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Interesses mundiais fazem da Guerra da Síria um conflito sem fim

Para se manter vivo, Assad tenta prolongar guerra sem melindrar países e grupos como Turquia, Rússia, Irã, EUA, Israel, Hezbollah, Líbano e França

Nosso Mundo|Eugenio Goussinsky

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Guerra da Síria é um conflito ainda sem resolução
Guerra da Síria é um conflito ainda sem resolução

A obsessão de Bashar al-Assad pelo poder é apenas um detalhe neste emaranhado que se tornou a Guerra Síria. É ele quem senta na cadeira presidencial, é ele que luta pela própria vida, é ele que transmite ordens desumanas para utilização de armas químicas. É ele que mente quando acena pacificamente para Israel, ou diz que a guerra acabou, após a tomada de Aleppo, em dezembro de 2016.

Mas não é ele quem tem a chave para continuar mantendo essa rotina pelo tempo que quiser. Sina de ditador, um ser que aparenta força mas é frágil por depender de forças alheias. Assad, porém, não é tão iludido quanto Saddam Hussein e Muammar al-Kaddafi.


Sabe que a sua vida depende da continuidade da guerra, que dá a impressão de não ter fim, mesmo que para isso o número de mortos suba ainda mais (foram mais de 340 mil desde 2011). Sabe que os Estados Unidos não sairão de seu país.

E, para ter uma vida mais longa, luta para que a guerra seja longa, segundo o professor de Inteligência da Fipe (Fundação Estudos de Pesquisas Aplicadas), Ricardo Gennari.


— Esta guerra vai durar ainda muitos anos. A Rússia e o Irã mantêm o Assad lá, mas os Estados Unidos também têm interesses em sua permanência. Falam o contrário, mas isso faz parte da desinformação na guerra, a contra-propaganda. Se ele cair, os americanos temem perder o controle do que já têm, pois haveria um caldeirão de conflitos de todos os tipos: religioso, político, estratégico, econômico, entre outros.

Gennari compara a situação de Assad à de Hussein e Kaddafi. Mas, dentro de sua megalomania, Assad tem como vantagem sobre os ex-ditadores mortos o conhecimento da história. Sabe que seu destino caminha para ser esse. E luta para adiá-lo.


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Assim Bashar al-Assad adere ao jogo de interesses de todos os componentes deste conflito insano: Turquia, Rússia, Irã, Estados Unidos, Israel, Hezbollah (grupo apoiado pelo Irã), Líbano (cujo governo tem em parte o apoio iraniano) e França, que já controlou Líbano e Síria e tenta manter influência na região. A Arábia Saudita também pode ser incluída nesta lista, por causa da disputa com o Irã pela supremacia na região.


Nos últimos tempos, por exemplo, Assad parou de criticar os americanos, mandou recados pacifistas para Israel (antes de derrubar um caça israelense), e não avançar por um discurso ameaçador. O professor dá uma explicação sobre o que move o ditador:

— Enquanto houver interesse das potências hegemônicas, pode ter certeza de que Assad vai ficar lá, se ele não fosse importante para ninguém já teria sido deposto e morto, como foram Hussein e Kaddafi.

O ditador sírio, a cada dia que se levanta em seu palácio, se olha no espelho e vê o espectro de outros líderes mortos. Sua fúria e seu pânico caminham juntos.

— Assad sabe que assim que deixar de interessar, será morto, e no tabuleiro de xadrez joga as peças que são convenientes para ele, tentando não desagradar Estados Unidos, França, Irã, Turquia e Rússia, por exemplo. Ele vai jogando e cada país vai defendendo seu interesse, a Síria é ponto estratégico para qualquer país na região. A guerra é um jogo de interesses e não um movimento de defesa.

Síria e Turquia

Acuado, Assad consegue apenas direcionar seu ódio contra os grupos internos contrários à sua permanência. O Exército Livre da Síria, que já teve altos e baixos, e o exército curdo na Síria chegaram a receber apoio Estados Unidos. Isso até o Daesh sair de cena, dentro de um grupo jihadista de oposição rebelde, que conta também com o Jabhat Fateh al-Sham (antes chamado de Frente Al-Nusra).

Assad tem sido reticente até em bloquear a ação da Turquia, que, no mês passado, enviou tropas a Afrin, território sírio, para se aliar a rebeldes na luta contra o curdo YPG, visto como uma ameaça pelo governo turco, por supostamente estar ligado ao movimento de independência dos curdos na Turquia.

Justamente em um momento em que, com o Daesh perdendo protagonismo, os Estados Unidos buscam novamente se aproximar da Turquia, reaquecendo sua permanência no país e intimidando ainda mais o governo sírio.

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Mas o professor Danilo Porfírio de Castro Vieira, da área de Direito e Relações Internacionais da Uniceub, em Brasília, vê na estratégia americana um objetivo claro, acima de todos os interesses. O de tirar Assad, mesmo que demore, para um dia ter controle deste ponto geográfico estratégico.

— Essa guerra tende a durar longos anos. Mas uma das características dos Estados Unidos é a paciência. Eles vão esperar até a Rússia (maior protetora da Síria), que já vive problemas financeiros, e o governo da Síria não aguentarem mais. Na época da Guerra Fria, era notório que a União Soviética não era páreo para o poderio americano, tanto bélico quanto financeiro. No fundo, não havia competição em pé de igualdade. Os americanos fizeram da União Soviética um inimigo conveniente e a forma mais fácil de derrotá-lo foi esperar sua autodestruição, como ocorreu nos anos 80.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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