A verdadeira vocação de Guardiola

A maioria dos técnicos é responsável por cerca de 20% do rendimento de uma equipe; há alguns que dão vida ao time

  • Nosso Mundo | Eugenio Goussinsky, do R7

Guardiola ajudou City a virar primeiro jogo contra o PSG

Guardiola ajudou City a virar primeiro jogo contra o PSG

Yoan Valat/EFE/28-04-21

A linguagem do futebol se compõe de termos como linhas de quatro, esquemas defensivos ou ofensivos, 4-4-2, 4-3-3, 3-5-2, 4-3-1-2, jogo de posição, amplitude, transição, avanço dos laterais.

Técnicos costumam ficar possessos quando veem um jogador à frente da linha da bola. Muito se fala, em um Brasil pouco adepto à leitura, na importância de se ler o jogo.

São referências importantes para os treinadores de hoje. Bem como diz Muricy Ramalho, eles são em sua maioria sérios, têm um projeto, mas não podem resolver tudo.

São responsáveis por cerca de 20% do rendimento de uma equipe. O resto, quem faz são os jogadores.

De tempos em tempos, no entanto, os campeões marcam época quando apresentam algo além desses conhecimentos atrelados apenas ao universo futebolístico.

Os times, então, refletem uma força da natureza, alguma verdade intuída, como se eles fossem também a água do mar, o azul infinito do céu, o lento movimento de uma nuvem ou o gotejar de uma folha.

Os jogadores se veem movidos pela sua intuição, claro. Mas sentem que ela não existiria se não tivesse sido impelida por uma inspiração.

Por algo que, não os orientou, ou instruiu, ou lhes obrigou a seguir o 4-3-3, ou o 4-4-2, ou lhes mandou apenas ficar atrás da linha da bola. Não.

Eles foram movidos por algo que os desenhou, funcionando como se pertencessem a uma pintura que ganhou vida.

Josep Guardiola talvez seja o treinador, em toda a história, que mais pintou, esculpiu, desenhou equipes.

Na Europa de hoje, vale interromper para lembrar, há outros discípulos que têm descoberto esses dotes e ajudado o futebol do continente a estar em um patamar superior.

Guardiola ultrapassa de longe a definição de treinador. Definições, afinal, são pequenas, quando, em qualquer profissão, a intuição, o conhecimento, a visão, as cores, as percepções se fundem. E mostram que ser gênio é, acima de tudo, ser simples.

Esses conceitos fazem daquele que os carrega, um intérprete, um descobridor, um artista sem palavras ou regras excessivamente rígidas.

Tal linhagem de treinador significa muito mais do que 20% de uma equipe. Ele pode chegar até a mais de 80% porque a alma dos 11 em campo é movida por seu sopro.

O jogo do Manchester City contra o PSG, na primeira semifinal da Champions, foi mais uma demonstração disso.

Não foi nem uma das maiores atuações da equipe. E não garante a classificação. Há outro jogo.

Mas com o toque, ou pincelada, de Guardiola, o quadro ganhou novas cores. A camisa celeste do City ficou multicolorida.

Ele apenas disse para Foden cair mais pelo meio, De Bruyne buscar os lados ou Mahrez explorar o lado direito na etapa final, quando sua equipe virou o jogo?

Não. Ele passou alguma mensagem tão fácil de entender, mas também tão indecifrável, que deve ter vindo de alguma paisagem que o marcou, da imagem de uma criança sorridente no parque, de uma tarde chuvosa na infância, ou de alguma cena que ele precisava retratar em campo.

Como já fez em outras ocasiões, quando, por exemplo, na goleada do Barcelona sobre o Real Madrid, por 6 a 2, em 2009, seus jogadores se movimentavam com uma facilidade que parecia sobrenatural e não permitiam que as feras do Real Madrid, sim, feras da estirpe de Robben, Raul  e Sergio Ramos, conseguissem sequer tocar na bola.

O gol e a vitória sempre são objetivos destes trabalhos. Muitas vezes ocorrem quando a mistura de tonalidades se encaixou. Mas mesmo com as derrotas, as nuances não se perdem, podem ser redesenhadas no jogo seguinte.

Há hoje em dia aplicativos que dão vida a desenhos feitos por crianças. Guardiola nasceu com essa vocação e deu vida à sua imaginação quando se tornou técnico.

Ele decifra um segredo tático da mesma maneira que um grande pintor, em noite de insônia, idealiza a misturas de cores.

Van Gogh, um dos maiores gênios da humanidade, era assim. Pensava em como introduzir o amarelo, na quantidade suficiente para que, misturado ao vermelho, traduzisse com perfeição o pôr-do-sol nos campos holandeses.

Assim, somente assim, Guardiola moldou Messi, o utilizando como um falso nove e o estruturando para ser o jogador que é, após desabrochar, tal qual um girassol de Van Gogh, de seus pincéis, dos cavaletes de seu ateliê.

Obras deste tipo também são resultantes de referências anteriores, como a Holanda de 1974 e o Brasil de 1982, idealizados por treinadores com dom semelhante ao de Guardiola: Rinus Michels e Telê Santana.

Na Copa do Mundo de 1974, o auxiliar Paulo Amaral foi enviado por Zagallo para observar a Holanda nas quartas de final com o Uruguai.

A iniciativa de Zagallo contraria a lenda de que ele não se interessou e nem deu bola para as inovações do adversário.

Amaral disse que, no início do jogo, pegou um papel para anotar as posições. Então, se surpreendeu ao ver "o lateral-direito na ponta-esquerda, o lateral-esquerdo no meio-campo, o Cruyff na defesa, de repente no ataque e em seguida no meio".

"Em poucos minutos, estava cansado de anotar. E daí pensei. Sabe de uma coisa? Vou apenas ver o que acontece. E larguei papel e lápis de lado", contou na época.

A arte é mesmo um mistério para o lado racional.

Isso vai além das táticas ou do controle do vestiário. Aliás, esses fatores importantes acabam sendo incorporados em cada elaboração, ou imersão, que seu autor faz antes de um jogo.

Guardiola cria imagens no campo, traça formas, curvas e liga pontos a partir de seu universo interior. Tem algo de romântico, renascentista, moderno, pós-moderno, contemporâneo. 

E, no fim, sua obra tem um quê da cena de Michelângelo, outro gênio incomparável, bradando para sua recém-terminada escultura de Moisés, com um misto de frustração e empolgação: "Parla!!!"

Moisés não parlou (falou, em italiano). Mas respondeu com seu olhar eterno. Os times de Guardiola respondem com futebol-arte.

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