Uma conversa entre Paula Toller e Nelson Rodrigues nos anos 80

A realidade da vida nem sempre é como nós queremos, mas esse desejo não deixa de ser uma importante busca na adolescência

As músicas dos anos 80, como as de Paula Toller, marcaram uma geração

As músicas dos anos 80, como as de Paula Toller, marcaram uma geração

Matheus Vigliar/Arte e Criação/R7

Anos 80 e Rio de Janeiro se misturam. O Circo Voador, as amoreiras e amendoeiras dos calçadões, as ruas charmosas de Ipanema, os barzinhos, a vista dos morros, o sol no corpo salgado, o calor da areia, os pés no asfalto quente, a ânsia por colocar o chinelo, a espera na faixa de pedestres de costas para o horizonte, a dança das nuvens no céu, uma Coca-Cola gelada. 

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A redemocratização falada nas bancas, nos botecos, com o sotaque carioca e a descontração. Não havia celular. Uma vez, vi, na Domingos Ferreira, um morador só de bermuda e chinelos, pedir que lhe jogassem o fone do seu apê, com o fio que o alcançava, para ele conversar. E ficou lá, sentadão na cadeira de praia, bem folgadão, refletindo um tempo de expansão e esperança.

E tem mais. O pôr-do-sol do Arpoador, a brisa da janela do apartamento, Cazuza, os vizinhos sem camisa olhando a rua do alto, a convivência com o outro, as baladas pesadas, o bom-humor sem distinção social, as estrelas por trás da mata, os vários ângulos dos Dois Irmãos. As mágicas aparições do Cristo por trás dos prédios.

O Fla de Zico, o Vasco de Roberto, o Flu de Romerito, o Bota de Mendonça. O Maraca e o gol “Baila Comigo”. Os apelidos debochados. A criatividade do torcedor pobre, que hoje retorna inspirada no Fla do Mister. Imagens de glamour, sedução e poder. Isso me tocava. Tocava o Brasil esse clima contagiante. Um dos expoentes que marcaram a fase foi a voz da Paula Toller, com seu Kid Abelha, em "Como Eu Quero".

Menina sensível, carente por ter sido abandonada pela mãe, transformava a dor em delicadeza. Com alma carioca, aprendeu a ver encanto na tristeza. Muitos disfarçam as fragilidades com arrogância. Ela disfarçava com doce ousadia. Eu, adolescente ainda, me identificava nesta busca.

O canto sem esforço, com naturalidade e timbre únicos, acompanhado daquele arranjo um tanto sinfônico, tinha o ritmo de lamento romântico. Era uma expressão do direito dela de desejar alguém que fosse como ela quisesse.

Eu também queria que as pessoas fossem como eu queria. Todos nós, aliás. O barato - termo para homenagear a época - da vida é justamente sabermos encaixar esse desejo à realidade. Muito mais do que licença poética, era um desabafo composto por uma legítima ternura.

Não era algo possessivo. Era uma forma de mostrar o que queríamos do Brasil, que se libertava de opressões e podia olhar para o futuro. Era apenas um pedido, uma confissão de nossas inseguranças. Trazia implícita uma pergunta: como podemos sonhar e crescer, mesmo em um mundo que não é como nós queremos que fosse? Nelson Rodrigues responderia: “Olhando a vida como ela é...”

Mas Paula Toller rebate, franca: "Longe do meu domínio, cê vai de mal a pior; vem que eu te ensino como ser bem melhor", passando o retrato da nossa mais íntima procura, antes de desenvolvermos outras características, como a generosidade e a empatia. É preciso empatia também com quem pede compreensão e, ao mesmo tempo, tem a coragem de se revelar.

Aquela música abraçou o Brasil. Foi trilha de uma viagem que fiz ao Interior, com a família de um amigo. Eu observava a estrada enquanto ouvia e, hoje, compartilho aqueles instantes com o de todos os outros adolescentes que eu não conhecia, mas que também procuravam por algo, em outros cenários, com caminhos semelhantes. 

Ouvi novamente "Como Eu Quero" há dois dias. Foi como abrir um frasco de perfume que nunca perde a validade. A gravação era meio estereofônica, com um leve eco, como se viesse de um rádio antigo. Coloquei para fazer o meu filho dormir, como sempre faço.

Com um celular e YouTube, sentado à beira da cama dele. Nestes momentos, vou passeando com minhas recordações, enquanto observo sua feição pura, com a coberta resvalando em seu rosto. Uma palavra aqui e ali, antes do sono.

Eu escutava olhando a quina da parede com o armário, como se fosse a tela da minha imaginação. Não quero que meu filho seja como eu quero. Aprendi isso com esta música. Ela mesma me ensinou a entendê-la. O tom de Paula Toller já mostrava que tudo era um símbolo.

Mas, depois de tantas coisas, ela voltou mais profunda. Muitos descaminhos do País realçaram ainda a transparência daquele pedido de ajuda.

Nem tudo é como queremos. Mas, inclusive graças a essas lembranças que ensinam, estamos aqui. A música voltou tão suave, tão verdadeira que me fez viajar. O ambiente ficou leve. Assim, o menino logo dormiu. A vez era dele sonhar. Como ele quisesse.

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