Entre a cidade e o campo: como o crédito cooperativo mantém jovens na agricultura
Nova geração de filhos da agricultura familiar dá continuidade ao legado dos pais e inova setor com sustentabilidade
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

As cooperativas de crédito em todo o país tem ajudado a alimentar os sonhos dos jovens responsáveis pela produção da maior parte da comida consumida na mesa dos brasileiros. Dados do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar revelam que 77% dos estabelecimentos agrícolas no país são familiares e garantem o abastecimento de produtos essenciais nos domicílios, como arroz, feijão, frutas e hortaliças.
Em entrevista com quatro famílias de norte a sul do país, o R7 Planalto ouviu relatos de uma geração que se mantém no campo unida por um objetivo: continuar o legado deixado pela família e manter viva a memória de quem já partiu.
Quem está nessa jornada é Giseli Boldrin, 43 anos, uma das 600 cooperadas da Nova Aliança Vinícola Cooperativa. A propriedade dela produz uvas na Serra Gaúcha, na cidade de Nova Pádua (RS), a cerca de 158 km da capital Porto Alegre. O trajetória da família é longa e começou com a vinda do avô dela da Itália para o Brasil.
Adelino Boldrin chegou ao sul do país em 1929 e foi um dos sócio-fundadores da cooperativa Nova Aliança. À época, a preocupação das famílias da região era produzir alimento para a sobrevivência. Porém, aos poucos e com o que sobrava, eles começaram a produzir vinho.
De lá para cá, o que era feito apenas em caso de sobras se tornou renda principal, e a propriedade aumentou: de aproximadamente 1 hectare (ha), transformou-se em quatro deles, quando o pai de Giseli, Rui Luiz Boldrin, ficou à frente do negócio. Agora, a cooperativa tem quase 13 ha sob liderança da produtora.
O caminho até as uvas

Giseli conta que sempre foi apaixonada pelo trabalho no campo, embora tenha formação como professora. “Atuei como docente por sete anos, mas nunca saí por completo daqui da propriedade. Mas, quando tive filhos, precisei escolher, porque estava muito pesado [conciliar cuidados com a vinícola, aulas e atenção à família]. Foi uma decisão difícil, porque eu também gostava muito de ensinar. Só que o amor pela agricultura me fez optar por esse caminho.”
A produtora rural conta que, agora, mesmo com um trabalho puxado, termina o dia satisfeita. E, para os filhos, ela é um exemplo a ser seguido. A expectativa é de que eles — Luana, de 19 anos, e Patrick, de 17 — deem continuidade à história iniciada duas gerações antes.
Os jovens também pretendem contribuir por meio da inovação: para o futuro, eles pensam em obter máquinas de colher uvas, pelo fato de esse processo ainda ocorrer de forma manual na fazenda.

Por não ter irmãos homens, Giseli precisou ser o amparo do pai, assumir o negócio e dar continuidade a ele. Assim, sempre fez de tudo na propriedade. Com 18 anos, dirigia caminhão, participava de palestras com público majoritariamente masculino e levava tratores à oficina.
Assim, ela aproveita para deixar um recado às mulheres: “Nós podemos, sim, chegar e ocupar o lugar que quisermos. E eu gostaria que todas acreditassem poder dar sequência a qualquer negócio que queiram liderar. Sem medo. Porque temos capacidade para isso”, encoraja.
Conquistas

Este ano, a Nova Aliança foi reconhecida como a “Vinícola do Ano” pela Associação Brasileira de Sommeliers. “É das nossas mãos, que somos pequenos agricultores que se mantêm unidos, que vem o espumante reconhecido no Chile como melhor da América Latina, nosso Aliança Moscatel Rosé. Também é das mãos das mais de 600 famílias que compõem a Nova Aliança Vinícola Cooperativa, que atingimos o reconhecimento como melhor vinho Cabernet Sauvignon do Brasil eleito pela Associação Brasileira de Enologia”, comemora.
O papel do crédito rural
Giseli pontua que para ampliar e qualificar o processo de produção das uvas, foi essencial o acesso ao crédito rural. “O Sicredi foi fundamental nesse processo. Ele promove a diferença onde estar, por ser uma cooperativa que busca o desenvolvimento e oferece taxas de juros melhores, com seguros agrícolas e soluções para os proprietários. É muito importante esse incentivo, essa promoção do desenvolvimento”, reforça.
Em tempos de individualismo, ela faz uma defesa também ao cooperativismo: “Hoje a gente vive em um mundo individualizado, de tecnologia e correria intensa, mas somente a cooperação nos permite chegar aos nossos objetivos mais rapidamente. Uma associação de pessoas, em busca de um objetivo comum, sempre vai alcançar suas metas antes de pessoas isoladas. Quando não sabemos o caminho sozinho, é porque talvez uma associação de pessoas seja a solução”, afirma.

Quem também contou com a ajuda do crédito rural para dar uma guinada nos negócios foi a Apicultura Attuati, no outro extremo do estado sulista, na cidade de Boa Vista do Buricá. O ponto de virada para a família veio de um momento difícil: a perda do patriarca Luiz Jacó Attuati, apaixonado por abelhas, que morreu em março de 2022. Diante da perda, os filhos se mobilizaram para não apenas manter vivo o sonho do pai, mas expandi-lo.
Felipe Attuati, de 24 anos, conta que sempre acompanhou o pai, de berço, na produção de mel e nas visitas às melgueiras. “Sempre gostei muito. Gosto da pegada mais natural, levar o alimento para as pessoas, produzir com amor”, confessa. A história deles com as polinizadoras começa quando o pai tinha 15 anos e aprendeu o trabalho com um tio da família. Desde então, lidar com a apicultura se tornou um hobby para Luiz.
“Meu pai gostava muito das abelhas, de ver elas trabalhando. Quando era aniversário dele, ele sempre ia lá no mato ver elas”, conta. E foi para manter vivo essa memória e a história do patriarca, que os Attuati decidiram continuar o trabalho iniciado por Luiz.
O primeiro passo, contudo, era modernizar os processos e construir uma agroindústria voltada aos produtos naturais. Aí entrou o Sicredi, que forneceu o crédito para a família. “O processo foi muito tranquilo, a gente contou a história de como funcionava o trabalho e o que a gente queria fazer”, detalha Felipe.
“Começamos a trocar manejos, o estilo das colmeias, compramos máquinas motorizadas, mudamos alguns processos dentro da agroindústria. Fomos atrás de curso para nos aperfeiçoarmos. E hoje temos uma parceria com o Sicredi, porque quando fazem eventos, eles encomendam também os nossos produtos. Agora, estamos esperando a aprovação do nosso Selo Arte [dado pelo governo federal para produtores artesanais] que vai nos permitir vender para o Brasil inteiro”, conta.
Um momento de reconexão

A mudança de rota na vida de Felipe começou ainda na pandemia, com a maior conexão com o campo e uma aproximação ainda maior com o pai. Até então, ele conta que sempre estava trabalhando fora, mas quando chegou a crise do Covid-19 ficou desempregado e morando com a família.
“Foi nessa época que eu comecei a entender mais sobre as abelhas, o mercado e a visão do meu pai. Disse: ‘pai, eu quero trabalhar contigo’. Mas sempre havia o medo de não produzir o suficiente [para sustentar a todos]. No entanto, quando meu pai morreu, eu tomei a decisão definitiva de continuar tocando o negócio, porque vai de encontro com o que eu acredito: a calmaria, a natureza, o cuidado com as abelhas”, detalha.
O que antes era apenas mel e própolis, hoje se tornou um negócio que reúne pomadas, cosméticos, velas, aguardente de mel, cerveja e sabonetes. A expansão do negócio aconteceu com a inclusão de toda a família: ao lado de Felipe, atua sua mãe, Zenaide Inés, e as irmãs, Caroline e Patrícia.
Ao R7 Planalto, Caroline, de 28 anos, compartilhou um pouco sobre a união da família no cuidado com o Apicultura Attuati. “A gente sabe que estamos fazendo o que ele gostava e estamos levando o nome dele. É um jeito de não apagar a sua história. Se você não fala da pessoa, ela acaba sendo esquecida aos poucos, mas nós temos orgulho de falar dele, e queremos levar a história dele adiante”, afirma.

Carol, como é mais conhecida, cita o cuidado com as abelhas que aprendeu do pai. Hoje elas estão perto de barrancas de rio, para facilitar a colheita do mel na floração e evitar, por exemplo, impactos causados por agrotóxicos. Durante o inverno, a família é responsável por levar a alimentação das pequenas polinizadoras.
A expectativa da família é expandir o negócio com a criação de uma loja física na região e a ampliação das melgueiras: hoje, são cerca de 240, mas o objetivo é chegar a quase 600. Outra meta dos Attuati é criar eventos de degustação de vinho, queijo e mel, com possibilidades também de passeios pelos apiários, para que os visitantes conheçam o funcionamento das colmeias. Diante de tantos planos, o legado deve continuar vivo por muitas gerações, porque Catarina, de 7 anos e filha de Carol, já tem uma enorme paixão pelas abelhas e afirma: será vendedora de mel quando crescer.
Cooperativas de crédito
Superintendente de Agronegócio no Sicredi, Vitor Moraes avalia que hoje o jovem está mais atraído pelo campo. “O jovem precisa olhar para o campo e ver uma possibilidade de prosperidade. O momento do agro vem ao encontro disso, pois o campo está usando cada vez mais tecnologias, mais dados e gestão para alcançar melhores resultados”, explica.
Atualmente, o Sicredi oferece 300 produtos diferentes entre crédito e serviços, das mais variadas fontes, como convênios, crédito livre ou subsidiado. “Temos mais de três mil agências em todo o país, com um trabalho próximo dessas famílias, prestando o cuidado que elas precisam. Temos, inclusive, a iniciativa Comitê Jovem formado por associados do Sicredi, focado em trazer protagonismo profissional e aproximar os jovens do cooperativismo. Ao todo, são 2.000 jovens na iniciativa”, declara.
Segundo Vitor, a carteira de crédito do Sicredi para jovens produtores de até 25 anos está em R$ 3,4 bilhões. “Desse valor, R$ 1,7 bilhões é destinado a linha de investimento e combina muito com esse momento, esse protagonismo que os jovens têm de trazer mais inovação, investimentos, e ampliar as práticas produtivas nas propriedades”, pontua.
“A gente vê uma profissionalização da gestão da propriedade, dos produtores, somando essa transformação com a tecnologia. O Sicredi se orgulha, por exemplo, da proximidade com os cooperados, o que permite que a gente entenda os principais desafios e ofereça a melhor prateleira de serviços e soluções”, acrescenta.
De acordo com o superintendente, a cooperativa está em 200 municípios que não contam com nenhuma outra instituição financeira presencialmente. “A gente continua com o olhar atento para ajudar no que é necessário do ponto de vista de investimento e de crescimento, com consultoria financeira cada vez mais forte. O cenário do agro é um cenário que tem muitos fatores que o afetam e ter esse olhar cada vez mais plural, ajuda nas soluções que trazem resiliência frente ao momento climático”, pondera.
A instituição tem cerca de 700 mil produtores associados, sendo a maioria da agricultura familiar (83%).
Uma vida lidando com a terra

Do outro lado do país, a quase 4.000 quilômetros dos Boldrin e Attuati, outra família vive a mesma experiência de manter vivo um legado no campo. Essa história começou com Aldenia dos Santos Gama, hoje com 76 anos. Ela chegou na região de Nova Califórnia, em Rondônia, na década de 1980, época em que a região era voltada para a exploração dos seringueiros. Hoje, a propriedade é tocada pela filha, integrante do projeto Reca (Reflorestamento Econômico Consorciado e Adensado) e cooperada Associação de Produtores Rurais do Ramal Cascalho.
Para Aldenia, a filha é um orgulho. “Minha filha é muito lutadora, ela busca conhecimento, ela interage, gosta de articular. Desde pequena sempre acompanhou as nossas atividades no sítio”, conta. De acordo com a matriarca, foi dela que a filha puxou um dos traços de personalidade mais forte: “ela é caxia com ela mesma, brigueira, tem que resolver algo não só em prol dela, mas da sociedade. Ela coloca a mão na massa para valer. Não é uma pessoa de desistir no meio da estrada”, afirma.
Railda dos Santos tem hoje 50 anos e cuida, ao lado do marido, Gilberto Barros, 57, da propriedade da mãe. Hoje ela se divide no trabalho na prefeitura, durante a noite, e o cuidado com a terra.
“Sempre morei no campo, mas nunca tinha trabalhado na roça, porque minha mãe logo fundou a escola e eu dava suporte em casa. Meu pai era seringueiro, e via as injustiças que aconteciam. Mas na época, não tínhamos essa cultura de roçar, de plantar e cuidar da natureza”, lembra.

Apesar de cuidar mais dos afazeres da casa, Railda sempre acompanhou as reuniões da mãe no Reca. “Esse é um legado que não pode deixar morrer. Aqui temos o carro chefe que é o cupuaçu, mas também o extrativismo da castanha, do açaí e alguns estão entusiasmados com o café”, conta. Ela cita também outros produtos fortes na região: andiroba, pupunha, graviola, banana e cumaru de cheiro.
Para ela, é preciso manter viva a iniciativa que é uma potência amazônica. “E isso tudo adaptado com a floresta nativa. Formamos florestas com o projeto Reca. O meu pai e minha mãe plantaram aqui, e a gente aprendeu o que são áreas produtivas, que depende de manutenção, que a terra precisa de cuidado. Não poderia deixar de dar sequência em algo que fez e faz a diferença na vida de tanta gente da região. Ver o esforço que minha mãe fez, lá atrás, em uma época tão difícil, de abrir a mente dos moradores para o cooperativismo, me dá forças para lutar por isso também, trazer melhorias”, conta.
Railda detalha que diversos alunos do projeto Reca hoje estão continuando suas atividades no campo e dando continuidade ao que os pais começaram.
Queijo para o café e cooperativismo para vencer o desânimo
Em São Roque de Minas (MG) outra família vive dos frutos do cooperativismo. Onésio Leite da Silva, de 62 anos, primeiro enfrentou a dificuldade de vender os queijos produzidos em sua propriedade sem reconhecimento.
Ele chegou a precisar trabalhar fora para sustentar a família porque o preço dos produtores estavam subfaturados. Com a cooperativa Aprocan (Associação dos Produtores do Queijo Canastra), no entanto, ele conseguiu agregar valor aos seus produtos e hoje os seus queijos são reconhecidos em todo o país.
Adriele Aparecida, de 32 anos, é filha do produtor e se juntou aos pais para auxiliar na queijaria e abrir um restaurante na fazenda. “Meu pai às vezes tinha dificuldade em vender o queijo, fazer nota fiscal e eu voltei para ajudar, para aprender mais sobre o processo”, conta.
“Estou orgulhosa de estar vivendo isso com eles. Eu pretendo seguir o legado, a mão de obra é difícil, mas seguimos trabalhando firme e temos visão de um futuro melhor”, conta.
A família de Onésio trabalha junta para produzir os queijos e atender no restaurante da propriedade
Reprodução/Arquivo Pessoal - arquivo
Cooperativismo de crédito
Além do Sicredi, outras duas grandes redes atuam no Brasil: a Cresol e a Sicoob. Na Cresol há um projeto de sucessão familiar que já atendeu 140 famílias desde 2023. “O objetivo é contribuir com a sucessão familiar nos empreendimentos rurais dos cooperados, por meio de uma trilha direcionada aos responsáveis e filhos, para o desenvolvimento de competências pessoais, técnicas e para a gestão conjunta da propriedade”, conta.
“No desenvolvimento do projeto, a cooperativa busca se aproximar ainda mais da realidade das famílias, por meio dos gerentes de agências, para alinhar as contribuições corretas para cada caso. A abordagem trata da gestão compartilhada e da continuidade familiar, ou seja, em como profissionalizar a família, considerando que diferentes gerações estarão envolvidas por muito tempo na gestão e atividades da propriedade”, acrescenta.
A partir disso, o projeto trabalha de forma integrada com os aspectos comportamentais da família, “um plano para a continuidade acontecer e ser profissionalizada e também a gestão administrativa e financeira da propriedade”.
Esse ponto de suporte é fundamental na visão de Leonardo Martins Ribeiro, coordenador de Agronegócios do Sicoob. “Mais do que dar o crédito, é preciso ensinar a usá-lo bem. Como cooperativa, temos o papel de promover a educação financeira no campo, garantindo a saúde financeira dos nossos cooperados e de suas propriedades”, diz.
O que é o crédito rural?
Leonardo explica que o “crédito rural é um financiamento destinado a produtores rurais, cooperativas e associações para custear, investir e expandir suas atividades no campo. Ele é o motor que impulsiona desde a agricultura familiar até o grande agronegócio exportador”.
Segundo o coordenador, o recurso pode ser usado para diferentes objetivos:
- Custeio: Cobrir despesas do ciclo produtivo, como compra de sementes, fertilizantes e defensivos.
- Investimento: Adquirir máquinas, equipamentos, corrigir o solo, construir armazéns ou investir em tecnologia e irrigação.
- Comercialização: Apoiar o produtor na venda de seus produtos, permitindo que ele armazene a produção para vender no melhor momento.
- Industrialização: Agregar valor à produção, como transformar o leite em queijo ou a uva em vinho.
“No Sicoob, o cooperado procura sua agência, onde ele não é apenas um cliente, mas um dono do negócio. Nossos gerentes, que conhecem a realidade local, avaliam o projeto, sua viabilidade técnica e econômica, e buscam a linha de crédito mais adequada. Por sermos uma cooperativa, nosso foco é o sucesso do produtor, pois o resultado dele é o resultado de toda a cooperativa”, afirma.
De acordo com Leonardo, hoje o Sicoob tem 591 mil cooperados produtores rurais e dessa base, 75% são de pequenos produtores.
“O Sicoob, vem marcando presença em mais de 400 municípios, onde somos a única instituição financeira e temos a maior rede de atendimento espalhadas com mais de 4800 pontos de atendimento. No entanto, nosso diferencial é estar onde muitos não estão. Temos forte atuação no Sudeste, com o café e a cana-de-açúcar, e estamos expandindo no Nordeste e no Mato Grosso do Sul, fomentando culturas regionais e levando desenvolvimento para áreas que mais precisam”, finaliza.
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