O homem sensível que não chorava

Antonio Afif se tornou um dos maiores especialistas em gestão de futebol, tendo trabalhado no Corinthians e no Fluminense, entre outros

  • Nosso Mundo | Eugenio Goussinsky, do R7

Afif escreveu duas obras que são referência

Afif escreveu duas obras que são referência

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Na tarde chuvosa de um dia em setembro de 1994, entrei no pequeno sobrado da rua Sabaúna, no coração da Lapa comercial e industrial. Numa época em que passava muitas tardes livres, sem emprego, arrisquei e fui tentar uma vaga na revista Corinthians em Revista.

Qual não foi minha surpresa quando quem abriu a porta foi o próprio dono da revista, Antonio Afif? Foi a primeira vez que vi aquele homem de estatura média para alta, cabelos que começavam a se tornar grisalhos, óculos com armação clara e suave, que pareciam fazer parte de seu semblante alongado, em volta dos pequenos olhos castanhos.

Tímido como eu era, senti-me desconfiado pela rapidez com que tudo se concluiu. Ele logo me aceitou, propôs que começássemos no dia seguinte. Titubeante, dei um passo atrás. "Vou pensar e confirmo depois". Ele, com seu humor espirituoso, respondeu de pronto: "Quem pensa muito não casa", e soltou aquela gargalhada mansa, mas espontânea, que sempre o caracterizou.

A partir de então, iniciamos uma grande amizade. Primeiro almoçávamos no por quilo lá perto. E depois, inclusive com o fim da revista, nos encontrávamos frequentemente para, cada um em busca de um objetivo, ver de que maneira poderíamos achar um caminho.

Os cenários são incontáveis. O do dia do lançamento do meu livro, em 1998, quando fomos com um grupo de familiares meus jantar no Piero da Padre João Manuel. O das conversas em Perdizes, quando ele já morava na região. O das idas ao estúdio do Paulinho, onde iniciamos um projeto de ter um programa na rádio.

Uma vez, fui ao seu apartamento em Perdizes para mais uma de nossas tentativas de prosperar no ramo, desta vez com uma rádio web.

Todas as iniciativas terminavam em algumas longas conversas, nos bares, lanchonetes ou confeitarias da região. Afif me falava da família, contava sobre sua mãe, sua esposa, sua adorada netinha, seus enteados, seu irmão. Organizado que era, dizia que seu irmão era ainda mais.

Na profissão, formou-se em Economia e acabou enveredando para uma grande paixão: o futebol.

Tornou-se um dos maiores especialistas em gestão de futebol, tendo trabalhado no Corinthians e no Fluminense, entre outros. Também atuou em projetos que tiveram a participação de Pelé.

Autor, ao lado de José Carlos Brunoro, de duas obras que são referência no marketing esportivo (Futebol 100% Profissional e Bola da Vez), ele se tornou uma importante fonte para muitas matérias que eu fazia.

Idealista, queixava-se da falta de planejamento do esporte e da visão imediatista e oportunista de boa parte dos dirigentes.

Conseguia, sempre se esforçando, se manter profissionalmente. Alguns trabalhos o ajudavam a garantir uma verba por um bom período.

Com o tempo, foi se desiludindo de seus ambiciosos projetos, sem, no entanto, perder o gosto pela vida. Fumava e era um apreciador de um bom vinho ou uísque na medida certa.

Com um jeito tranquilo e ao mesmo tempo dinâmico, Afif era um especialista em abrir portas, sabendo conversar, com a mesma simplicidade, com todas as pessoas, desde as de profissões mais humildes, até aqueles que exerciam os mais altos cargos executivos.

Acumulou uma série de amizades, inclusive na música, já que mantinha um grupo para praticar outra de suas atividades favoritas: tocar bateria, algo que nunca o vi fazer.

Já almoçamos no Jaber da Domingos de Moraes, perto da Mega Brasil, do generoso Marco Antonio Rossi, que conhecemos em mais uma das tentativas de iniciar um projeto. Fizemos, na época, interessantes programas na rádio dele, localizada na Vila Mariana.

Depois, iniciamos outra empreitada, com uma produtora, para um documentário sobre o Ben Abraham.

No dia 19 de dezembro de 2019, nos encontramos na padaria Palmeiras, lá na Albuquerque Lins.Ele se recuperava de uma quimioterapia, mas foi lá com o mesmo ânimo de sempre. Conversamos por horas, para colocar o papo em dia.

Durante todas as nossas inúmeras conversas, falamos sobre família, frustrações, sonhos e projetos.

Conversávamos sobre a ambição e a mesquinhez humanas, mas sempre as temperando com boas doses de esperança. O curioso é que Afif era um homem sensível, mas nunca o vi chorar durante as longas conversas.

Assimilava seus profundos sentimentos e os convertia de uma maneira plácida, silenciosa, que usava os hiatos das conversas para se manifestar.

Aquele encontro do dia 19 foi o último. Depois, vieram amigáveis conversas pelo WhatsApp. 

Penso agora que todos os nossos encontros e projetos tinham, mais do que a questão profissional, o objetivo inconsciente de estarmos juntos.

Ao mesmo tempo em que me recordo de todos esses momentos, fico tomado por uma saudade profunda e grande tristeza ao saber que ele não está mais aqui.

Justo eu, que choro por qualquer motivo. Mas, desta vez, não estou conseguindo chorar.

São as contradições humanas que o imprevisível das emoções nos apresentam. Poderia estar envolto em lágrimas, mas não. Elas não saem. Somente o sentimento flui, com meu choro silenciado no hiato de minhas frases. Bem como acontecia com Antonio Afif.

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