Mulheres sofrem estupro coletivo na República Centro-Africana
Denúncia foi feita neste Dia da Mulher pelo MSF, que prestou atendimento àquelas que conseguiram sair de suas casas em um vilarejo na selva
Nosso Mundo|Eugenio Goussinsky, do R7

Todos os protestos em defesa da igualdade das mulheres na sociedade mundial chegam abafados à África, um continente onde as mazelas da humanidade se concentram com maior intensidade.
Denúncia do grupo Médicos Sem Fronteira (MSF), nesta quinta-feira (8), justamente o Dia da Mulher, mostra que o continente, em grande parte, vive o atraso do atraso. A entidade relatou a ocorrência de um estupro em massa na RCA (República Centro-Afircana).
A violência e a própria condição precária impedem as mensagens de conscientização, como uma nuvem continental de fumaça que bloqueia a passagem da luz do sol.
E foi sob a luz de um sol tórrido e irracional, quando a fumaça se dissipou tardiamente, que 10 sobreviventes foram levadas ao hospital de Bossangoa, no último dia 3, onde foram atendidas em caráter de emergência por médicos da entidade.
Depauperadas emocionalmente, diante da sina de uma vida de miséria e violência, elas relataram que foram atacadas no dia 17 de fevereiro, perto de Kiriwiri, um vilarejo situado a 56 km de Bossangoa. Em guerra civil há alguns anos, a violência também é acumulada pelo fato de o país, sem saída para o mar, estar cercado de nações em guerra: Chade, Sudão, República do Congo e Sudão do Sul.
Elas foram sequestradas quando pegavam água, lavavam a roupa e cuidavam da colheita na selva, onde se situava o vilarejo, quando foram levadas como reféns por um grupo de homens armados. O país é essencialmente agrícola, com jazidas de diamantes exploradas de forma caótica e vivendo de tímidas exportações de café e algodão. Seu território abriga cerca de 80 etnias, com permanentes lutas entre facções.
As que não conseguiram fugir, foram levadas para o acampamento dos sequestradores, que só as liberaram após estrupá-las diante o dia inteiro. Por medo de mais violência, pelo sentimento de culpa que as abateu, pela sensação de vazi se confundindo com a amplidão das savanas, elas não saíram dos locais onde moravam, recebendo apenas um atendimento básico. Elas só foram tratadas realmente, graças a uma organização de ajuda humanitária que enviou motocicletas para levá-las ao hospital.
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A parteira Soulemane-Amoin, do MSF, responsável pelo hospital de Bossangoa, descreveu o trauma das mulheres atendidas.
— As mulheres que atendemos estavam lidando com a situação de maneira diferente, mas todas estavam incrivelmente traumatizadas. Algumas estavam em choque total, enquanto outras ficaram paralisadas pelo medo, ou acharam muito difícil falar sobre o incidente. Algumas mulheres foram feridas por faca. Foi horrível testemunhar isso e desejo força a elas. Nossa equipe de maternidade as tratou com dignidade e paciência e forneceu um espaço seguro e confidencial para começar a processar o que aconteceu.
Outras tantas mulheres, segundo elas, nem saíram do vilarejo para receber atendimento, temendo serem estigmatizadas em suas comunidades, por serem vítimas de abuso sexual.
Na República Centro-Africana, um dos 10 países mais pobres do mundo, o pesadelo da humanidade não é apenas parte da rotina, como em outras regiões minimamente desenvolvidas socialmente, que até conseguem driblar adversidades com o consumo, com a aparência, com uma escola meia-boca. Na África, não, o pesadelo está presente dia a dia, implacável sob um calor sem sombra, sem esperança, sem perspectiva. Sem nem um dia sequer, para a mulher.
