Corinthians "trava" no momento de sair jogando

Os volantes têm exagerado nos passes laterais e não têm conseguido dar ritmo à equipe, voltados apenas à marcação

Ralf é um dos que sentem dificuldades na saída de bola

Ralf é um dos que sentem dificuldades na saída de bola

Luis Moura/Agência Estado/26-10-19

O primeiro passo para a montagem de muitas equipes modernas da Europa tem sido justamente o primeiro passe. Ou os primeiros. A saída de bola da defesa para o ataque tem funcionado como o metrônomo na música. Se a saída for bem feita, simplifica e muito o trabalho de outros setores. 

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Essa característica, no entanto, é uma das que mais estão fazendo falta ao Corinthians neste momento. Isso ficou nítido na derrota para o CSA. Em vez de funcionar como um ventilador a potencializar a velocidade do jogo, com trocas rápidas e eficientes, este setor, formado pelos dois zagueiros e pelos volantes, tem funcionado na verdade como um funil.

As jogadas pouco passam por lá e, quando isso acontece, jogadores como Ralf e Júnior Urso mostram muita deficiência no passe. Os zagueiros, por outro lado, também são mais rebatedores do que técnicos, dificultando o início das jogadas.

Sornoza, muitas vezes atuando como meia, é mais um que tem exagerado nos passes laterais e quebrado o ritmo da equipe.

O maior problema do técnico Carille, ao meu ver, não é a falta de atacantes ou de jogadores de criação. É justamente a ausência de jogadores que saibam sair jogando, sem tantos passes laterais.

Disse há alguns dias que a equipe precisa jogar mais em função do atacante Boselli. Mas, para que isso aconteça, é necessário que a jogada comece lá de trás, sem os "chuveirinhos" ou a chamada ligação direta.

A mudança nem precisaria ser tão radical, com demissão ou trocas de nomes e novas contratações bombásticas. É uma questão de mudança de mentalidade. Ralf e outros jogadores teriam todas as condições de se aprimorar neste quesito, com treinos específicos. Mas até agora, aparentemente, isso não aconteceu.

O volante do Flamengo, Willian Arão, que inclusive começou no Corinthians, aprendeu com o tempo a ter mais recursos para sair jogando. Isso foi fundamental para dar fluência ao esquema tático do Flamengo. Rodrigo Caio e Pablo Marí também sabem exercer tal função.

Gerson, que passou a funcionar como o antigo centro-médio, também se mostrou um excelente jogador no setor. Desta maneira, a bola já chega fácil para os meias e os atacantes, mais livres de uma marcação ferrenha.

O futebol brasileiro, de uma maneira geral, caiu na própria armadilha que criou. Ensinou os europeus a jogarem de maneira fluente, com meio-campistas criativos, inclusive os volantes, para depois retroceder, apenas com o objetivo submisso de imitar o que a Europa fazia.

Mas, à esta altura, os europeus, que não são bobos, já haviam implementado a prática brasileira e hoje praticamente jogam sem volantes voltados apenas para a marcação.

Somente agora o Brasil parece estar acordando para isso, impulsionado por técnicos estrangeiros, que resolveram apontar para essa inversão. Mas o Corinthians ainda busca encontrar esse caminho.

Por enquanto é o clube que mais se apegou à exagerada necessidade de marcação e deixou de lado outros itens importantes. É o clube que mais tem jogado da forma que, ultimamente, tem caracterizado o futebol brasileiro.

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