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Sem registro nacional, máquinas agrícolas viram alvo fácil de quadrilhas

Novo sistema surge como alternativa para fechar o cerco contra o roubo no campo e no transporte

Mundo Agro|Fabi GennariniOpens in new window

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Brasil carece de registro nacional para identificação de máquinas agrícolas, facilitando roubos.
  • Falta de rastreabilidade gera dificuldades para policiais e empresas na verificação de procedência.
  • Roubo de tratores aumentou 37% em 2025, com quadrilhas especializadas no furto e revenda de equipamentos.
  • Aplicativo SINID é uma solução proposta para identificar e rastrear maquinários agrícolas, ajudando na recuperação de equipamentos roubados.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Como a falta de identificação movimenta o crime de máquinas e equipamentos Foto cedida: ABIRPP

O aumento do roubo de máquinas agrícolas expõe uma falha central: o Brasil não possui um registro público nacional que permita identificar tratores e implementos. Sem rastreabilidade, a polícia e os compradores ficam de mãos atadas.

Em entrevista ao Mundo Agro, Sinval Pereira, presidente da ABIRPP, Associação Brasileira de Identificação e Rastreabilidade de Partes e Peças de Veículos, Máquinas e Equipamentos e Perito Veicular, explica por que essa ausência alimenta o crime.


Sinval Pereira, presidente da Associação Brasileira de Identificação e Rastreabilidade de Partes e Peças de Veículos, Máquinas e Equipamentos e Perito Veicular Foto cedida: ABIRPP

Mundo Agro: Como a falta de um registro oficial nacional torna máquinas e equipamentos agrícolas mais vulneráveis ao roubo?

Sinval Pereira: O uso de um registro público nacional impede qualquer ação efetiva das autoridades de outros estados. Vou dar um exemplo: rouba-se um trator em São Paulo e esse trator vai para Minas. O proprietário do trator faz um boletim de ocorrência em São Paulo e esse trator é recuperado lá no norte de Minas. Quando um policial consulta a base de dados lá, esse trator não tem nenhuma queixa de roubo. Ele é obrigado a liberar o trator naquele momento. Ele parou na rodovia, desconfiou de alguma coisa, mas ele é obrigado a liberar o trator porque a polícia só pode agir se houver algum fato envolvendo aquele equipamento.


Se não tem, ele tem que liberar.

E tem mais: a falta de uma base pública não impede só as autoridades — impede também as empresas. Quando uma empresa quer locar um equipamento, ou quer comprar um equipamento usado que está à venda na internet, ela não tem como saber se aquele equipamento é roubado, furtado, fraudado, se foi locado e não devolvido. Isso acontece todos os dias.


Mundo Agro: Há estimativas ou números recentes que mostram o avanço desse tipo de crime no Brasil?

Sinval Pereira: Os dados mais recentes que tive acesso são da Tracker mostrando que em 2025 o roubo de tratores agrícolas aumentou 37% em relação ao ano passado. Isso se deve ao fato de que os bandidos estão se especializando e vendo que é muito fácil roubar o trator, o equipamento, o implemento, e vender apenas como um usado barato. Quem compra não tem onde consultar a procedência desse equipamento.


Mundo Agro: Quais são os equipamentos mais visados pelas quadrilhas atualmente?

Sinval Pereira: Equipamentos como guindaste, articulado, MUNC, que podem valer até R$ 400 mil, R$ 450 mil. Equipamentos como ROLON e ROLOF, que custam em média R$ 140 mil. Plataformas de auto-socorro, que podem custar desde R$ 70 mil até mais de R$ 250 mil, R$ 300 mil.

São equipamentos tratados como meros acessórios e eles não possuem nenhuma identificação pública.

Os bandidos, sabendo disso, dão preferência a roubar veículos com esses equipamentos porque rende muito mais. Além de vender as peças do veículo em sí, eles têm este implemento dos “acessórios” que valem de R$ 70 mil a R$ 400 mil no mercado paralelo. Quem compra não tem como consultar se é roubado ou se quem está vendendo é o verdadeiro proprietário.

Mundo Agro: O que motivou o lançamento do aplicativo SINID neste momento?

Sinval Pereira: Este lançamento aconteceu devido ao apoio que a ABIRPP teve do Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região. O SETCESP entendeu a necessidade desse registro porque vários de seus associados são empresas que utilizam implementos rodoviários, e o índice de roubo é altíssimo. O SETCESP viu o processo do SINID, do Identimac, e ajudou na divulgação, na demonstração e na apresentação às autoridades, inclusive com a presença de membros da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, que também comprovaram a efetividade deste sistema.

Mundo Agro: Como funciona o processo de marcação das peças — a “vacina” — e por que ela é tão importante?

Sinval Pereira: Comprovadamente, mais de 90% dos caminhões roubados são rapidamente desmanchados e suas peças vendidas. O crime é facilitado pela falta de rastreabilidade das peças. Então se já temos essa comprovação de que o crime é motivado pela falta de rastreabilidade, a solução é criar estes meios de rastreio. A vacina é a multiplicação dos sinais identificadores efetuados de maneira indelével. A vacina é uma gravação indelével e registrada. O que é uma gravação indelével? É uma gravação que não sai. Ela é periciável.

Mundo Agro: Quantos sinais identificadores podem ser aplicados em um único equipamento?

Sinval Pereira: Um pequeno trator ganha cerca de 60 sinais, sendo que de fábrica ele vem apenas com um, que é o número de chassi. Uma retroescavadeira tem perto de 200 sinais; Uma escavadeira hidráulica pode chegar a 350 sinais.

Implementos rodoviários como o MUNC também variam: um braço de 5 metros ou de 45 metros pode ter de 80 a 180 identificações.

Mundo Agro: O SINID pode ser usado por qualquer produtor ou apenas por empresas registradas?

Sinval Pereira: O SINID pode e deve ser utilizado por fabricantes de implementos rodoviários e agrícolas que querem demonstrar compromisso com seus clientes. Estamos falando de equipamentos que chegam a seis dígitos e não possuem identificação. O fabricante que quiser identificar seus equipamentos precisa apenas se associar à ABIRPP. Assim, ele terá acesso ao aplicativo SINID, treinamento, capacitação para seus técnicos e certificação para introdução dos dados no sistema. Isso torna a procedência e a propriedade públicas. Produtores e locadores também podem usar o sistema. Basta entrar no site da ABIRPP e procurar uma empresa certificada e homologada para inserir dados no SINID.

Mundo Agro: Como o aplicativo ajuda a identificar e recuperar máquinas que já foram desmontadas?

Sinval Pereira: Máquinas, tratores e implementos não são desmontados, diferente de caminhões, por exemplo, que mais de 90% são desmontados. Como não possuem identificação, os maquinários simplesmente são colocados à venda, principalmente em plataformas de e-commerce.

O SINID entra exatamente aí: quando você for comprar o equipamento, verifique se ele tem sinais identificadores. Se tiver, consulte o número no SINID. É uma consulta rápida e fácil. Ali você vai saber se tem dono, quem é o dono, a situação legal e como entrar em contato com o proprietário antes da compra — evitando receptação e até lavagem de dinheiro.

O mundo caminha para a rastreabilidade. Rastreabilidade de alimentos, de medicamentos, e agora de máquinas e implementos. Isso traz vários benefícios:

  • Para o fabricante: demonstra compromisso, facilita recalls e garantias;
  • Para o comprador: transforma o equipamento num patrimônio registrado;
  • Para a sociedade: inibe o comércio de produtos roubados;
  • Para o comprador final: evita adquirir algo irregular e responder por receptação.

Mundo Agro: De que forma a delimitação da área de circulação facilita o trabalho das forças policiais?

Sinval Pereira: Máquinas, tratores e equipamentos da linha amarela não ficam transitando de um município a outro. Eles ficam em áreas restritas. Com o SINID, o gestor pode abrir o aplicativo e delimitar a área onde a máquina deve trabalhar. Exemplo: um bairro em Campinas, como o Souza. A máquina deveria estar ali. À noite, bandidos roubam a máquina, rendem o guarda e saem com ela em cima de um caminhão.

Se a polícia para a máquina em outro município, ao consultar o SINID vai constatar que ela deveria estar no bairro do Souza, mas está em outra cidade. Imediatamente se levanta a suspeita de roubo. A polícia tem no aplicativo o telefone do gestor e faz o contato direto via WhatsApp. Muitas vezes, o dono nem sabe que a máquina foi roubada e temos mais um crime resolvido antes de ser concluído. Além disso, existe também a autorização de deslocamento. O gestor entra no aplicativo, informa origem, destino, rota, motorista e caminhão. Se a máquina deveria ir pela Dom Pedro e Dutra, mas aparece na Bandeirantes, algo está errado. O motorista pode ser outro, o caminhão pode não ser o autorizado. Tudo isso ajuda a polícia a agir imediatamente.

Mundo Agro: A polícia já está integrada ao sistema? Como funciona essa comunicação?

Sinval Pereira: O lançamento do SINID, em 17 de novembro, teve por intuito nos aproximar da iniciativa privada e dos órgãos de segurança para disponibilizar gratuitamente essas informações para eles.

Isso foi atingido no evento, e agora estamos avançando para, através da ABIRPP, fazermos o convênio que vai disponibilizar oficialmente essas informações para as forças de segurança.

Mundo Agro: O aplicativo pode ajudar a coibir o comércio ilegal de peças usadas?

Sinval Pereira: Essa é uma das principais funções do aplicativo.

Quando você for comprar uma peça, verifica se ela está identificada. Se estiver raspada nos pontos onde há identificação, você sabe que ali existia um sinal que pode ser periciado. Então, não compre. Se a peça tiver o número, você pode consultar. Se for de um veículo baixado ou de uma peça regularizada, você vai constatar que é de boa procedência.

Mundo Agro: Há regiões do Brasil onde o roubo de máquinas agrícolas é mais crítico?

Sinval Pereira: Sim. O estado de São Paulo representa cerca de 70% do roubo do Brasil. Infelizmente, os números comprovam uma realidade que podemos sentir no dia a dia quando conversamos com produtores e trabalhadores.

Mundo Agro: Qual é a expectativa da ABIRPP em relação à adesão dos produtores?

Sinval Pereira: A ABIRPP está de portas abertas, e ela é uma ferramenta de grande valia para os produtores. Nós acreditamos que todos os produtores devem aderir ao sistema.

Mundo Agro: O aplicativo pode se tornar, na prática, um substituto para a falta de um registro nacional oficial?

Sinval Pereira: Na prática, ele é o registro nacional de identificação de bens. Ele não substitui — ele é isso. Porque isso não existia no Brasil.

Mundo Agro: Qual o valor do investimento (em média, por máquina)?

Sinval Pereira: O investimento é irrisório. Gira em torno de 0,5% do valor do implemento, da máquina ou do trator.

E o valor é pago uma única vez.

E, por ser uma iniciativa privada através de uma organização social sem fins lucrativos, não haverá nenhuma cobrança de impostos futuros, como IPVA ou qualquer outro imposto que o governo possa vir a implantar.

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