A Kombi que cruzava a cidade

O veículo deu mais autonomia ao proprietário, mas o dinheiro que entrava ajudava somente a pagar algumas despesas

  • Nosso Mundo | Eugenio Goussinsky, do R7

Matheus Vigliar/Arte/R7

O dia ainda nem nasceu lá pelos lados da Vila Albertina. Pela fresta da janela de madeira, o homem vê a cor opaca da madrugada ir ganhando força. No ar abafado do quarto, calça o chinelo remendado, e, sobre o chão de tacos antigos, caminha a passos leves para não acordar a mulher e as crianças.

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Lava-se e sai. O único contato que tem com o café é o cheirinho que vem da barraca vizinha. Caminha pela trilha do matagal e, logo em frente, entre a árvore seca e o início do asfalto, vê sua Kombi embebida do sereno da periferia.

Ela teima em ligar, cuspindo a fumaça e enchendo o ar da manhã de cheiro de gasolina. O ruído do motor se mistura aos dos primeiros ônibus deixando seus pontos. Ela pega meio na marra.

Em solavancos, se deixa conduzir por aquelas ruazinhas cercadas de bares, terrenos baldios e casas baixas. Somente ao longe, como um horizonte urbano, o motorista vê os sinais dos arranha-céus da metrópole que o aguarda.

Custou muito para ele conseguir montar aquela pastelaria ambulante no carro. O cunhado arranjou um dinheiro para ele começar. E colocou um balcãozinho, os cilindros para a massa e a frigideira funda.

Quando criança, o pai tinha barraca de pastel na feira. Muitas vezes só tinham a sobra do que não foi vendido para matar a fome. Era almoço e janta, também sem café.

Até hoje é um pouco assim. A Kombi deu mais autonomia, mas o dinheiro que entra ajuda só a pagar algumas despesas. Comida é produto sagrado, resultado do suor de cada dia.

Na maioria, ele trabalha para ele e a família comerem. O que vier a mais, literalmente, é lucro.

Para no primeiro bairro de classe média alta. Cheio de prédios novos, mas que mantém contato com clima do campo, com ruas cheias de árvores, pracinhas com raízes saltando pela terra e pouco movimento de carros.

Apostou que, no local tranquilo, pudesse chamar a atenção. E conteve a ansiedade, depois do anúncio pelo alto-falante, "pastéis fresquinhos, uma delícia...", até que alguém descesse para experimentar.

Teve de furar o isolamento. Era totalmente contra. Sabia que se arriscava muito. Sempre que podia, tentava ficar em casa. Mas não dava. Os recursos haviam acabado.

Quando dirigia, acelerava com medo. Não tinha outro jeito. Pelo menos enquanto não arranjasse dinheiro. Estacionou em uma esquina calma, ao lado de um canteiro íngreme.

Cortou a massa já aberta, com uma faca, moldando-a do tamanho de um pastel de feira. Sentia o prazer de um artista manuseando a massa da escultura.

Recheava com misturas que preparava no fim da noite: queijo, tomate e queijo, carne moída, calabresa, banana e outros. No fim, fechava as bordas com a ajuda de um garfo.

E esperava.

Naqueles tempos de pandemia, em cada ponto, chegavam só quatro ou cinco clientes por dia: funcionárias domésticas, aposentados ou jovens que passeavam com o cão. 

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E bem naquele anoitecer, um rapaz que corria chegou a parar inebriado com o aroma de óleo que se misturava com o perfume das árvores.

Avistou a Kombi, viu uma leve movimentação e admirou a labuta do proprietário, imaginando-o um desbravador da cidade, um lutador em busca de seu alimento.
Prometeu a si mesmo que, no dia seguinte, iria lá encomendar três dúzias de pastéis.

E foi.

Mas a Kombi não estava lá. Nem no outro dia, nem no outro.

O rapaz se arrependeu de não ter ido naquele momento. E de não ter marcado o número do telefone, estampado na lataria.

A esquina ficou marcada para o rapaz. Sempre que a via vazia, se lembrava do cheirinho daquela noite. E da Kombi estacionada. E da luta pela vida, como a de tantos outros naquela situação.

Pensou que ele desistiu daquele local atraente, mas pacato demais. E torceu para que o moço tivesse ido oferecer, em outra freguesia, o seu serviço essencial.

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