Nosso Mundo Crônica: Eu e meu cão sozinhos no feriado

Crônica: Eu e meu cão sozinhos no feriado

A responsabilidade de ser o único a tomar conta do cão mostra como nós também podemos ser cuidados por eles, quando a família viaja

cão, companheiro

Ele me ensina a apreciar o que não percebo no dia a dia

Ele me ensina a apreciar o que não percebo no dia a dia

Eugenio Goussinsky

No apartamento em silêncio, ele aparece vindo da cozinha, com seus volumosos olhos castanhos. Levanta a cabeça, depois a abaixa, esticando as patas e abaixando o torso. Pede carinho. Acabou de acordar e veio me ver, após ouvir a porta do corredor se abrir.

Não tem nem um ano que está conosco. E seu corpão pesadão (pesadão, pesadão, ô, ô, ô...) de golden, com pelos dourados e porte elegante já tomou conta da sala. É ele que me preenche o vazio neste fim de semana sem filhos e esposa, viajando para Maresias.

Salta sobre mim e quase me derruba, apenas querendo demonstrar sua alegria de me ver. Tenho de ir trabalhar à tarde. Poderia estar vendo TV, descansando, como fazia em meus tempos de solteiro, quando morava sozinho em uma vida de pós-adolescente.

Mas não. A "fuga" de meus familiares me fez arcar também com a responsablidade que dividia com eles. Não posso sentar tranquilo, sequer acordar tarde. Logo de manhãzinha, já me levanto, para lhe dar comida. E tome lambida e tome correria ao redor da mesa, para pegá-lo de brincadeira, enquanto leva uma bolinha na boca, com olhar serelepe de bebê.

A louça a ser lavada aguarda na pia. A geladeira e os mesmos alimentos permanecerão por lá. A sensação de imobilidade com a casa vazia é compartilhada por meu companheiro. Estamos no mesmo barco. Não existe uma música brasileira, chamada "Barco da Saudade?"

Procuro buscar algumas músicas no notebook e ele se deita aos meus pés, embaixo da mesa da sala. Não resisto e o chamo, ele se levanta e, com as orelhas para baixo, em gesto de carinho, sente as carícias na cabeça, seguidas por um beijo na testa.

E devolve com uma costumeira lambida no meu rosto. Antes, é claro, de desabar no chão e esperar deitado a continuidade das carícias. É mesmo um bonachão...Mesmo caladão, não se inibe em desferir sonoros latidos me chamando para brincar. Quando deita na sacada, estica a cabeça na sala, e fica atento, olhar se desviando com qualquer barulho e as orelhas em pé.

Só o convenço a largar a barra da minha calça quando, arrastando meus pés, chego à cozinha e consigo abrir o pacote de ração. Com o barulho, ele para e já me olha hipnotizado.

Então lhe dou um copo e meio de ração, que ele devora em 15 segundos. E lhe aviso que vamos sair. Pego a coleira. E logo me vejo brigando com ele para que largue a correia. Chegamos ao elevador e ele continua mordendo. Chegamos a um entendimento apenas quando entramos. O foco dele passa a ser outro. Já intui a chegada ao térreo. Prepara-se para sair e vamos pelo jardim. Ele e seu andar pacato, semelhante ao de um leão.

Ainda dentro do prédio, aprecio a beleza do céu, com a escuridão da noite atenuada pelo brilho róseo da cidade. Ela se apresenta por trás do muro da entrada, por entre palmeiras e pinheiros, como se estivéssemos no campo.

O portão eletrônico estala. Abro e pisamos na calçada. E vamos andando em sintonia, seguindo o perfume noturno. Ele me ensina a apreciar o que não percebo no dia a dia. Os canteiros que ele cheira, o piso do passeio, a água que corre como um riacho pela sarjeta.

Ele me faz ver as pracinhas como bosques. Revela-me um encanto nos gravetos, no cheiro da terra, na curiosidade pelas formigas, nas garrafas. Realça minha atenção para as plantas cultivadas. Para os arbustos laterais. Para as cercas vivas, para o balanço seco dos bambus. Na natureza e na sujeira, que em nossa rotina nos acostumamos a lidar com indiferença. Quando não com estresse.

Envolvo-me na combinação das luzes do farol com os cantos escuros dos muros, em um contraste que desenha formas angelicais. E compreendo como uma dança o som de buzinas duelando com o cricrilar dos grilos. Sua silhueta se mistura com a luz dos refletores, vindas dos prédios, banhando sua pelagem e refetindo o dourado em seu entorno.

Enquanto anda, ele apresenta o seu mundo. E eu incluo esse mundo ao meu, cheio de reflexões, preocupações, lembranças e esperança. Sinto que ele me entende, quando olha de repente para cima, enquanto anda.

Paro um instante e, depois que percebe, ele para também. Meio sem paciência, ouve o meu "boa Doggy", com ar orgulhoso. E indica seu desejo de prosseguir, já com a língua de fora.

No dia seguinte, todo mundo volta. E ele se mistura à algazarra da casa. Eu, retorno a minhas tarefas específicas, sem precisar ser o único a tomar conta dele. Mas nossa cumplicidade está selada, enquanto ele vai para lá e para cá com a bolinha na boca.

Em sua espontaneidade, segue em frente, em busca de quem também lhe dê carinho. Ou à espera de algo para comer, com aquela cara de pidão. Seus gestos são naturais, sinceros. Agradece-me à sua maneira. Mas eu o amo mesmo porque ele não cobra o meu agradecimento.

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