Diego merece ir para a Copa do Mundo por sua atitude no Fla

Além da capacidade técnica, ele mostrou maturidade nos últimos dias, quando quase chegou a ser agredido por torcedores do Flamengo

Diego separou as hostilidades de seu respeito pelo Fla

Diego separou as hostilidades de seu respeito pelo Fla

André Fabiano/Agência Estado

A crítica exagerada de parte da mídia e a intolerância da sociedade, que desvia muita coisa para o futebol, foram derrotadas. Pelo menos neste momento. E o vitorioso é um jovem, de 33 anos, que sempre mostrou uma sabedoria acima da média do futebol. Diego Ribas da Cunha.

Com maestria de um meia, Diego soube domar a fúria de torcedores do Flamengo e, sem se voltar contra eles, reagiu de forma firme e construtiva. Poderia largar tudo, como já fizeram outros menos pacientes, jogando na cara do mundo o fato de ter atuado na Europa, que muitos consideram o Olimpo do futebol.

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Mas não. Ele sabe que não é por aí. É preciso separar o que é bom do que é ruim, nestes momentos em que a irracionalidade é uma tentação para os menos preparados. Diego deixou claro que nem a Europa é um paraíso e nem o futebol brasileiro é um inferno total (pode ser parcial, neste momento).

Sua atitude o credencia a fazer parte do grupo que irá para a Copa do Mundo na Rússia. Caso ele se recupere rápido de sua contusão no joelho, eu o convocaria, por sua capacidade técnica e por sua postura pessoal, que o ajuda inclusive a se colocar melhor, no campo e no dia a dia.

Após ser hostilizado, e quase agredido, no embarque da equipe no aeroporto, na última sexta-feira (27) para Fortaleza, com acusações de falta de esforço e rendimento, o que não é a realidade, ele manteve uma postura profissional e, acima de tudo, afetuosa em relação ao clube que joga e à grande torcida que representa.

Nada de rancor, nada de mercenarismo, tão atribuído aos jogadores brasileiros nos dias de hoje. Ele destacou apenas a necessidade de cumprir um dever profissional, de respeitar a camisa que veste, e até de tentar compreender o que moveu seus agressores, sem deixar que a agressão destruísse o respeito e a consideração que ele tem pela instituição.

Ajudou, é claro, o fato de a torcida no Ceará, onde Diego pode dar sua volta por cima, com atuação finalmente valorizada, estar mais distante das exigências dos flamenguistas no Rio, onde a crítica massificada impede maiores reflexões individuais, inclusive alimentada por parte da imprensa.

No Castelão, ele foi ovacionado após sua atuação contra o Ceará, no domingo (29), caindo nos braços da torcida e se "redimindo" diante de toda a nação rubro-negra, com um gol na vitória por 3 x 0.

À luz da razão que, por incrível que pareça, deve prevalecer no futebol, o Flamengo não é uma vergonha. Tem chegado nas primeiras colocações em todas as competições que disputa e, mesmo perdendo jogos eliminatórios, manteve uma postura séria, buscou o resultado que, mais cedo ou mais tarde, acabará vindo. E se não vier? Continuará em busca, porque esse, mais do que a vitória em si, é o sentido do esporte.

A torcida flamenguista certamente sentiria saudade se, em um rompante de raiva, ele decidisse deixar o clube. Nos últimos tempos, Diego  trouxe um lampejo de criatividade e experiência a uma equipe que se ressentia dessas qualidades no meio-campo. E que, até pouco tempo atrás, costumava permanecer na zona intermediária da tabela do Brasileirão, quando não estava lutando contra o rebaixamento. Muitas das atuações de Diego foram ofuscadas por uma exigência descabida.

Tite percebeu isso. Tanto que já o convocou três vezes para a seleção brasileira em 2017. Um dos argumentos é o de que ele não sente o peso da camisa. E Diego deve ter crescido ainda mais no conceito do treinador, que também busca este tipo de referência dentro de seu grupo. Neste episódio, Diego mostrou como pode ser importante para o elenco do Brasil na Copa do Mundo. Diante da pressão que os jogadores sofrerão, seria positivo ter por perto alguém de bom senso. Em relação a si e aos outros. Mesmo que eles sejam uma multidão.