Territórios indígenas sofrem contaminação por agrotóxicos em rios, poços e alimentos
Governo não monitora terras demarcadas; estudos consultados pelo R7 Planalto indicam contaminação em pelo menos quatro estados
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Territórios indígenas de pelo menos quatro estados brasileiros sofrem com o impacto dos agrotóxicos na contaminação de água e alimentos. Os dados foram levantados pelo R7 Planalto, com base em pesquisas realizadas por associações, pesquisadores e universidades.
Hoje, o governo federal não realiza o monitoramento dessas informações, segundo apuração da coluna.
Os estudos publicados apontam para contaminação na Terra Indígena Tirecatinga, em Mato Grosso; na comunidade Guyraroká, em Mato Grosso do Sul; no território Turé-Mariquita, da etnia Tembé, no Pará; e no povo Avá-Guarani, que vive no Oeste do Paraná (veja arte abaixo).
Na região de Mato Grosso do Sul, o governo federal criou um grupo de trabalho para mediar conflitos por agrotóxicos em terras Guarani e Kaiowá, conforme revelou à coluna. Uma das possibilidades avaliadas é endurecer as regras atuais de uso dos produtos químicos em fazendas próximas de territórios indígenas.
Questionado sobre dados gerais de contaminação por agrotóxicos em terras indígenas, no entanto, o Ministério dos Povos Indígenas não se posicionou ao longo de quase um mês de apuração.
Para descobrir as áreas brasileiras afetadas, a reportagem consultou seis diferentes estudos realizados por associações e universidades para entender o cenário atual do país.
Sobre o estudo
A pesquisadora da UnB (Universidade de Brasília) e mestre em Desenvolvimento Sustentável, Sandra Damiani, é uma das responsáveis por levantamentos que avaliam esses impactos.
“O estudo que a gente realizou monitorou os impactos socioambientais da conversão do entorno de uma terra indígena para a plantação de dendê em larga escala. Essa pesquisa teve várias metodologias e observou desde a narrativa dos próprios indígenas, sobre o que estava acontecendo, até o georreferenciamento e a perda da vegetação nativa”, explica.
O grupo de pesquisa de Sandra descobriu uma série de danos na região, como o aumento da temperatura, a perda de vegetação e biodiversidade, e as mudanças nos igarapés, como assoreamento e acúmulo de sujeira. Além disso, indígenas relataram sintomas físicos, principalmente após as aplicações dos agrotóxicos.
“Infelizmente, são poucas pesquisas realizadas hoje para descobrir os resíduos de agrotóxicos em água e sedimentos, e os impactos ao ser humano. Existem várias denúncias de povos e comunidades tradicionais, inclusive com casos, em algumas partes do país, em que alegam que a aplicação de agrotóxicos foi feita de forma intencional sobre suas áreas como uma forma de colocar pressão pela saída deles do território”, lamenta.
Para ela, como o Brasil é hoje um grande consumidor de agrotóxicos, era necessário um monitoramento eficaz e periódico para identificar quem está sendo exposto e os danos que isso está trazendo.
“Uma das medidas que poderia ser adotada pelo Estado é o monitoramento da água. Mas, infelizmente, exames feitos para ver a qualidade físico-química da água, ou bacteriológica, não conseguem detectar agrotóxicos. Esse levantamento depende de estudos laboratoriais específicos, pessoas treinadas e equipamentos próprios”, pontua.
Na avaliação da pesquisadora, hoje o Brasil tem poucos estudos que quantificam, realmente, como as comunidades estão sendo afetadas. No estudo feito por ela e outros pesquisadores na comunidade de etnia Tembé, foram coletadas 49 amostras de água superficial dos igarapés e dos poços.
“40% dessas amostras estavam com algum tipo de resíduo de agrotóxicos na água ou nos sedimentos. E vários dos indígenas usavam essa água para consumo e não tinham opção de poços sem resíduos químicos”, detalha.
Um dos três agrotóxicos mais encontrados foi o herbicida glifosato, considerado cancerígeno para humanos. Sandra pontua ainda que o limite permitido no Brasil dessas substâncias ainda é alto, superior aos praticados na União Europeia, por exemplo.
Os indígenas ouvidos por Sandra relataram dor de cabeça, coceira, manchas na pele, diarreia e vômito após o começo da aplicação da substância. Para ela, é urgente que seja eliminado o uso de agrotóxicos no entorno de terras indígenas.
“É preciso criar zonas de amortecimento, que protejam essas áreas indígenas de uma exposição por agrotóxicos Não é impedir a agricultura de usar esses químicos, mas estimular agroflorestas e soluções agroecológicas, pelo menos nas regiões do entorno dos territórios indígenas”, defende.
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Os danos dos agrotóxicos
O R7 Planalto também ouviu a pesquisadora e integrante do Grupo Técnico Saúde e Ambiente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), Karen Friedrich. Ela conta que, embora haja vontade dos pesquisadores de acompanhar a temática, é difícil ter acesso aos recursos para monitorar esses dados.
“Quando a gente vê o processo histórico do Brasil, percebemos que as terras indígenas estão sempre muito próximas de grandes atividades agropecuárias e de garimpo. O que a gente viu na última década, principalmente, foi justamente o avanço muito grande da plantação de soja e da criação de gado, principalmente em território amazônico e sobre terras de povos e comunidades tradicionais”, contextualiza.
Karen explica que a aplicação desses agrotóxicos é de forma pulverizada, de avião ou drone, por exemplo, ou seja, não atinge apenas a plantação do fazendeiro, mas também é levada pelo vento e afeta os lençóis freáticos e a biodiversidade. “Afetando esse ecossistema, automaticamente afeta os indígenas, que ficam sem acesso a água limpa e sem recursos para a caça, por exemplo.”

Para a pesquisadora, as comunidades indígenas estão cada vez mais expostas.
“A pesquisa que a gente fez mostra que 70% do que a gente comercializa de agrotóxicos são produtos reconhecidamente cancerígenos que causam problemas hormonais e endócrinos. São doenças graves, que afetam a região e a continuidade dos povos, que muitas vezes também não conseguem ter filhos”, pontua.
Karen concorda com Sandra ao defender a importância do monitoramento dos dados: dos impactos aos alimentos, água, animais e ao meio ambiente.
“A gente vive uma escassez de informações. Hoje, a distância de aplicação desses químicos é insuficiente para proteger as pessoas. Os próprios profissionais de saúde enfrentam dificuldades para diagnosticar doenças ligadas a essa exposição”, alerta.
Para ela, o segundo passo, depois de suspender a aplicação de agrotóxicos próximos a territórios indígenas, seria acompanhar essas populações de forma sistemática e periódica.
“Os estados e municípios precisam estar capacitados para isso. Vemos investimento em outras áreas que não são tão problemáticas, enquanto esse problema agudo não é vigiado. E o problema é que, além dos agrotóxicos, os indígenas também estão expostos a mercúrio, do garimpo, e outros metais tóxicos. Ou seja, os povos e comunidades tradicionais, que têm uma função fundamental para preservar a natureza e retardar a crise climática, sofrem por um conjunto de fatores que ameaçam sua sobrevivência”, lamenta.
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