Nosso Mundo Futebol na Hungria volta a ser motivo para intolerância

Futebol na Hungria volta a ser motivo para intolerância

Regimes de direita e de esquerda fomentaram discursos de ódio, em que até o sobrenome alemão Purczeld mudou para Puskas

  • Nosso Mundo | Eugenio Goussinsky, do R7

Escritor judeu  já ouviu insulto racista em jogo

Escritor judeu já ouviu insulto racista em jogo

Darko Bandic/EFE/19-06-21

Numa Europa marcada por convicções nacionalistas, futebol e intolerância se tornaram símbolos de algumas sociedades locais. Hungria e Alemanha, que se enfrentam nesta quarta-feira (23), pela Euro 2020, são dois exemplos que, no pêndulo da história, oscilaram entre um e outro em diferentes momentos.

O futebol na Hungria, sempre foi uma forma da população pobre de Budapeste e outras cidades se sentirem incluídas. Ferenc Puskas era um dos garotos que jogavam na rua, enquanto o país fervilhava em regimes políticos autoritários.

Para se livrar de ameaças, sua família adotou novo sobrenome em 1935, fugindo da origem alemã em um momento no qual o regime nacionalista de extrema-direita do almirante Miklos Horthy exigia fidelidade plena. A família então, mudou o sobrenome Purczeld para Puskas.

Os jogos no país costumavam, e ainda costuma, ser marcados por uma intolerância que fervilhava em uma sociedade atormentada pela perda de territórios e por regimes autoritários, corruptos e manipuladores.

O rolar da bola expressava um sentimento de libertação, que se misturava a gritos antissemitas e homofóbicos, como até hoje ocorre no país, agora sob o regime do presidente Viktor Orban, de extrema-direita.

Ondas imigratórias e guerras fizeram os húngaros perderem mais de dois terços de seu território desde o fim do século 19.

Antes, eles já haviam perdido outra parte por causa da invasão dos turcos-otomanos. Isso explica, e nem de longe justifica, a prevalência de um discurso de ódio que se perpetuou em boa parte da sociedade local.

Com o fim da Primeira Guerra Mundial, o país oscilou entre o comunismo, que durou apenas quatro meses em 1919, no regime de Bela Kun, executado para que a extrema-direita, de Miklos Horthy assumisse, em 1920, para ficar, aliado dos nazistas, até 1944, quando os soviéticos, comunistas, retomaram o controle do país, no fim da Segunda Guerra.

Jogos ocorriam em meio à guerra e a ascensão do famoso time do Kispest Honved, base da seleção húngara, serviu como um cartão postal para o regime comunista. 

Ferenc Puskás, Zoltán Czibor, Sándor Kocsis, Nándor Hidegkuti, József Bozsik e Gyula Grosics, inclusive, eram vistos como símbolos da Hungria e, na Copa de 1954, se depararam com uma Alemanha que queria se desfazer do vínculo com o nazismo.

Em campo, os húngaros eram mais soltos. Eram campeões olímpicos e acumulavam sequências invictas, contra grandes seleções.

Mas, fora dele, o regime húngaro ainda era aprisionante, apesar de o presidente Imre Nagy, entre 1953 e 1955, ter promovido um regime mais aberto, tirando até a exclusividade do Partido Comunista, mas tendo sido destituído em 1956, para aí sim, com uma reação brutal, os soviéticos invadirem a Hungria e, dois anos depois, executarem Nagy, colocando o país sob a linha-dura de Janos Kadar (que havia sido ministro do rebelde Nagy).

Os alemães, ao contrário, eram mais pesados dentro de campo, mas começavam a construir um regime de liberdade, após anos de nazismo e seu regime atroz e intolerante. Prevaleceu, naquela Copa, a liberdade fora de campo, com os alemães se sagrando campeões.

Puskas e seus companheiros eram constantemente perseguidos e punidos pelo regime. Até que, em 1957, alguns foram suspensos, como punição por uma excursão que o Honved fez à América do Sul. A Fifa atendeu ao pedido da Associação Húngara de Futebol.

A criatividade do futebol húngaro, usada pelas autoridades comunistas como símbolo da estratégia perfeita, estava totalmente atrelada a interesses obscuros do regime.

O preconceito de boa parte da sociedade se mantinha silenciado pelo fechamento do governo para o mundo. Muitos judeus, conforme conta o escritor húngaro Péter Gárdos, ao Expresso, sobre o regime de Kadar, sentiam uma animosidade velada.

"O pacto era: se quiserem viver aqui, ficam calados. Se aceitarem a nossa ideologia, não questionamos a vossa origem", disse.

Gárdos também sofreu preconceito em um jogo de futebol, em 1989, na Hungria, quando os policiais não o acudiram após ele ser insultado. Naquele ano, a Hungria já havia saído do regime comunista, que perdurou até 1988.

A sociedade, atormentada, procurava novas diretrizes sob um regime de liberdade, privatizações, problemas econômicos e eleições, de onde emergiram partidos como o MDF (Fórum Democrático Húngaro), o MSzP (Partido Socialista Húngaro) e o Fidesz, do atual premiê Orban.

Em 2008, a intolerância ocultada pelos anos de comunismo começou a aparecer com mais ênfase, quando a Uefa suspendeu o Honved, após insultos racistas de torcedores em um jogo contra o Sturm Graz.

Com a onda de refugiados da Ásia e da África, em 2015, a postura do governo espelhou o discurso de ódio que prevalecia.

O atacante Mbappé, da França, reclamou de insultos racistas em jogo contra a Hungria, no sábado (19), pela Euro. O racismo, aliado à postura do governo de rejeitar a manifestação em defesa dos LGBT no estádio de Munique, mostram que, da esquerda à direita, a história do preconceito na Hungria continua. Adaptada apenas aos novos tempos. 

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