A história de Vitor e a realidade das crianças abandonadas pelos pais

Especialistas observam que o impacto do abandono afetivo pode gerar consequências muito graves na vida dos pequenos

Vitor (nome fictício) tem nove anos. O conheci esta semana, quando ele estava pedindo dinheiro nas ruas. Em São Paulo, os termômetros registravam menos de oito graus e Vitor estava vestindo apenas uma camiseta, bermuda e chinelo.

Quando perguntei onde estavam seus pais, o jovem respondeu: "Não tenho pai nem mãe. Moro com meus primos, ao lado de uma biqueira (ponto de venda de drogas). Peço dinheiro para ajudá-los".

Eu e meu marido o convidamos para se sentar ao nosso lado, mas ele estava com vergonha. Conversamos bastante e eu realmente espero que Vitor tenha um bom futuro, mas a realidade é que, assim como ele, muitas crianças já nascem e crescem sem qualquer tipo de estrutura familiar.

Assim como Vitor, muitas crianças estão crescendo sem a presença do pai ou da mãe

Assim como Vitor, muitas crianças estão crescendo sem a presença do pai ou da mãe

Jean Pimentel / Agência RBS

Falta de estrutura

A família é o primeiro contato social que uma criança tem na vida. Por isso, os pais são responsáveis por tudo que envolve a educação, desde os primeiros passos, as primeiras palavras, os primeiros valores...

Os psicólogos são enfáticos ao afirmar que os seis anos iniciais são decisivos para a formação da mente, da personalidade e do caráter. "Diversas pesquisas mostram que a primeira infância é essencial para moldar o modo de agir do adolescente e do adulto. Os pais ou cuidadores são exemplos para tudo. Por isso, se essa criança tiver boas referências, isso a impactará positivamente, caso contrário, ela poderá enfrentar muitos problemas no futuro", observa a psicóloga Aline Saramago.

Só que para ter boas referências é preciso que haja presença. Infelizmente, o abandono afetivo não é incomum. "O abandono afetivo consiste na omissão de cuidados e criação. Assim como Vitor, muitas outras crianças são abandonadas pelos pais... Essa ausência deixa marcas profundas nas crianças, porque elas consideram que não são merecedoras do amor deles", esclarece o psicanalista, Gregor Osipoff.

Consequências

Além disso, a atitude de pedir dinheiro evidencia a falta de recursos para as necessidades básicas. "Deixando uma reflexão de como essa criança está sendo ajudada. Criança precisa estudar e brincar", pontua o Dr. Gregor Osipoff.

E aí vem a bola de neve, porque sem as condições mínimas para sobreviver, o jovem inverte as prioridades e fica refém de qualquer referência, que pode ser um amigo, um vizinho, até mesmo um traficante. "E isso pode causar prejuízos graves. Por não ter a base de conhecimento para seguir, nem conselhos e exemplos éticos e morais que uma família tem a obrigação de passar ao longo da convivência, esses jovens podem crescer revoltados", observa o psicanalista.

Combate e prevenção

Na percepção dos especialistas e também de diversos estudos, o Brasil tem hoje mais crianças e adolescentes pedindo dinheiro nas ruas e usando álcool e drogas.

Crianças abandonadas pelos pais ficam sem referências e clamam por ajuda

Crianças abandonadas pelos pais ficam sem referências e clamam por ajuda

Pixabay

De forma geral, nos tornamos o que aprendemos com quem convivemos e como fomos cuidados. Por esse prisma já temos uma resposta do resultado que o abando faz no ser humano. Muitos olham para o Vitor e o enxergam apenas como "mais uma criança pedindo dinheiro pelas ruas". Infelizmente, ver esses pequenos como números não ajuda em nada, pelo contrário, só dificulta ainda mais a vida daqueles que não pediram para nascer nesse ambiente.

O artigo 227 da Constituição Federal, bem como o artigo 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/1990), atribui aos pais e responsáveis o dever geral de cuidado, criação e convivência familiar de seus filhos, bem como de preservá-los de negligências, discriminação, violência, entre outros. Não há como obrigar um pai a amar um filho, mas a legislação lhe assegura um direito de ser cuidado.

Esse também é um problema da sociedade, pois o futuro da existência está nas crianças, que dão sequência à vida. "Apesar das leis, precisamos debater mais sobre esse tema para buscar levar às pessoas uma maior conscientização", conclui o psicanalista, Gregor Osipoff.

Quando se decide ter um filho é preciso saber que aquela criança exigirá comprometimento dos pais. É claro que a presença deles não a imunizará dos males do mundo, mas certamente trará mais proteção, segurança e confiança para que se desenvolvam de maneira saudável.

Porque tudo que acontece na infância traz consequências para a vida adulta. Isso talvez justifique o aumento da criminalidade, de pessoas infelizes, com depressão, desejo de suicídio, inseguras e frias. Atenção, participação e envolvimento são necessários para o bom desenvolvimento das crianças e jovens. A presença dos pais na educação dos filhos nunca foi tão importante como é hoje.

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