Amós Oz contava histórias baseado em sua própria vida
O tom melancólico pedia para o próprio leitor temperá-lo com a esperança que se esgotara no autor, desde a infância na guerra em Jerusalém
Nosso Mundo|Eugenio Goussinsky, do R7

Como poucos escritores, os personagens de Amós Oz acabavam desnudando a própria personalidade do autor, por mais que ele não gostasse de falar sobre isso. Seu romantismo era cético. Mas era muito claro o quanto sua existência influenciou sua obra.
O sol de Jerusalém tem um brilho especial
Tal característica o fazia se aproximar do leitor, que se identificava e se sensibilizava com as histórias tão bem descritas, que sempre acabavam em um tom melancólico, como se pedissem para o próprio leitor temperá-las com a esperança que se esgotara no autor, desde a infância na guerra em Jerusalém.
Cidade sitiada, racionamento, judeus da Europa traumatizados, a vizinha que perdeu um filho, a tentativa dele de despertar a atenção do pai e da mãe em meio aos dilemas de ambos.
O pai queria ser reconhecido e conseguir uma cátedra na Universidade, em Humanas, por causa de suas "setenta e sete sabedorias".
A mãe buscava um fio de esperança em Israel, após uma infância sofrida na Lituânia, país onde ela ainda mantinha certas raízes e a própria identidade, sentido o peso da imigração.
Acabou se suicidando, na casa da irmã, em Tel Aviv, o que marcou profundamente a vida do menino e fez desabrochar ainda mais o seu desejo de expressar as dúvidas sobre o sentido da vida.
Amós aspirou o ceticismo desde a infância. Compreendia-se como criança incompreendida. Menino solitário, aprendeu a observar, como fazia quando, no restaurante com os pais, eles lhe pediam para ficar em silêncio, sem bagunça.
Leia também
Em troca, ganharia um sorvete. E usou a experiência para, no futuro, abraçar a literatura, com as descrições precisas que sua sensibilidade ajudou a desenvolver em silêncio.
Apesar da amargura diante dos conceitos da vida, Oz não escondia o seu desejo de viver e de acreditar no amor. Suas histórias o apresentavam desta maneira. Em De Amor e Trevas, o ápice de sua obra, ele se revela quase que por completo.
Ao contar sua biografia, descreveu o drama de sua infância, da guerra que arranhava sua ingenuidade e esculpiu sua personalidade um tanto seca.
Não se dizia um pacifista, mas sim uma pessoa em busca da solução para a guerra. Desconfiava, para tanto, do amadurecimento humano.
Até quando foi para o kibutz, após a morte da mãe, e lá se estabeleceu ainda com 15 anos, trocando o sobrenome Klausner por Oz (coragem), detectou as fragilidades do fanatismo de cada um, incrustradas nos personagens encurralados por suas convicções. Resume isso em Entre Amigos.
Em Meu Michel, conta uma história baseada na vivência da relação entre seu pai e sua mãe. Em O Mesmo Mar, cria um enredo triste, no qual o personagem com doença terminal foi baseado em sua professora, pela qual era apaixonado quando criança.
Em Judas, descreve a dor da guerra, que fulminou convicções nacionalistas daqueles que perderam entes queridos de forma brutal.
Revela o mistério, a dor e a sensualidade da alma feminina, na mulher mais velha que seduz o protagonista jovem, idealista que não consegue se livrar da solidão.
Eu sempre quis entrevistá-lo. Um dia em Israel, passei por Arad, no Neguev, onde ele morava, mas não pude me desviar para perto de sua casa, nem para vê-la de longe.
No dia de sua morte, coincidentemente, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, chegava ao Brasil, na primeira visita de um premiê israelense ao país. E o entrevistei. Foi mais fácil falar de política, concretamente.
Amós Oz era mais subjetivo e misterioso. Jamais entrou para a política. Ele sorriria para mim, se irritaria com minha ingenuidade, não aceitaria elogios e, mesmo assim, me apresentaria algumas verdades. Sem precisar me dar nenhuma resposta.

