O legado olímpico do Rio: o que ficou dez anos depois dos Jogos Rio 2016
Estruturas de mobilidade e equipamentos urbanos seguem como parte importante da transformação da cidade.

Em 2016, o Rio de Janeiro recebeu os Jogos Olímpicos com a promessa de que o maior evento esportivo do mundo deixaria uma transformação duradoura na cidade. Dez anos depois, o chamado legado olímpico está espalhado pelo Rio — nos corredores de transporte, na região portuária, em parques e arenas —, mas também revela uma realidade desigual.
Para o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU/RJ), houve avanços importantes, principalmente na mobilidade e na revitalização da região central. Mas parte das estruturas enfrenta problemas de utilização, manutenção e gestão.
O legado, de um modo geral, foi apenas parcialmente cumprido. Em relação aos transportes públicos, houve avanços, apesar das deficiências do sistema BRT, que até hoje passa por aprimoramentos
Mobilidade foi um dos principais legados

Entre as principais transformações estão os corredores do BRT, implantados para conectar diferentes regiões da cidade. Transoeste, Transcarioca e Transolímpica ampliaram a integração entre as zonas Norte e Oeste. Mais tarde, o sistema ganhou ainda o corredor Transbrasil.
A proposta era reduzir o tempo de deslocamento e reorganizar a mobilidade urbana do Rio. O sistema, porém, passou por uma série de problemas ao longo dos anos e ainda hoje é alvo de intervenções e projetos de recuperação.
No Centro e na região portuária, outro projeto marcou o período: o VLT. O sistema ajudou a conectar diferentes pontos da área central e integrar modais de transporte.

A Linha 4 do Metrô, ligando a Zona Sul à Barra da Tijuca, também entrou para a lista das grandes obras associadas ao ciclo olímpico. Apesar de ampliar a capacidade de transporte e reduzir o tempo de deslocamento entre essas regiões, a implantação foi marcada pelo alto custo e por questionamentos sobre planejamento e prioridades. Depois da entrega, a expansão do metrô não teve a continuidade inicialmente esperada.

E o que aconteceu com as arenas?
Se na mobilidade os resultados são mais visíveis, o destino de parte das estruturas esportivas é mais controverso.
A Arena Carioca 3, no Parque Olímpico, foi transformada em escola municipal de tempo integral. Já a Arena do Futuro teve a estrutura desmontada para dar lugar a unidades escolares.



A Piscina do Parque Aquático, palco da despedida do nadador norteamericano Michael Phelps, e que também recebeu o multicampeão paralímpico brasileiro Clodoaldo Silva, o “Tubarão das Piscinas”, foi reinstalada no Parque Oeste Ana Gonzaga, em Inhoaíba, no ano passado, ampliando a oferta de esporte, lazer e inclusão social na Zona Oeste.
Outros equipamentos, porém, enfrentam o desafio de encontrar usos permanentes e garantir uma gestão capaz de manter as estruturas em funcionamento.
É o caso do Centro Olímpico de Tênis e de outras arenas do Parque Olímpico, que ainda levantam discussões sobre utilização, manutenção e aproveitamento desses espaços.
Sydnei Menezes é presidente do CAU/RJ e servidor municipal da Prefeitura do Rio. Especialista em planejamento e uso do solo urbano, acumula experiência em órgãos públicos das áreas de urbanismo, meio ambiente, habitação e desenvolvimento social. Foi presidente-fundador do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio. Para ele, a questão do uso dos parques esportivos revela um dos principais problemas do legado: a falta de continuidade das políticas públicas.
“O que se percebe é que o legado aconteceu de forma parcial e lenta. Já nos aproximamos de praticamente dez anos desde a Olimpíada, e ainda há questões relevantes a serem resolvidas”, afirma.

Parques: entre o legado e o abandono
A mesma situação aparece em alguns dos espaços públicos criados ou revitalizados para o período olímpico.

O Parque dos Atletas, em frente do Riocentro, já recebeu grandes eventos internacionais, mas hoje apresenta sinais de falta de manutenção e segurança. O espaço se tornou um exemplo de como equipamentos criados para um evento de escala mundial podem perder protagonismo depois que as competições terminam.
Outros projetos tiveram destinos diferentes.
O Parque Rita Lee (Parque Olímpico) e o Parque Radical de Deodoro continuam oferecendo áreas para lazer, esporte e convivência. Mas, assim como outros equipamentos públicos, dependem de manutenção permanente para manter a estrutura funcionando e atrativa para a população.
A questão, portanto, não é apenas construir. É garantir que o investimento público continue produzindo benefícios muitos anos depois da inauguração.

Porto Maravilha é um dos casos mais visíveis
Na região central, entretanto, o legado olímpico também produziu uma das transformações urbanas mais marcantes do período.
A revitalização da Praça Mauá e a implantação de equipamentos culturais, como o Museu do Amanhã e o Museu de Arte do Rio (MAR), ajudaram a transformar a região portuária em um novo polo turístico e cultural.
O processo, segundo o presidente do CAU/RJ, ocorreu mais lentamente do que o previsto, mas produziu resultados concretos.
Demorou mais que o esperado, mas os museus representam um legado cumprido, uma vez que contribuíram para a revitalização da região portuária.
Impacto na economia
Do investimento feito pela Prefeitura para organizar os Jogos, 70% foram oriundos de recursos privados e 63% do total destinado aos Jogos pelo poder público foi aplicado em projetos de legado. O uso racional do dinheiro público trouxe um impacto direto na economia e na infraestrutura da cidade.
Em 2024, um Estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) revelou que os Jogos Olímpicos e Paralímpicos 2016 geraram um impacto na cidade de R$ 99 bilhões sobre o Valor Bruto da Produção (VBP). Foram R$ 51,2 bilhões sobre o PIB, R$ 5,3 bilhões em arrecadação de impostos e R$ 36,2 bilhões de impacto sobre a renda das famílias.
Foram criados mais de 465,4 mil empregos na cidade e outros 167,8 mil no restante do Estado. Um total de R$ 36,16 bilhões em renda foi gerado somente para as famílias cariocas, e R$ 13 bilhões para as demais famílias do Estado.
De acordo com a Prefeitura do Rio, além da economicidade de recursos, a revolução estrutural promovida pelos Jogos causou um impacto positivo no dia a dia dos cariocas: revitalização da Zona Portuária, corredores de BRTs, VLT, Terminal Gentileza, Centro de Operações e Resiliência (COR), Ginásios Educacionais Olímpicos (GEOs), Duplicação do Elevado do Joá, ampliação da rede hoteleira, Parque Olímpico da Barra e Complexo Esportivo de Deodoro são alguns dos exemplos de legados diretos promovidos pelo evento.

Dez anos depois, a pergunta é: qual legado ficou?
O Rio de Janeiro não ficou igual depois dos Jogos de 2016. Os corredores de BRT, o VLT, a Linha 4 do metrô, a transformação da região portuária e novos parques e equipamentos fazem parte da paisagem da cidade.
Mas a experiência também deixa uma lição sobre grandes projetos urbanos: o legado não termina quando a obra é inaugurada.
A estrutura precisa continuar sendo utilizada, mantida e integrada às necessidades da população. Caso contrário, aquilo que nasceu como símbolo de transformação pode se transformar em um equipamento subutilizado ou abandonado.
Dez anos depois da Olimpíada, o legado do Rio, portanto, é uma mistura de avanços, contradições e oportunidades. A cidade ganhou infraestrutura e novos espaços, mas ainda precisa decidir o que fazer com parte dessa herança — e, principalmente, como garantir que ela continue servindo ao carioca nas próximas décadas.
Prefeitura do Rio cria site interativo com mapa do legado dos Jogos Olímpicos na cidade

Acesse: https://prefeitura-rio.github.io/LegadoOlimpico2/
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