Saiba a importância do Palmeiras na vida de um corintiano
O tio só não esperava que o menino se tornasse corintiano, após se fascinar com a torcida que invadiu o Maracanã contra o Flu
Nosso Mundo|Eugenio Goussinsky, do R7

De família italiana, ele viu de perto as dificuldades dos imigrantes que saíram de seu país, da miséria à beira do Vesúvio para a incógnita no Brasil. Cresceu em São Paulo, estudou na estadual e fez contabilidade na Álvares Penteado. Contava que dormia em latões na rua para dar tempo de servir o Exército pela manhã.
Miguel Auricchio era palmeirense. Ainda menino, o vi, enquanto ouvia o jogo em seu rádio no Fusca marrom, vibrar com um gol de Jorge Mendonça, o do título paulista de 1976. Buzinava e acenava para os passantes, emocionado com a conquista de seu time, símbolo de sua colônia.
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Encorpado e alto, com o tempo ficou com uma barriga saliente. Passava gel nos cabelos escuros, que começavam a embranquecer, alisando-os para trás.
Vestia-se de um jeito tradicional, com camisa de manga curta de abotoar, por cima de uma camiseta, e calça social. Usava óculos volumosos e um perfume especial, indispensável para ele. Era um cheiro que transmitia acolhimento, cuidado e segurança.
Enveredou pelos ramos da contabilidade e imobiliário, em seu escritório na rua Coronel Diogo, alcançando boas condições de vida. Ele morava na Mooca, bairro italiano. Em um prédio de lajotas brancas e azuis, na esquina com a Paes de Barros.
Bem mais velho, se tornou grande amigo de minha mãe, de quem foi chefe na Arno. Estes anos de carinho paternal o levaram a ser considerado um membro de minha família. Eu o chamava de Tio Miguel e me alegrava todas as vezes em que, à tarde, ele tocava a campainha, entrava todo alegre pelo jardim da minha casa, me trazendo aqueles bichinhos de Marzipan.
Casado com a tia Lucinda, nunca tiveram filhos. Por isso tratava a mim e à minha irmã com o carinho destinado a um. Foi meu padrinho de nascimento e, durante as férias em Santos, onde tinha apartamento no mesmo prédio que o nosso, curtíamos em família as idas à praia, as conversas dele com meu pai, sobre política, os passeios no orquidário e as perfumadas noites tropicais que aspirávamos durante a ida à sorveteria Royal, de chinelos e sem preocupações.
Depois, era ir dormir sentindo a maresia se misturar com a voz suave e um pouco rouca do tio Miguel, que permanecia como uma companheira em nossa memória, até adormecermos.
Ele só não esperava que eu me tornasse corintiano, após me fascinar com a torcida que invadiu o Maracanã e com o gol de meia-bicicleta do Russo. Restou a ele me respeitar. E, aos poucos, para me agradar, foi também mostrando afeição pelo meu clube.
Se interessava pelos resultados tanto quanto eu. E me levou a vários treinos, junto com meu pai, na Fazendinha, pois era amigo do Isidoro Mateus, irmão do Vicente.
Era tão zeloso comigo que, quando bati o carro, por culpa minha, e cheguei ao seu escritório, atormentado, foi ele quem me pagou todo o conserto na oficina vizinha, do Alemão.
Já adulto, às vezes o encontrava em seu apartamento. Já se acumulavam em mim questões que me distanciavam do antigo fanatismo pelo Corinthians. Uma vez, desempregado e após um rompimento com uma namorada, fui visitá-lo no meio da tarde.
Ele estava se recuperando de um AVC e parecia querer retomar os bons tempos. Não lhe agradava a ideia de que eu, a criança ingênua e companheira de antes, já era um homem com outras preocupações além do futebol ou dos tempos de infância.
E ele insistia: "O Corinthians tá bem, hein?" Ou "Tá mal, o que está acontecendo?" Sempre quis me agradar e via no Corinthians um pretexto para isso.
Por causa daqueles tempos, a natural rivalidade que um corintiano teria com o Palmeiras não era algo tão grande para mim. E o que existia foi arrefecendo, até morrer junto com ele, definitivamente, em 2005.
A imagem que me ficou do palmeirense é a do filho de italiano que gesticula, usa óculos, gel, perfume, é sincero e puro. Divide a fatia do pão e até o time de coração, se necessário for. Como o tio Miguel. E penso que nem me incomodaria se um dia me confundissem com um palmeirense. Ser palmeirense, aprendi, é ser generoso.
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