O dia em que Paul McCartney esteve mais presente do que nunca em SP

O poder de um artista também é caminhar pela estrada e, como dizem Milton Nascimento e Fernando Brant, ir aonde o povo está

Paul McCartney nem cantou Yesterday, mas não precisava

Paul McCartney nem cantou Yesterday, mas não precisava

Eduardo Nicolau/Agência Estado/26-03-19

Quando ele tinha 13 anos, fez bar-mitzvá (cerimônia de maioridade religiosa judaica), em um dia em que foi o centro das atenções, o astro. Fase de sonhos, mas também de necessidade de afirmação. Na época, 1982, o hit das paradas era Ebony and Ivory, do Paul McCartney, cantada com o Stevie Wonder.

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Esta música, que prega a igualdade racial, acompanhou toda aquela época, se misturando a cenas em que ele se vê no púlpito, observado pelas meninas da classe, na parte de cima da sinagoga.

Não se esquece dos semblantes respeitosos enquanto ele cantava a reza. E da sensação de vazio do pós-cerimônia, quando voltava para a casa, como um artista depois do show.

Enquanto via, da janela do carro, a cidade em movimento, se perguntava: e agora?

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Passados exatos 37 anos de seu bar-mitzvá, agora, ele percebe como Paul foi revolucionário, dentro do cenário pop, ao compor aquela música, que nunca foi tão atual como hoje.

Era tão verdadeira, que era admirada até pelos que veem hoje essas reivindicações como mimimi. Mas que, naquela época, na qual o Brasil se abria para a redemocratização, tinham vergonha de assumir.

Já cinquentão, ele caminha pelas ruas da Pompeia, dando uma sequência prática àquela pergunta: "e agora?"

Agora era estar ali, andando, para frente, mesmo que um tanto saudoso daquele momento em que experimentou o gostinho de ser centro das atenções. Em que fazer o bar-mitzvá era uma doce maneira de se sentir Paul McCartney.

Agora ele caminha antes do show e percebe como um artista serve de espelho para quem o aplaude. Isso é nítido na sincronia que envolveu o bairro da Pompeia naquele instante. O elixir Paul McCartney estava no ar.

Nunca Paul McCartney esteve tão perto da Pompeia como naquele momento. O céu cinza parecia vivo, em movimento. As nuvens se moviam em dança com o vento.

Regidas por aquele clima, as pessoas andavam tranquilas, nestes tempos intranquilos, acalmadas por uma confiança que emergia delas mesmas.

Nunca Paul McCartney esteve tão perto daqueles homens simples, sentados na mesa do bar da esquina, uns jovens, outros mais velhos.

Eram pintores, pedreiros, porteiros em fim de expediente, jogando conversa fora, ao redor de mesas de plástico, enquanto bebiam uma cervejinha.

Nunca Paul McCartney esteve tão perto da travessa Arcângelo Crivelli, nem do pequeno prédio lilás, nem do supermercado, nem da mecânica, nem das árvores decanas da rua Turiassu. Nem da lotérica na esquina com a Itapicuru.

Já naquela parte, as casas vão ganhando o embate com as lojas. O bairro vai ganhando uma feição mais residencial. Um porteiro conversa com uma moça que traz o cachorrinho no colo. Paul McCartney nunca esteve tão perto deles.

Então chega o momento de ir para o show. Ele retorna, andando em direção ao estádio do Palmeiras. A noite já caiu sobre a cidade, silenciosa, à espera da voz do cantor, que nunca esteve tão próxima. Nem os carros enfileirados no trânsito buzinam pelas cercanias.

O poder de um artista também é caminhar pela estrada e, como dizem Milton Nascimento e Fernando Brant, ir aonde o povo está. Funcionar como revelação. Estar perto da Pompeia, de Itaquera, ou de onde nunca imaginaram que ele estivesse.

O astro nem precisou cantar Yesterday para mostrar como o ontem e o hoje, de certa maneira, se fundem. Também para o septuagenário Paul, com suas perdas e conquistas.

Na multidão, enquanto ouvia o beatle, olhou para uma estrela no céu, entre as brechas das nuvens. Solitária como Eleanor Rigby. A estrela brilhava para ele, para Paul e para todos ao redor. O barco, ou o estádio, é o mesmo.

Nunca sentiu Paul McCartney tão próximo. E nunca sentiu, como naquele momento, a doçura da infância tão presente.

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