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Manifestações de jogadores da NFL mostram que esporte e política se misturam; lembre outros momentos

Por integração, esporte em várias ocasiões foi instrumento nobre de manifestação

Nosso Mundo|Eugenio Goussinsky

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Democracia Corintiana, em 1982, ajudou na volta das diretas
Democracia Corintiana, em 1982, ajudou na volta das diretas

Um homem com o uniforme de seu time também é um cidadão. Quando a cidadania pede que ele seja, mesmo representando seu clube ou seleção.

É verdade que, quando motivos políticos geram discriminação de esportistas, a função integradora do esporte está sendo desrespeitada.


Em tal situação a mistura entre esporte e política é nefasta, refletindo a discriminação que há no mundo. Mas, quando essa mistura combate a discriminação, ela se desenvolve de tal maneira, ganha tal representatividade que se torna necessária.

Tais ocasiões mostram que todos os setores de uma sociedade são na verdade partes de um único organismo, formado por política, comportamento, educação, cultura, esporte, cidadania etc...


No limite de uma circunstância crítica, por um objetivo nobre, o esporte também pode ser instrumento nobre de manifestação. Para a superação de algo ainda mais significativo do que uma adversidade no campo: o racismo, a opressão política ou qualquer injustiça e desrespeito aos direitos humanos que estejam sufocando uma sociedade.

As manifestações dos últimos dias, que têm ocorrido nos Estados Unidos, nas quais os jogadores da NFL se recusam a ficar em pé durante o hino nacional antes dos jogos, são uma forma de denunciar a discriminação racial sofrida por muitos negros no país.


O presidente Donald Trump não gostou, xingou, pediu a demissão dos atletas — todos milionários que não perderam o altruísmo e a consciência política — em um gesto que se assemelha ao da maioria dos dirigentes esportivos e governantes que, para defender seus interesses, atribuem ao esporte a necessidade deste estar dissociado da política.

Mas como criticar, por exemplo, o gesto dos jogadores do combinado Dínamo de Kiev e Lokomotiv? Em 1941, aprisionados pelos nazistas, jogaram uma partida de futebol contra o time de soldados e se recusaram a fazer o gesto de honraria a Adolf Hitler, preferindo erguer os braços e bradar a frase "Pela glória do esporte".


Venceram o jogo e em seguida foram levados para campos de concentração, onde morreram. Foram, com toda a certeza, acusados de misturar esporte com política.

A beleza do esporte, justamente, é o seu poder de integrar. Quando um movimento desintegrador impera, resvala na hipocrisia considerar transgressão um ato de denúncia. Na tentativa de restaurar uma injustiça.

Foi isto que fizeram os atletas Tommy Smith e John Carlos, após conquistarem, respectivamente, as medalhas de ouro e de bronze nos 200 m rasos da Olimpíada da Cidade do México, em 1968.

Numa manifestação contra a segregação racial nos EUA, eles ouviram o hino com os punhos direitos erguidos, em homenagem ao gesto que era utilizado pelo grupo Panteras Negras, de luta contra a discriminação.

Contaram com o apoio do segundo colocado, o branco Peter Norman, australiano que subiu ao pódio com um emblema em prol dos direitos humanos e, como os dois americanos, foi perseguido posteriormente, tendo sido isolado do esporte por causa da atitude.

Anos antes, o boxeador Cassius Clay (que se tornou Muhammad Ali), se recusou a lutar no Vietnã e perdeu seu título de campeão mundial. Uma postura política que, se lhe custou caro, ajudou a colocar em xeque a validade daquela guerra brutal e sem solução.

Em 1936, na Olimpíada de Berlim, o atleta negro Jesse Owens, diante de Adolph Hilter, que assistia das tribunas, não se curvou e mostrou seu talento e força vencendo nos 100 m e 200 m rasos, revezamento de 4x100 m e salto em distância.

Relatos dizem que, ao contrário do que se tornou lenda, Hitler não se mostrou contrariado com os feitos de Owen, acenando para o campeão. 

O líder nazista, porém, no íntimo estava enfurecido, mas, em mais uma prova de sua arrogância, preferiu evitar que a vitória de Owens se tornasse uma bandeira, algo que não conseguiu.

Exemplos se multiplicam, como o ar que se respira, quando se fala de política e esporte se entrelaçando em uma mensagem positiva.

A própria maratona, prova mais tradicional do atletismo, surgiu da política. O soldado ateniense Fidípides, mensageiro do exército de Atenas, correu, segundo a lenda, cerca de 40 km, desde o campo de Maratona, onde soldados atenienses guerreavam, para informar aos cidadãos de Atenas que o exército da cidade vencera os persas. Ele morreu exaurido após o esforço.

Em 1982, os jogadores do Corinthians ajudaram a estabelecer novamente a democracia no Brasil, com a implantação da Democracia Corintiana. A iniciativa teve repercussões, influenciando na atmosfera contrária à ditadura militar, algo que possibilidou, sete anos depois, a retomada das eleições diretas no País.

Em 1998, na Copa do Mundo de futebol, na França, a partida entre Irã e Estados Unidos foi histórica, porque uniu os dois inimigos políticos e desconstruiu as diferenças aparentemente irreparáveis entre ambos, com os jogadores trocando abraços e posando juntos para uma foto. Os iranianos presentearam os americanos com flores.

Até mesmo Neymar, considerado por muitos um jogador sem posição política, demonstrou maturidade em 2013, ao postar em seu Instagram um extenso texto no qual defendia as manifestações que estavam ocorrendo naquele ano no Brasil, durante a Copa das Confederações.

Às vezes a mensagem pode ser involuntária. Ou melhor, uma consequência do caráter de um esportista. Foi o caso de Jack Johnson, americano negro que se tornou campeão mundial peso-pesado de boxe em 1908.

Ele ultrapassou barreiras do racismo, em tempos em que o ódio era ainda mais explícito e gerava enormes conflitos nas cidades, para seguir sua profissão. E não desistiu enquanto não conquistou o título, já que os brancos se recusavam a lutar com um negro.

Em 1908, ele só conseguiu o título mundial porque este foi disputado na Austrália, contra o branco Tommy Burns. A vitória de Johnson gerou indignação entre brancos americanos, muitas ruas se transformaram em palco de fortes conflitos.

Neste momento turbulento, o ex-campeão mundial James Jeffries retornou da aposentadoria apenas para desafiar Johnson e mostrar o que considerava a supremacia dos brancos. Só que não, Jeffries perdeu.

Johnson, em sua carreira, não fez nenhum desabafo público, nenhum gesto simbólico ficou marcado. Apenas fez questão de exercer seu direito e seguir seu próprio destino.

Ele é uma mostra de que, por mais que governantes e dirigentes combatam manifestações políticas no esporte, não há como dissorciar-se delas quando o momento exige. O esportista Johnson em sua simplicidade mostrou, afinal, que apenas existir já é um ato político.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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