Ele nunca tinha ficado tão longe da avó. E agora?

O neto teve de se afastar e parar de ir na casa dela, para protegê-la do coronavírus

O menino só quer saber: até quando?

O menino só quer saber: até quando?

Reprodução/Flickr

Tarde de quinta-feira. 19 de março de 2020. Pelas brechas dos prédios, ele vê o céu nublado, esparramado no movimento harmônico ao das árvores. O vento leve faz palmeiras e nuvens dançarem lentamente, acompanhando os barulhos distantes que se insinuam pela janela. Uma dose de medo tira a ilusão de feriado. Seria essa a sensação de fim do mundo?

Leia mais: A pipa que brincava com a cidade

Agora, em uma tarde normal, daquelas barulhentas e saudosamente cansativas, o menino estaria de uniforme, suado porque não quis tomar banho, na casa da vovó. Não é nem fim de ano, mas as lembranças de vozes são tão presentes quanto.

Ele ainda não sabe expressar essa mescla de tristeza e calmaria. Queria apenas se refastelar nos brinquedos guardados naquela caixa no armário.

Espalhá-los pelo tapete, iniciar a guerra entre os soldadinhos, montar a floresta, apitar ou jogar botão antes de ser lembrado, com doçura, que tinha de fazer a lição. Depois, saboreava a compota de figo que ela faz semanalmente.

Hoje, em casa, ele já fez a lição, depois da aula on-line que machuca pela distância dos amigos. Eles estão lá, atrás da tela, mas falta algo. Falta a presença que conforta, que une e desune neste emaranhado frenético que é a convivência humana.

E a realidade, implacável, não diz aos seus pais até quando. Até quando? Essa é a pergunta que ele mais gostaria de ter respondida, em sua ansiedade de garoto. Trancada, a quadra do prédio não pode ser usada.

Até o seu pai parece não saber mais sobre tudo. Quando foi reclamar da solidão, ouviu ele lhe dizer que esta é uma oportunidade de nos sentirmos mais próximos das pessoas, mesmo que por WhatsApp. 

Ouviu ele lhe dizer que essa situação, causada por um microrganismo, um ser ínfimo, está fazendo muitos humanos se unirem em torno de suas fragilidades. E esquecerem desavenças que ficam pequenas quando o limite é a vida. E que eles se fortalecem nesta união.

Não entende muito destas coisas. Talvez demore um pouco. Só entendeu que precisava se separar para proteger a vovó.

Já sente falta daquele perfume de alfazema. Da pele envelhecida mas lisa e suave, como de bebê. Do calor do abraço naquelas tardes comuns. De olhar os prédios pela janela ouvindo aquela voz que tanto o compreende. E que agora, só pode ouvir por telefone.

No dia anterior, ela lhe contou que já passou meses confinada em um apartamento de dois cômodos no gueto, com 6 parentes. E, depois da guerra, ficou 93 dias no navio, sozinha, até chegar ao Brasil. Seu WhatsApp eram suas lembranças.

Agora, diante do corona, ela não tem tanto tempo quanto outrora. Mas aprendeu a ter paciência. E lhe disse apenas "vai dar certo, querido", antes do carinho no rosto e do beijo de despedida.

Apelido de jogador do Corinthians marca o amor pela própria avó