Conheça os segredos da genialidade de Lionel Messi
Potencial humano do jogador argentino foi aperfeiçoado de uma forma que alcança praticamente toda a sua capacidade criativa
Nosso Mundo|Eugenio Goussinsky, do R7

Parece que há algo, como um equipamento propulsor, invisível ou embaixo do campo, que regula a movimentação de Lionel Messi pelo gramado. Leva-o para um lado, para o outro, o impele a correr ou a diminuir o ritmo de acordo com a necessidade. Mas, neste caso, não há.
É uma capacidade que está dentro dele, que o tem levado a fluir no campo como se flutuasse. A intuir a jogada como um artista. A se colocar na posição certa como um profeta.
Messi não tem algo de sobrenatural dentro dele. Tem algo de humano, demasiadamente humano, como diria o filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900).
A diferença é que este humano, nele, se apresenta, e foi aperfeiçoado, de uma forma que alcança praticamente todo o seu potencial criativo.
E tem feito ele conquistar façanhas históricas no futebol e estar, para muitos, entre os três melhores de todos os tempos. Ainda mais com seu físico e o seu biotipo de apenas 1m69 de altura. Que, diante desse fenômeno, já é mais do que suficiente.
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Nem mesmo o seu biógrafo, o italiano Luca Caioli, que mergulhou em uma série de pesquisas sobre a trajetória do jogador, consegue explicar plenamente o que faz de Messi um gênio do futebol. Ele apenas diz que Messi é um gênio.
E repete, em italiano, querendo encerrar qualquer debate a respeito: Basta! Acabo nem conseguindo conversar com ele, sobre a possibilidade de um jogador de futebol, que utiliza muito mais o físico e a intuição do que o intelecto, ser considerado gênio. Fico com a dúvida que me leva a indagar a respeito para outros especialistas.
O jogador e seu mundo
Esse conceito de gênio, para ser compreendido, precisa deixar de ficar preso às quatro linhas, onde o argentino Messi apenas desempenha o que desenvolveu fora dela, em seu mundo. Lendo a respeito, entendi que genialidade no futebol é aquilo que transforma este jogo em arte.
É aquilo que pode fazer de um jogador um gênio da mesma dimensão que um escritor ou um pintor. Somente se adentrarmos em outros campos, da biologia, neurociência, genética, sociologia, evolucionismo e filosofia, os segredos de Messi podem ser melhor compreendidos. Mas nunca por inteiro.
Em primeiro lugar, fiquei com a forte impressão de que o fato de Messi ter tomado hormônios para o crescimento não foi a causa de seu desempenho acima da média. É quase unânime essa tese entre os especialistas. Quem a explica é o endocrinologista do Hospital Albert Einstein, Paulo Rosenbaum, doutor em Endocrinologia pela Unifesp (Escola Paulista de Medicina).
— A aplicação de hormônios no tratamento não favoreceu para ele se sobressair. Mas pode ter ajudado a equipará-lo, talvez se ele tivesse uma estatura menor a desvantagem competitiva dele seria maior. O tratamento ajudou ele a chegar a esse nível. Se ele tivesse 1m60 talvez não fizesse o que faz hoje, com o hormônio talvez ele tenha conseguido adquirir uma dimensão a mais, mas não foi isso que favoreceu sua força.
Messi e a natureza
A afirmação de Rosenbaum se encaixa a um estudo que o historiador português, Ricardo Serrado, transformou em livro, em 2015, intitulado "Messi, o futebolista que joga no futuro - como a natureza humana pode explicar o futebol."
Serrado, doutor em História Contemporânea pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, abre a mente para encaixar Messi e sua natureza dentro das possibilidades do ser humano. Baseia-se em uma conciliação de conceitos, em que coloca o sentimento como um propulsor da vida e o mescla às forças físicas, químicas e biológicas do universo. Sua referência são as ideias do filósofo Baruch Espinosa (1632-1677) e do neurocientista português Antônio Damásio (1944).
Em um texto sobre o seu livro, para o jornal Público, Serrado faz questão de ressaltar como o futebol de Messi, especificamente, pode ser considerado arte, à medida que toca no sentimento humano de quem o aprecia. Mesmo, admitindo ele, que o futebol não é necessariamente uma arte.
Serrado utiliza ideias que rejeitam a tese de correntes sociológicas (empirismo) e psicológicas (behaviorismo) que acreditam que o ser humano começa do zero e aprende tudo a partir do momento que nasce.
— A ciência certifica que existem estruturas biológicas inatas poderosíssimas que influenciam a nossa personalidade e, consequentemente, o nosso comportamento ao longo da vida, sem com isto invalidar que o meio exerça uma profunda influência na modulação da nossa pessoalidade.
Com cerca de 9 anos, Messi teve constatada uma deficiência hormonal. Seu pai, Jorge, se preocupou, pois via no filho a possibilidade de se tornar jogador. Nesta idade, ele tinha 1m25 de altura.
E o menino ficou alguns anos tendo de injetar hormônio de crescimento, em tratamento conduzido pelo endocrinologista Diego Schwarzstein, de Rosário, cidade em que Messi nasceu em 24 de junho de 1987. Muitas vezes o próprio Messi fazia as aplicações. Newells'Old Boys e River Plate afirmaram não ter verbas para arcar com a continuidade do processo. O Barcelona se dispôs a arcar e ele mudou para a Espanha aos 13 anos.
Messi e suas qualidades
É neste ponto que tanto Rosenbaum quanto Serrado consideram emblemática a evolução do jogador. A deficiência hormonal foi provavelmente um fator que possibilitou o desenvolvimento de outras habilidades. Tão incríveis, por exemplo, quanto a capacidade de um cego perceber a presença e a exata distância de outra pessoa. Rosenbaum afirma:
— Assisti a um vídeo de quando o Messi era criancinha, e ele já corria daquele jeito, com as perninhas rápidas e ninguém pegava. Ele aprendeu a desenvolver essa habilidade, possivelmente por ser mais baixo e, quando se tornou adulto, isso o favoreceu, é uma habilidade que só ele tem.
Serrado, em seu trabalho, revela como isso deve ter ocorrido. O processo não é só biológico, envolve também fatores externos que levaram Messi a aprender a superar sua desvantagem física em relação aos outros meninos.
— No que concerne a Messi, por um lado, a insuficiência de somatropina, o hormônio de crescimento, prejudicou o desenvolvimento corporal, mas por outro, poderá tê-lo dotado de um corpo capaz de realizar algumas ações com maior vantagem, como a capacidade de arranque e a capacidade de mudar de direção (possível devido à constituição do seu corpo), duas das maiores armas de Messi.
E mais, ele decifra a provável explicação do porquê Messi faz do seu jogo uma arte. E se mostra um gênio. Isso ocorre justamente por causa de algo que Messi não controla conscientemente, mantendo, porém, um amplo domínio inconsciente. Acima da média.
Serrado afirma que Messi adquiriu estratégias para se desviar dos adversários, para evitar o contato de corpo. E acabou por se "programar" mentalmente desta maneira, ao mesmo tempo improvisando.
— Um elevado número das ações que Messi desenvolveu ao longo da sua vida, no capítulo do drible e da finta, e noutros, embora sejam processos corporais na sua totalidade, ficaram mapeados neuronalmente. Desta forma, essas ações ficaram disponibilizadas de uma maneira mais automática, pois o cérebro disponibiliza-as automaticamente sempre que for necessário.
Messi e a bola
Por fim, Serrado considera que Messi expôs logo cedo a sua intimidade com a bola, a sua sensibilidade inata, utilizando-a como o instrumento de apoio para o desempenho de suas habilidades.
— Por um lado, a relação que ele tem com a bola, sendo capaz de manipulá-la com o corpo a seu bel-prazer e, por outro, a relação que tem com o jogo, sendo capaz de perceber e de antecipar os movimentos dos colegas e dos adversários com grande apuro, aliado às características referidas acima, fazem de Messi um futebolista singular, impossível de prever.
Tão impossível que nem mesmo Luca Caioli, que fez uma das mais conhecidas biografias do jogador, sabe decifrar ao certo os enigmas de Messi. Para ele, não há segredo. Ao R7, Caioli diz que Messi é assim desde criança, quando saía driblando os coleguinhas, desde a defesa, até chegar ao gol adversário. E, com treinamento e boa alimentação, adaptou isso ao futebol profissional, com base no que desenvolveu no Barcelona. Hoje, aos 30 anos, a maturidade também o ajuda, segundo o biógrafo.
— Garrincha tinha perna torta e fazia o que fazia. Não podemos insistir nesta burrice de hormônio de crescimento. Messi é um fenômeno, como houve outros na história do futebol e ele melhorou com boa comida, boa dieta, carne branca que ajudou seguramente. Não toma refrigerantes em excesso e foi ajudado pelo treinamento correto. Mas é um genio do futebol, ponto final.
Mas, para Messi continuar a ser Messi, uma definição mais ampla, em vez de um ponto final, colocaria um ponto de interrogação nessa genialidade. Só para impulsioná-la. E os adversários ficarem ainda mais sem saber o que fazer diante dele. Cheios de reticências.
O Arsenal-ING é a maior vítima do atacante Lionel Messi na Liga dos Campeões. Em 6 jogos, foram 9 gols
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