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Na linha do horizonte, o garoto viu o fim do preconceito

O tio que era um homem bondoso e corpulento, sabia misturar a firmeza com a doçura, e mostrou qual era o caminho certo

Nosso Mundo|Eugenio Goussinsky, do R7

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Ele sempre andava pela Avenida Barão de Penedo
Ele sempre andava pela Avenida Barão de Penedo

O som dos carros passando pelos paralelepípedos da Avenida Barão de Penedo, em Santos, dava um ar urbano àquelas noites tropicais.

Depois de um dia de praia e das brincadeiras do fim de tarde, no pátio coberto do edifício Cásper Líbero, todos íamos à sorveteria Royal.


Percorríamos aquela rua lentamente, sentindo o perfume das árvores que desfilavam a cada lado da calçada, com um canal cortando a via até o Orquidário.

Costumávamos ir em caravana familiar: eu (com uns sete anos) minha irmã, meus pais e o tio Miguel, com sua esposa Lucinda, éramos presença constante.


A música que me remete àqueles tempos é Linha do Horizonte, do grupo Azimuth. O som instrumental tranquilo com sinos dá ensejo a uma batida até a frase inicial: “É, eu vou pro ar, no azul mais lindo, eu vou morar...Eu, quero um lugar, que não tenha dono, qualquer lugar..."

Sinto-me voando para aquele momento, relembrando até os gestos e conversas que tínhamos durante o passeio, como se me guiasse pela rosa dos ventos e dos tempos.


Era uma sensação de aconchego, e, ao mesmo tempo impotência, por, como criança, ainda não me sentir com autonomia para fazer só o que eu queria. Não habitava um lugar que não tinha dono.

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Eu era uma criança sensível e frágil. Sem os colegas da escola, naqueles momentos de férias, perdia um pouco do suporte que tinha, utilizado muitas vezes para fazer brincadeirinhas na aula, sentindo-me orgulhoso de colocar para fora meu veio piadista e ser assim considerado o mais engraçado da classe.


Mas, com a família, eu não tinha aquela abertura. Ficava um pouco mais inibido, sem recursos, muitas vezes me sentindo sem chão. Foi essa fragilidade que me levou a sentir um medo profundo de uma vizinha que tinha Síndrome de Down.

A vi pela primeira vez na praia. Era uma moça de média estatura, sem ser magra, cabelos médios com uma franja ingênua. Andava vagarosamente, com a ajuda dos pais.

Eu nunca havia visto antes alguém com Down. E a presença dela passou a ser uma infantil ameaça para minha mente vulnerável.

Cheguei a pedir para meus pais me acompanharem no elevador, em uma tarde em que eu iria descer para brincar.

Desinformado, temia entrar sozinho com ela e seus pais, mas não contava nada a ninguém. No fundo, sabia que se tratava de um preconceito, mesmo que involuntário, e não podia admiti-lo.

Numa daquelas noites, estávamos todos andando em direção à esquina, para entrar na Pinheiro Machado, onde ficava a Royal, quando percebi que estávamos alcançando a moça com sua família.

A vi de longe, vestida com uma blusa e uma saia longa brancas, e naquela vez não consegui esconder meu pânico. Parei, chorando.

Meu tio Miguel, um homem bondoso, corpulento, sabia misturar a firmeza com a doçura.

Naquele momento, ele se dirigiu a mim e foi direto: "Não faça isso, você não pode fazer isso. É uma criatura de Deus, é um anjo e você é injusto agindo desta maneira."

As palavras dele ficaram em mim como se tivessem sido ditas ontem. No dia seguinte, fui sozinho ao elevador. Ao encontrá-la, me lembrei do meu tio. Não virei o rosto e fiquei a observando.

Ela parece ter intuído minha dificuldade inicial e me estendeu um sorriso. Até hoje, passados mais de 40 anos, me arrependo apenas de não ter dado um beijo naquele rosto puro. É que só um tempo depois aprendi a pedir desculpas.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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