Passos apressados atravessam faixas de pedestres
É preciso estar atento para que um ato de gentileza não se dilua na dura rotina de uma cidade grande
Nosso Mundo|Eugenio Goussinsky, do R7

Nunca gostei de ver as pessoas correrem na faixa de pedestres quando os carros param para lhes dar passagem. Sinal de intimidação diante da certeza da pressa alheia.
Neste local de diálogo entre pedestres e motoristas, paira um constrangimento diante da imagem dos possantes que cruzam as ruas de forma impositiva e agressiva.
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"Tenho que ir rápido porque não posso atrapalhar esse homem na máquina. Ele já fez muito em ter me deixado passar", pensam os oprimidos. E mal têm tempo de agradecer.
Mas, na rotina da cidade grande, temos de estar sempre atentos. Enquanto policiais ultrapassam em carros em alta velocidade, à procura de maus elementos, nós, tidos como bons elementos, também precisamos nos policiar. Não de uma maneira culpógena, mas em diálogo amigável com nossa consciência.
A grande maioria das pessoas é de paz. No mínimo, não quer problemas e evita confusões. Acontece que a paranoia está grande. A minoria que quer confusão, e que pelas estatísticas deu uma crescida, tem feito as pessoas andarem desconfiadas.
O sol brilha por entre os prédios, a música toca no carro e embala bons sentimentos. Pessoas caminham nas ruas a pé e em pé de igualdade. Estão todos no mesmo barco e não percebem.
Um gesto de gentileza repentino é capaz de fazê-las se reconhecerem humanas. Caminharem mais aliviadas, menos desconfiadas pela cidade ensoralada. E terem um dia melhor.
Ao lado do viaduto na entrada da Ana Cintra, há uma esquina com faixa de pedestres. Parece um ponto fora da curva na metrópole ensandecida.
Como em um ritual obrigatório, lá é o local onde as pessoas se desarmam. Param na faixa o tempo que for necessário, para que os pedestres passem. Daquele jeito, intimidados pelo favor.
Automatizados, eles não percebem que lá os motoristas não se estressam. Pelo menos naquele ponto, esperam todos passarem, como uma obrigação cívica, pacientes, enquanto refletem sobre a vida.
Fiz isso com prazer naquela manhã. Por pelo menos dois minutos, deixei uma legião de pessoas indo ao trabalho, jovens de bicicleta, mães com crianças, estudantes com mochilas, atravessarem rumo aos seus destinos.
Só quando não havia mais ninguém, fui embora. Mais leve, contemplando o ângulo dos prédios, o mundo girando, a cidade em movimento.
Então parei, mais adiante, em uma esquina próxima à Avenida Angélica.
Um rapaz magro, de barba, vinha andando lentamente. Tinha um aspecto de pedinte, sem aparentar agressividade. Era um morador de rua. Mas não estava pedindo nada. Andava por entre os carros porque a havia um tapume de obra no fim da faixa.
Apenas passou ao lado do carro à minha frente e eu, desconfiado, fechei o pouco espaço que ainda faltava do vidro.
O moço me olhou ofendido. Desabafou. Parecia carregar um olhar de choro. "Sou humano como você."
Percebi que havia sido dominado pelo hábito ainda arraigado entre os moradores de uma metrópole paranoica. Cheio de precipitações. Me vi neste furacão. Do qual busquei sair, no mesmo instante, com uma dose de arrependimento.
Abri toda a janela, contendo qualquer receio, e me virei para trás, da janela, o chamando com as mãos. O ofendido se voltou, pensando ter sido chamado para a briga, numa vivência à qual devia estar acostumado.
E se aproximou, repetindo que era humano como eu. Então, falei, como única alternativa. "Eu sei, tem razão. Me desculpe, irmão, me desculpe."
E lhe estendi a mão, para um aperto. Ele retribuiu, enquanto seu olhar de choro ganhava um brilho de alívio.
A cena levou alguns segundos, enquanto o farol já estava aberto. Todos viram. Os pedestres pararam na esquina um tanto surpresos. O motorista do ônibus que estava atrás nem buzinou. Assim como os de trás.
Um gesto gentil apenas, muitas vezes, não é suficiente, se na esquina seguinte fechamos o vidro de forma injusta, sem considerar o indivíduo. Foi a comprovação de que temos mesmo de nos policiar.
Mas, como a fila anda, e eu não queria que buzinassem, o jeito foi seguir em frente.
Alguns quarteirões depois, diminui e parei em uma faixa de pedestres. Nem havia farol. Era destas no meio da rua.
A moça com o carrinho de bebê não sabia que aquela era mais uma, entre tantas, chance que eu teria de compensar. E ela atravessou a rua, em passos acelerados.
Amizade entre motorista e passageiro nasce no ônibus e se estende para a vida
