Seria bonito ver o senegalês Mané ganhar prêmio de melhor do mundo
Teria um significado político, seria recompensa a um continente mergulhado na pobreza e ainda remeteria a tempos gloriosos do futebol brasileiro
Nosso Mundo|Eugenio Goussinsky, do R7

Na sofrida África, a felicidade é ter um pouco de água para beber, um pouco de comida e alguma moradia.
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Os países, principalmente da região subsaariana, são os mais pobres do mundo, esquecidos pela comunidade internacional.
A maioria deles, vítima de um colonialismo predatório, está exaurida por brigas tribais que não se resolvem.
Crianças brincam em frente às suas tendas, diante do descampado seco, muitas vezes cercadas de esqueletos de animais.
Em várias aldeias, a bola suja insiste em rolar serelepe. Saltita no desnível, sobre pedras e matagais, teima em se manter como símbolo de alegria e imprevisibilidade, diante da impossibilidade que sufoca sonhos.
Mas a África nunca conseguiu ser uma potência no futebol. Ao contrário do Brasil, cuja identidade futebolística acabou se formando muito em função de semelhante carência social em algumas áreas.
Agora, porém, há um maior nivelamento. Não que o Brasil tenha perdido a capacidade de revelar. Ela ainda permanece. Mas o futebol do País vive um momento de baixa.
E se o futebol africano ainda não se desenvolveu a ponto de ter seleções favoritas para ganhar uma Copa do Mundo, os jogadores africanos também estão indo muito cedo para a Europa. E feito até mais sucesso do que alguns brasileiros.
Sadio Mané e Mohamed Salah são dois exemplos. Ambos estão disputando o título de melhor jogador do mundo em 2019, concedido pela Fifa. Neymar está fora da lista, sem brasileiro.
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Relembre o desempenho dos indicados ao prêmio de melhor do mundo na última temporada
Imagine como não seria importante para o Senegal, país que tem o 164º IDH do mundo, ver Mané com o título.
Ele não é melhor do que Messi ou Cristiano Ronaldo. Mas fez uma boa temporada, mostrando um futebol envolvente e rápido.
Foi campeão da Champions pelo Liverpool e vice da Copa da África.
Mais do que questões técnicas, seria uma recompensa ao potencial do futebol africano, ainda muito explorado em sua essência e sem o retorno para o próprio continente.
Teria um significado político. Seria como um pedido de desculpas. Mas precisaria ser acompanhado de uma promessa de uma mudança de postura em relação à África.
George Weah ganhou o título em 1995 e hoje é o presidente da Libéria. O país passa por forte crise econômica.
De forma autoritária, ele determinou o bloqueio das redes sociais locais, a fim de não receber mais críticas. Enfim, alvo de protestos, não conseguiu as tais mudanças.
Mas há uma segunda chance de impulso com Mané. Ele nasceu em Sedihou, Senegal. Jogou a infância inteira descalço.
Discreto, não gosta de videogame e de badalações, assuntos tão comuns a jogadores famosos.
Sabe o que ele representa para o seu país e como a realidade da vida é maior do que frivolidades.
Mané é um representante do lado mais pobre do futebol, assim como já foram muitos jogadores brasileiros.
Brasil e África, mesmo com um crescimento dos investimentos em ambos, sempre tiveram algo em comum, além de regiões com miséria.
Os dois já fizeram parte de um só continente, a Pangeia.
A África, neste momento, representa um pouco do que é e do que foi o futebol brasileiro.
Que já teve Garrincha, também vindo da pobreza. Seria bonito, portanto, ver o prêmio ir para Mané.
Hoje, só se fala em Messi, Cristiano Ronaldo, Hazard, como se o futebol fosse apenas o momento e os interesses do mercado.
Os jovens já estão se esquecendo até de quem foi Zico. Rivellino, então, nem se fala. E sabem cada vez menos o que representou Garrincha.
Premiar Mané significa dar um prêmio ao presente que alcança o passado, no sentido de reverenciar um futebol empolgante, de um universo de ginga e pobreza.
Seria como um reconhecimento duplo, no qual o Brasil poderia pegar carona: uma honraria à glória do futebol brasileiro e a um continente que sofre com a falta de atenção ao seu real desenvolvimento.
Seria um prazer ouvir: "O vencedor é Mané (e nós pensaríamos..."Garrincha"...) Seria um reconhecimento tardio. Um reconhecimento saudoso. Um reconhecimento sadio.
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