira — que sustenta a nossa expansão.
Mundo Agro: Como o E-agro avalia o apetite do produtor por instrumentos mais sofisticados de gestão de risco?
Nadege Saad: O apetite tem crescido gradualmente. À medida que o produtor passa a gerir o negócio com mais visão financeira, aumenta a demanda por instrumentos que tragam previsibilidade e proteção de margem. O papel da plataforma é tornar esses instrumentos mais acessíveis e compreensíveis, respeitando o perfil de cada operação.
O que vemos é um movimento consistente de profissionalização, em que o crédito passa a ser parte de uma estratégia financeira mais ampla.
Mundo Agro: O financiamento de máquinas e linha amarela deve ganhar relevância em que tipo de operação?
Nadege Saad: Principalmente em operações que buscam eficiência operacional e ganho de produtividade. A modernização do parque de máquinas é um vetor relevante de competitividade, sobretudo em produtores com maior escala e planejamento estruturado.
Quando o investimento é bem planejado e integrado ao fluxo financeiro da safra, ele contribui para redução de custos e aumento de eficiência no médio prazo.
Por isso, vemos espaço para crescimento desse tipo de financiamento dentro de operações mais estruturadas.
Mundo Agro: Em um ambiente de maior seletividade do crédito, como o E-agro se posiciona?
Nadege Saad: O posicionamento é de crescimento com disciplina. Seguimos ampliando a atuação, mas com leitura criteriosa de risco e foco em crédito responsável. Em 2025, conseguimos crescer mantendo qualidade de carteira justamente por combinar tecnologia, proximidade com o produtor e análise estruturada.
Plataformas digitais ganham ainda mais relevância em cenários seletivos porque oferecem transparência, simulação e previsibilidade — elementos que ajudam o produtor a tomar decisões mais conscientes e atravessar ciclos com maior segurança.
✅Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp













