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Crônica: Saiba a relação entre o gol de Cristiano Ronaldo e a Mona Lisa

Perdido no Museu do Louvre, homem procurava explicações sobre sua vida diante do quadro que retrata a misteriosa mulher

Nosso Mundo|Eugenio Goussinsky, do R7

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Bicicleta de Cristiano Ronaldo e a Mona Lisa têm algo em comum
Bicicleta de Cristiano Ronaldo e a Mona Lisa têm algo em comum

Então me vi só, no meio das galerias do Louvre. Comecei a correr por entre as pessoas, ao mesmo tempo em que observava as obras da seção de pintura, penduradas lá há anos.

Nas paredes beges, elas se destacavam ora com cores fortes, ora com escuras e lúgubres, um homem sério, em pose, pensando na vida, uma paisagem leve trazendo um retrato sensível do passado.


Mas minhas passadas falavam mais alto, enquanto corria e observava as pinturas, que também pareciam me olhar de soslaio. Eu precisava encontrar meus familiares no meio daquela multidão.

Estava no terceiro andar, combinei com eles de encontrá-los em cinco minutos na Mona Lisa e já haviam se passado 15. Se não estivessem por lá, estaria com problemas.


O Senhor Bertin, protagonista de quadro de Dominique Ingres, me olhava, com seu olhar cansado, um tanto conformado por seus cabelos brancos e despenteados, vestindo uma roupa elegante e aconchegante, em seu corpo um tanto curvado: Cadê seu celular?

Não tinha. Estava sem comunicação. Desci pelo elevador lateral, até a entrada, embaixo da pirâmide, pegando a pequena escada rolante do saguão.


Aliás, me tornei um expert nas escadas laterais e nos bastidores do museu, conhecendo um pouco os funcionários, o funcionamento e o mecanismo (só para usar um termo da moda) do local.

E por sorte pude retornar (meu ticket estava valendo), sem encontrar ninguém. Arrisquei ir, direto de elevador, para a seção da Mona Lisa, quadro terminado em 1503, sabendo que não estariam lá. E entre cotoveladas com as dezenas de pessoas que tiravam selfie com a obra, consegui tirar o meu.


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De uma maneira diferente. Além da foto pelo celular, fiz um selfie do que se passava comigo naquele momento. Mona Lisa, esposa de Francesco di Giocondo (segundo o próprio museu), me fitava com aquele olhar doce. 

Olhei para ela também. E, conforme o tempo ia passando, tive uma experiência de me aprofundar no interior daquela tela. Entendi o porquê dela tocar tanto as pessoas. Aquele olhar refletia, envolto na bucólica paisagem fiorentina, o universo humano.

Vi aquela figura de cabelos lisos, pintada com tanta sensibilidade, como um símbolo de todos nós. Quem somos, o que sentimos? É a mesma pergunta que fazemos sobre a protagonista, numa resposta ainda incerta: Quem era de verdade aquela moça?

Então o olhar doce dela se transformou por um instante em olhar cínico. E depois voltou a ser doce. Tornando-se novamente cínico. Mona Lisa é um espelho do homem.

Pode ser amorosa, como pode ser maldosa. Tem um ar independente, mas que também aparenta dependência. Tanto pode ser forte quanto frágil.

Ela se mostra calma, podendo também estar fervendo de raiva por dentro. Projetamos nela, e ela em nós, as nossas próprias intrigas. Estampamos em sua face, e ela na nossa, o nosso próprio mistério.

Eu também estava dividido: a angústia de ter perdido de vista meus familiares se misturava ao prazer da liberdade, ainda mais em Paris, dissolvido naquela multidão cosmopolita.

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E, nesta terça-feira, quando vi o gol de Cristiano Ronaldo, dando um salto, vencendo a gravidade, para marcar um gol de bicicleta, me veio a mesma sensação de quando vi a Mona Lisa.

No momento em que a bola tocou na rede, num instante de silêncio, contradições se integraram como fazem quando ocorrem milagres.

O movimento uniu fúria e amor, intuição e treinamento, o milésimo de segundo e o eterno, a lógica e a emoção, o quântico e o cósmico. A loucura do futebol e do mundo atual virou lucidez. Os adversários, então, aplaudiram.

Vi-me diante daquele quadro. Vi-me em Paris, encontrando, logo em seguida, meu filho diante de um vendedor de amendoim na rue de Rivoli. Abracei-o com alívio. Depois vi minha esposa e o meu filho mais velho.

E fomos a um bistrô, colocar a conversa em dia. Só sei que tudo não foi um sonho porque o sorriso da Mona Lisa ainda está lá. Olhando-me em todo o lugar. E ele se renova com uma surpresa a cada dia. Como o gol de Cristiano Ronaldo. Uma pintura.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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