Líbano foi criado para ser uma referência no Oriente Médio

País contemplava a ideia da diversidade desde os tempos dos fenícios até depois da Primeira Guerra Mundial

Explosão destruiu parte de Beirute

Explosão destruiu parte de Beirute

STR/EFE/08-08-20

Os fenícios existiram entre 3000 a.c e 146 a.c, quando foram derrotados pelos romanos nas Guerras Púnicas, perdendo Cartago, entreposto comercial que era vital para o povo. Foram os fenícios os primeiros habitantes do que hoje é o Líbano.

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Navegadores hábeis, ajudaram a impulsionar o comércio internacional na época e, sem se limitar às fronteiras, buscaram trazer a diversidade à região. Eram estruturados em quatro cidades-estado ligadas ao comércio: Ugarit, Biblos, Sidon e Tiro.

Mais de vinte séculos depois, o Líbano surgiu também na tentativa de acolher a diversidade. Mas, até agora, tal objetivo não foi atingido.

Nos turbulentos anos 20 (do século 20), a Primeira Guerra Mundial feria a humanidade, atingindo um Oriente Médio, vindo de uma instabilidade de pelo menos cinco séculos, desde que as cruzadas e as invasões mongóis desestruturaram um império islâmico que prosperava em termos culturais e sociais.

Uma variedade imensa de povos e etnias, então, passou a viver com base na saudade de tempos estáveis e na luta pela sobrevivência. Preenchidos por uma revolta e uma desconfiança em relação ao Ocidente, transformado, muitas vezes com razão, na nova ameaça. Isso, muito antes de Israel ter se estabelecido como Estado, em 1948.

O resultado foi uma soma de povos em busca da autodeterminação, imersos na pobreza que impulsionou a concentração de poder, gerando multidões comandadas por ditadores ou famílias envolvidas em corrupção.

Xiitas, sunitas, ismaelitas, alauitas, drusos, cristãos maronitas, entre tantos, divergiam em termos religiosos, enquanto persas, iranianos e sauditas tinham rusgas étnicas.

O Líbano, cujo nome já foi citado no Velho Testamento, surgiu logo após a Primeira Guerra. Uma das mais plausíveis versões sobre a denominação do país tem origem na palavra hebraica Lavan (branco), em alusão às montanhas de neve nas redondezas. Em hebraico, Líbano é Lebanon.

Voluntariamente ou não, o novo Líbano carregou novos ares de esperança. O país nasceu com a possibilidade de ser uma referência para os árabes, em termos de democracia.

Após o longo domínio do Império Otomano, que incorporou o Líbano em 1516, a França, passou a controlar a região, quando o Líbano e a Síria eram um só país.

Foi um momento em que Beirute floresceu como uma pérola no Mediterrâneo. A diversidade tinha tudo para prevalecer, com o Líbano se tornando uma República Parlamentarista, bem diferente das oligarquias ditatoriais que assolavam seus vizinhos árabes.

E, em 1943, após a independência concedida pelos franceses, o Pacto Nacional buscou contemplar a convivência entre os grupos, definindo o país como uma nação árabe independente voltada para o Ocidente, com neutralidade e capacidade de cooperar com a região.

O Pacto foi incrementado após o fim da guerra civil, em 1990, no Acordo de Taif, que definiu uma divisão de poder: cristãos maronitas passaram a ter a presidência do país; muçulmanos sunitas ficaram com o cargo de primeiro-ministro e muçulmanos xiitas foram contemplados com a presidência do Parlamento.

Mas o acordo parece não ter atingido seu objetivo pacificador.

Desde sua fundação, justamente por causa da atmosfera acolhedora, as brigas pelo poder se sucederam no Líbano. E o país passou a ser instrumento do interesse de outras nações, como o Irã e a Síria, que criaram redes de representantes em território libanês.

Além de passar a abarcar refugiados palestinos, que passaram a ser mais um fator político de tensão no país. Eclodiu, então, a guerra civil, entre 1975 e 1990.
Sucederam-se governos instáveis, como o de Saad Hariri, filho de Rafiq Hariri (assassinado em 4 de fevereiro de 2005), Najib Miqati e, nos últimos dias, Hassan Diab.

O Hezbollah, mergulhado no ódio contra Israel, passou a ser mais uma força interna a influenciar os destinos de um país que, em vez da sonhada estabilidade, viu sua política explodir na crise econômica, na corrupção, na negligência e no nitrato de amônio, destruindo, a partir do porto, boa parte de Beirute. De possível referência, o Líbano se tornou um espelho dos problemas do Oriente Médio.

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