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SP e São Francisco: morador de rua não é igual em todo lugar

O homem foi embora, enquanto as pessoas na lanchonete diziam que eu não devia dar dinheiro mesmo, que aquele pessoal tem muita malandragem

Nosso Mundo|Eugenio Goussinsky, do R7

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Mendigos de San Francisco têm aspecto próprio
Mendigos de San Francisco têm aspecto próprio

A região de Union Square, em São Francisco, foge do estilo bucólico e colorido da cidade.

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Com construções mais antigas, tem o estilo urbano repleto de prédios, letreiros, hoteis, bares e uma população mais pobre do que em relação à média dos Estados Unidos.

Os mendigos de lá têm um aspecto próprio, nem melhor nem pior do que os de outros lugares. Há no olhar um deboche do mundo que um dia já lhes foi possível.


Em geral barbudos, vestem jaquetas batidas e botas, exalando de longe o cheiro de uísque.

Sofrem, mas querem passar a impressão de que sabem por que estão lá, fazendo comentários irônicos com quem passa ou até pedindo uns trocados, mais por hábito e desafio.


Chegamos a pensar que são atores de Hollywood ou personagens de John Steinbeck ou ainda do clássico O Príncipe e o Mendigo, encenando. Passam até a ilusão de que são felizes.

Em São Paulo, outro dia, eu estava sentado na mesa de uma lanchonete, próximo da entrada. Em instantes apareceu um homem muito alto, de aparência assustadora, esfarrapado.


Parecia ter saído das entranhas da cidade, como se os prédios fossem árvores, as ruas fossem rios e ele passasse o dia inteiro desbravando o bosque de concreto.

Ele se aproxima e fala, malemolente. "Quero um pssag..."

Tinha o olho direito vazado, por alguma perfuração. Ouvi depois que foi por causa de alguma agressão que sofreu na cracolândia.

Enquanto eu estava no caixa, ele me esperava encostado na entrada e então entendi o que ele queria. Repetiu o que disse antes: "Me completa a passagem com dinheiro..."

Mas eu já havia comprado o pão de queijo e lhe estendi o braço com o alimento. Contrariado, ele repeliu.

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Foi embora, enquanto as pessoas na lanchonete me diziam que eu não devia dar dinheiro mesmo, que aquele pessoal tem muita malandragem.

Ficaram, mais do que eu, revoltados com a recusa do pão de queijo.

Eu, ao contrário, pensei que, talvez, devesse ter lhe dado dinheiro.

Não resolveria o problema. Seria um modo de amenizar seu desespero, de, no íntimo, saber que não tinha condições de entrar em um ônibus ou metrô e ir para onde quisesse.

Os mendigos de São Paulo são diferentes dos de São Francisco. Já não nos convencem de que são felizes.

Fiquei arrependido de não ter dado o dinheiro. Aquele moço nem tinha mais a ilusão de ser malandro. Ele tinha o olho vazado.

Série JR: moradores de rua se esforçam para aprenderem novo ofício

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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